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Crónicas A Manduco... (2)

Brito-Semedo, 22 Mai 10

 

Fogo, salve!

 

Uma incontestável verdade, por exemplo, é ter o Fogo apenas uma escola para o sexo feminino possuindo uma população de mais de 22 mil habitantes.

 

É também verdade que a câmara podia criar uma outra, pois tem recursos para o fazer, em alguns dos povoados mais distantes do interior. Mas não a tem criado até hoje... É ainda verdade, em contraposição, que talvez tenha a câmara razão para se desinteressar, em vista da desconsoladora frequência (22 alunas) da actualmente funcionando.

 

Ninguém pode negar as verdades acima, nem as que abaixo seguem.

 

Por certo à actual vereação não pode caber a culpa dos desleixos das anteriores; mas achando-se agora no poder, cumpre-lhe zelar com carinho os múltiplos interesses dos munícipes.

 

Há fome na ilha? Se não tem dinheiro, peça-o, exige-o... a manduco, se for necessário, não deixe porém, o povo morrer à míngua.

 

Não há escolas suficientes, ou mal situadas? Crie uma, transfira outra e reclame mais... Se a reclamação não for da primeira vez atendida, renove-a tantas vezes quantas forem precisas até o ser. Haja constância, haja união. Em S. Jorge – freguesia de S. Lourenço – precisa-se de uma escola, de uma estação postal e de um cemitério. Será impossível a obtenção desse pequeno melhoramento? Não nos parece. Com 100$000 réis para o cemitério e 180$000 réis anuais para a escola e a estação postal, temos a obra feita. Sabem os leitores quantos quilómetros têm os habitantes daquela aldeia a percorrer para darem uma lição ou enterrarem os mortos? Ida e volta, trinta e por caminhos... de cabra. Para uma tal maçada, antes ser mil vezes burro, e deixar os corpos ao banquete das aves.

 

Quanto à estação postal, tem a palavra o senhor director dos correios da província. O inquérito a que anda procedendo, provará a sua Exª. a justiça da nossa reclamação.

 

Quanto à escola, etc., etc., lembre-se a actual vereação, onde contamos inolvidáveis amigos, lembre-se também o governo, de que o título agridoce desta secção é... a manduco.

 

Ora pois...

AFRO

 

 

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5 comentários

De Ricardo Riso a 22.05.2010 às 22:36


Pena feroz a do poeta-cidadão!! Um recado A MANDUCO, definitivamente!
Só tenho a agradecer a oportunidade de conhecer essa vertente do Pedro Cardoso nesta Esquina. Muito obrigado, Manuel!
Grande abraço,
Ricardo Riso

De Brito-Semedo a 23.05.2010 às 12:14

Caro Amigo, Quando se comemora os 100 anos da República Portuguesa, fico admirado com o envolvimento a ousadia de nativistas e Republicanos nossos como Pedro Cardoso, Eugénio Tavares e outros! É caso para se dizer: Já não se faz homens como antigamente! É que ainda hoje faz sentido e apetece pôr a ordem nas coisas "A Manduco..."! Um abraço!

De Ricardo Riso a 23.05.2010 às 22:20

Prezado Manuel,
penso que este é um dos papéis do intelectual. Pena que por aqui essa postura tem se tornado rara, infelizmente. Temos uma situação que, para nossa tristeza, consegue ser hilária de tão surpreendente por que as crônicas de Lima Barreto escritas nos dois decênios iniciais do século XX retratam os mesmos problemas pelos quais passam a cidade do Rio de Janeiro atual.
Mas dá gosto conhecer a postura incisiva do poeta! O que só me faz aumentar a admiração não só pela poesia, como também pela biografia digna.
Abração!!

De Ernestina Santos a 08.06.2010 às 19:28

Da pena do poeta, escritor e jornalista Pedro Cardoso, o manduco de um homem que amava a sua terra, pelo que exigia uma melhoria da qualidade de vida da população, sempre desleixada e ignorada pelos sucessivos governos portugueses no poder.

Espero poder ver ver a seguir a Pedro Cardoso a divulgação da obras de mais nativistas e, depois, dos claridosos, que tenho ouvido tantas vezes serem maltratados pela intelectualidade contemporânea.

Abraço, Manuel.

De Brito-Semedo a 08.06.2010 às 22:29

Cara Amiga, Para já, o propósito é divulgar os textos menos conhecidos, porque dispersos pelos jornais, de Guilherme da Cunha Dantas e Pedro Monteiro Cardoso, mas pode ser que, depois, venha a trazer para o público outros textos e outros autores "esquecidos", sobretudo os mais antigos. Ah, as Mulheres-Poetas como Antónia Pusich e Maria Luísa de Sena Barcelos Pinto Ferro (a "Africana"),  estão no meu projecto. Um abraço!

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