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Morreu D. Idalina Barreto

Brito-Semedo, 10 Jan 12

 

Lina.jpeg

 Foto Brito-Semedo, Janeiro de 2005

 

Idalina Monteiro Barreto

 

(S. Vicente, 17.01.1916 - Praia, 10.01.2012)

 

Homenagem Especial a uma Mãe de muitos filhos, sem que nenhum deles fosse seu biologicamente

 

Por Monteiro Fortes & Brito-Semedo, Ex-Seminaristas

 

Ela não atrai no primeiro contato. Sua postura discreta, de fala pouca e mansa,  jeito matreiro, é mais de quem investiga de que quem se expõe. Seus olhos pretos, emoldurados por tez morena, são perscrutadores cuidadosos.

 

A ninguém permite confiança além da necessária, com refinado dom de colocar o interlocutor à distância desejada.

 

A singeleza de seu caráter e a integridade de seus princípios sempre foram transparentes aos que se relacionaram com ela. Sua autoridade serena nunca conflitou com suas boas maneiras.

 

Foto Álbum de D. Idalina Barreto
Seminaristas Mário Lima, Manuel Ramos, Samuel Barros (afilhado) e J. Monteiro Fortes

 

Sustentou polêmicas com equilíbrio de boa inteligência emocional. Quando a discussão esquentava ou os problemas assumiam dimensões incomuns, seu equilíbrio e sorriso permaneciam inalterados.

 

O perfil ideal de uma executiva – diriam head-hunters modernos.  Melhor que isso: perfil perfeito para Mãe de dezenas de filhos, de todas as idades, várias gerações,  múltiplas formações.

 

Estamos falando de IDALINA BARRETO.

       

A distinta Governanta do Seminário Nazareno de Cabo Verde, de Janeiro de 1960 a Agosto de 1995. Com invejável habilidade relacional, deixava a todos os “filhos dela” o convencimento de que gostava de cada um em particular. Jamais se percebeu qualquer gesto de favoritismo. Sua integridade de caráter não lhe permitia tal deslize.

 

Admirados com seu talento de liderança, sua personalidade e destemor, ganhou o apelido de Golda Meir, destemida primeira-ministra israelense à época, que costumava intitular-se “único homem do gabinete”.  Dona Idalina não perdia em seu rádio transistor portátil o noticiário nacional e internacional e estava sempre pronta para discutir qualquer questão.

 

Foto Álbum de D. Idalina Barreto
D. Idalina Barreto com D. Isménia Heenan, junto à entrada do Lar dos Estudantes do Seminário

 

Em meio a desafios e responsabilidades sabia encontrar tempo para manter amizades e sair à noite para relaxar. Tinha intuição clara da importância de se divertir. E quando nós, com preocupação filial, chamávamos sua atenção por sair tarde da noite sozinha, com sorriso e humor irreverentes respondia:“Para quê alguém iria querer atacar uma velha”.

 

– J. Monteiro Fortes, S. Paulo, Brasil

_____________

 

Conheci a D. Idalina Barreto de longe quando, regressado da Praia, comecei a frequentar a Escola Dominical. Tinha eu 13 anos e andava na classe dos “Estafetas”, tendo passado depois para a dos “Herdeiros da Coroa”. Sempre fui irrequieto, muito irrequieto mesmo, e activo na Igreja do Nazareno do Mindelo, pelo que não lhe terei passado despercebido nesses anos da minha adolescência e juventude.

 

Só entrei, de facto, no círculo da convivência da D. Idalina Barreto já no Seminário Nazareno, nos idos de 1972. Mesmo assim, ela mantinha uma postura de distância, austeridade e rigor, “para não dar confiança aos safardanas (sic)”. Tempos depois, percebi que isso era uma máscara que escondia um coração de manteiga. Não muito depois, conquistada a confiança e o respeito, ela já entrava nas nossas brincadeiras, tendo-nos inclusive, apoiado na adopção de um cãozinho que foi abandonado à nossa porta ao qual pusemos o nome de “Leão”, tendo-lhe ela acrescentado os apelidos: “Brito Maia Gomes”, transformando assim um vira-latas num “aristocão”.

 

Penso que foi devido a uma circunstância da minha vida familiar que levou a Lina a me adoptar, como terá feito com tantos outros que lhe passaram pelas suas mãos e que conseguiam arrancar-lhe dos olhos algumas “lágrimas teimosas”, dizia ela, no Dia da Formatura.

 

Invoco a nossa convivência nos três anos passados no Seminário, com ensinamentos, incluindo o comportamento à mesa, e conselhos de “mulher que já tinha visto muita coisa”. Graças ao seu regime, apurou-se-me o espírito de poupança, desenvolvendo o hábito de não deixar as luzes acesas quando não são precisas, fechar as torneiras para poupar a água e outras coisas mais. Só não pratico na minha casa a norma de não repetir a sobremesa, por ser demasiado guloso.

 

Foto Álbum de D. Idalina Barreto
D. Idalina Barreto com os Seminaristas M. Brito-Semedo, Jorge Maia Lopes e Manuel Sança Gomes (1973)

 

Pela vida fora, com muitos desvios no meu percurso profissional, o que me levou a viver no exterior por vários anos, a nossa amizade foi crescendo, procurando a Lina sempre se informar dos meus progressos. Em Janeiro de 2001, numa das suas vindas à Praia, fui visitar a Lina a casa dos Compadres D. Zita e Sr. Napoleão Santos, e fiquei emocionado com a sua manifestação de carinho e interesse. A Lina fez questão de me dizer que eu constava da sua lista de oração e que guardava uma fotografia minha que, na falta de melhor, ela tinha recortado da Epístola. Tratei de lhe oferecer uma boa, estando eu formal e sério, de fato e gravata, que confirmei encontrar-se no seu álbum de fotos.

 

Permitam-me invocar só mais um fragmento da minha vivência com a Lina, esta, de Julho de 2005.

 

Encontrei-me com a Lina na Rua Andrade Corvo e, como era perto do meio-dia e eu tinha ainda de passar por uma loja, disse-lhe que lhe dava tempo de chegar a casa e ia lá cumprimentá-la. Dito e feito. No momento em que me aproximava da casa do Sr. Napoleão Santos, vi a Lina a chegar e chamei-a. Aproximei-me, cumprimentei-a mais uma vez e apresentei a minha mulher. Aí ela exclamou: “Eu já estava a ver quem era essa mulher que trazias contigo!”, pensando ela, talvez, que fosse alguma piquena. Sem se desarmar, ela acrescentou: “É que eu só a vi uma única vez, e foi há muito tempo!... E ela está cada vez mais bonita!”

 

Dias antes, o Ulisses Santos, o Lalitcha do Sr. Napoleão, esse maroto que se atrasou a nascer porque a Lina queria que fosse no mesmo dia que ela, cometera a mesma gaffe, só que com uma saída menos brilhante.

 

Daqui a mais cinco anos, pelo centésimo aniversário da Lina, espero ter mais fragmentos da nossa vivência para evocar. Lina, parabéns, e obrigado pela sua estima!

 

“Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a memória” e que por largos tempos tenhamos ainda a D. IDALINA BARRETO e com muita saúde!

 

– M. Brito-Semedo, Praia, Cabo Verde

 

Mornas "Mãe Querida", do conjunto 'Os Tubarões' (aqui) e "Seis one na Tarrafal", interpretado por Humbertona (aqui).

 

 

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12 comentários

De Zé Fortes a 07.05.2011 às 20:01


Caro Brito

Acabei de ler a postagem em homenagem à Dona Idalina e estou aqui me deliciando com a morna dos Tubarões.

Inevitável não lembrar na nossa própria mãe e tantas outras que DEUS colocou em nosso caminho para nos abençoar. Me lembrei também de uma morna antiga, ao que me contaram o compositor estava preso no Tarrafal quando soube da notícia da morte da mãe: "Mi sais anu na Tarafal/Sem podê salva nha mai"...

Acho que fizemos bom trabalho. Teria ficado melhor se tivéssemos tempo para unificar o texto. Espero que Dona Idalina possa sentir a sinceridade desta homenagem.

Seria bom se outros seminaristas se manifestassem e pudessem mandar fotos para integrar-se ao que nos propusemos fazer.

Obrigado pelo teu estímulo e perfeita coordenação.

Com amizade e admiração,

De Brito-Semedo a 07.05.2011 às 20:39

Amigo e Irmão, O resultado da nossa parceria está muito bom e o nosso objectivo foi atingido. Espero que outros antigos Seminaristas se manifestem com mensagens e fotos, que  me encarregarei de as passar à D. Idalina Barreto.
Quanto à morna que referiste, não seja por isso. Consegui um solo de violão de Humbertona que acrescentei ao post.
Um abraço e Feliz Dia da Mães!

De Álvaro Ludgero Andrade a 08.05.2011 às 19:35

Prezados Brito e Zézé (custa-me ainda chamar ao primo Zézé de Fortes), muito obrigado por esta homenagem de coração, feita a uma mulher na verdadeira acepção e conteúdo da palavra. Tia Idalina, como a conheci e a chamo, era o primeiro nome que eu gritava, assim como o meu irmão Tito, quando me adoecia porque vinha logo com uma lata de sumo Compal... As saídas à noite, muitas delas terminavam na minha casa, ou seja na dos meus pais, e apesar da aparência de "general" o seu coração sempre falou mais alto. Obrigado pelas flores em vida à tia, ainda que de estimação e não de sangue.

Alvarito

De Brito-Semedo a 09.05.2011 às 00:15

ALA, Essa fase vivi-a eu tendo a Lina Barreto como Governanta do Seminário, pelo que compreendo bem e me toca esse teu comentário. Recordo igualmente e com muita saudades o teu Pai, o Sr. Nununo , nosso Conselheiro Espiritual. Um abraço!

De João Sá a 09.05.2011 às 16:29

Que bela parceria de que resultou uma magnífica combinação de textos, imagens e música.
Merece sem dúvida estar em destaque "Na Rede" da homepage do SAPO Cabo Verde.

De Brito-Semedo a 09.05.2011 às 17:32

Obrigado pelo destaque! Assim, a homenagem terá maior repercussão. A parceria, de facto, funcionou muito bem, motivado por esta grande mulher!
Um abraço!

De Trêza a 09.05.2011 às 16:42

Esta senhora é fascinante e muito inspiradora :-) Obrigada por esta partilha :)

De Brito-Semedo a 09.05.2011 às 17:35

Trêza , Que alegria vê-la por aqui! Saiu de fininho, não disse nada... Afinal tem estado encostado ao "Na Esquina" caladinha, que eu não tinha dado conta que estivesse atenta às conversas. Um abraço e não se vá embora!

De Trêza a 09.05.2011 às 19:49

Tenho acompanhado no feed que é como quem fica quietinho a assistir ;-) Este seu blog é uma animação! Parabéns pela dinâmica!

De 88v35qwAMendes a 11.01.2012 às 09:44

...Já se passaram muitos anos...
Não tenho a certeza se era esta simpática Senhora que nos obsequiava com uns docinhos... lá no ringue/ campo de voleibol... na casa do Sr Mostela, junto á Escola Nova...
Fosse que não fosse:
Muita Paz á sua Alma.

De Ulisses Santos a 16.01.2012 às 15:58

Prezados Sr. José Fortes e Brito Semedo (lá se foi o Sr.): que bonita homenagem! Este gesto não me surpreende pelo afecto que sei tinham pela Ninha e ela por vós. Confesso, no entanto, que apesar de saber disso fiquei muito emocionado. Para além do mais, a via utilizada permitiu a muita gente amiga e/ou apenas conhecida saber um pouco mais da Ninha, uma mulher de fibra, de educação espartana, mas profundamente humana e carinhosa. Lembro-me que era com ansiedade que os meus irmãos e eu aguardávamos a chegada dela, após um ano de labuta no Seminário, para connosco passar as férias na Praia, distribuindo prendas para todos, principalmente os drops ingleses vendidos pela JBC, degustados por nós avidamente. Também recordo-me do martírio que era sentar à mesa nos dias em que o almoço era peixe para de lá levantarmos só depois de o termos devidamente  saboreado (?), sempre com a ameaçadora presença do “Salazar” (cinto do nosso pai que ela pedia por empréstimo naqueles momentos). É que, para ela, que conviveu com duas fomes em Cabo Verde, esse tipo de caprichos - de escolher o que comer - não era tolerável.  


Embora haja lições a retirar de todo o percurso dela, um episódio marcou-me. Um dia, éramos nós crianças, a Ninha viu o Calú todo embevecido por um triciclo pilotado por um amigo. Naqueles tempos um triciclo era caro e era um ou outro que se vendia nas lojas. A Ninha ficou comovida. Tendo ela regressa ao trabalho em S. Vicente, em poucos dias chegou uma prenda para o Calú. Nada mais nada menos que um triciclo muito bonito. Para mim dos mais bonitos que tinha visto. Vim a saber, já na velhice dela, que levou um ano a pagá-lo em prestações.


Poderia ficar aqui a contar mil e um episódios, cada um mais marcante que o outro. E sei que vocês terão muitos também. Ela se foi, mas ficam as marcas de uma mulher de princípios, que apesar da figura austera que aparentava tinha um coração de ouro. Sodadi di bo Ninha.         Ulisses/Lalitcha


 

De Brito-Semedo a 16.01.2012 às 23:37

Meus Caros co-Admiradores e "Afilhados" da D. Idalina Barreto,

O Fortes que me desculpe a antecipação, mas para alguma coisa vale ser o dono do Magazine Cultural - "Na Esquina do Tempo"! LOL!

O Afilhado Ulisses Santos juntou-se a nós e faz aqui a sua homenagem pública à sua Ninha, a minha Lina Barreto, a Golda Meyr do Fortes.

Sensibilizou-me o testemunho peculiar sobre essa grande Mulher de quem nasceu e cresceu debaixo das suas asas! Obrigado Lalitcha pela partilha e um bem haja à Lina!

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