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Formas de Ler e de Ensinar a Literatura

Brito-Semedo, 27 Mai 10

 Foto do Google, Autor Desconhecido

 

Sinto-me honrado e grato aos organizadores do II Encontro Nacional de Coordenadores de Português do Ensino Secundário pelo convite para nele participar, o que pode ter vindo naturalmente pelo facto de ser (ou ter sido) docente do Departamento dos Estudos Cabo-verdianos e Portugueses do Instituto Superior de Educação (ISE), promotor desta iniciativa.

 

Já o que pode não ser tão natural ou inocente é o Antropólogo apresentar um tema que, à primeira vista, é do domínio da Didáctica, envolvendo metodologias do ensino da língua e da literatura. A novidade pode estar precisamente nisso, esperando eu poder trazer um novo olhar e uma nova forma de abordagem sobre o tema, ciente que é do debate que nasce o consenso, até porque desconheço o peso que a literatura tem nos currículos do Ensino Secundário e de como é feita a gestão do programa da Disciplina de Português.

 

Trago, assim, como tema para debate Novas Formas de Ler e de Ensinar a Literatura Cabo-Verdiana. Para isso, focarei a minha atenção no papel que a etno-história tem (ou pode ter) no estudo e no ensino da literatura, destacando dois aspectos: (i) a relação entre a literatura, a sociedade e a cultura e (ii) o jogo que a literatura estabelece ou pode estabelecer com a História.

 

A RELAÇÃO ENTRE A LITERATURA, A SOCIEDADE E A CULTURA

 

Se tomarmos como facto que a literatura reflecte para o leitor a realidade social de uma dada época, como que num jogo de espelho entre a realidade e a imagem, somos a concordar que se um leitor/professor possuir um conhecimento insuficiente dos fenómenos sociais e culturais envolventes da obra, fica gravemente prejudicado no processo de leitura e de ensino do texto literário.

 

Esta ligação entre a literatura, a sociedade e a cultura tem sido fundamental para os mais diferentes escritores, nas mais diversas produções, da ficção à poesia, passando pelo dramático. E é isso que confere unidade ao conjunto dos diferentes textos dos vários autores.

 

Nas literaturas novas, como são as africanas e a cabo-verdiana, nosso enfoque, essa relação é particularmente evidente. É que a literatura está ao serviço da sociedade e isso pode ser identificado dos primórdios à modernidade, ou melhor, do Período do Cabo-verdianismo (1842-1936) ao Período da Cabo-verdianidade (1936-1975) ou mesmo do Período do Universalismo (1975-…). Reparem que, de propósito, deixei de usar as expressões Pré-Claridoso, Claridoso e Pós-Claridoso que, segundo meu ver, faz mais sentido, já que de maior equilíbrio entre cada um dos períodos e, sobretudo, porque essa classificação já indexa para o nível de envolvimento que essa literatura estabelece com a sociedade cabo-verdiana.

 

Vejamos alguns exemplos, sem pretender esgotá-los:

 

No Período da Cabo-verdianidade

 

Exemplo 1 – Os romances Chiquinho, de Baltasar Lopes (1947); Chuva Braba (1956) e Flagelados do Vento Leste (1959) de Manuel Lopes; a poesia dita evasionista, de Jorge Barbosa, Arquipélago (1935), Ambiente (1941) e Caderno de um Ilhéu (1956); a poesia dita de combate, de Ovídio Martins, Caminhada (1962) e Gritarei Berrarei Matarei. Não Vou para Pasárgada (1973); de Gabriel Mariano, Doze Poemas de Circunstância (1965); ou de Onésimo Silveira, Hora Grande (1962), produzida na Casa de Estudantes do Império ou nas então colónias, sob a vigência do regime salazarista.

 

Exemplo 2 – A trilogia de romances de H. Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda (1978), Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992), sobre a sociedade da ilha do Fogo e do soçobrar dos sobrados ou de uma classe que o tempo destroçou, ou mesmo os romances Capitão de Mar e Terra (1989) e Djunga (1990), onde faz a descrição de uma dada época e pinta o retrato dos hábitos e dos costumes da ilha de S. Vicente.

 

No Período do Universalismo

 

Exemplo 3 – O romance Os Dois Irmãos (1995), de Germano de Almeida, sobre os hábitos e costumes e o conceito de honra do interior da ilha de Santiago, o que é, ao fim e ao cabo, um choque entre o peso da tradição e a leveza da modernidade.

 

O JOGO QUE A LITERATURA ESTABELECE COM A HISTÓRIA

 

As marcas, os limites, os dilemas, as contingências de cada tempo e sua superação projectam-se nos textos, ainda que sob a capa da ficcionalidade. Foi assim no passado e também o é hoje. O nosso desafio, enquanto professores da literatura é, com base na memória histórica, nos contextos, nos desenhos cifrados, no dito e no não-dito, procurar as linhas d’água que distinguem os textos e os caracterizam.

 

É assim que o Professor da Literatura Cabo-verdiana sente necessidade de recorrer ao conhecimento da História Universal e de Portugal para saber a História da então Província Ultramarina de Cabo Verde.

 

Ele precisa conhecer os efeitos e a repercussão do Movimento Liberal de 1820 e das guerras entre os liberais e os absolutistas (1823-1834), factos esses determinantes para a instalação da imprensa e a implantação e a regularização da instrução pública nas Ilhas (primária e secundária) e o surgimento de uma elite letrada; do Estabelecimento da República, em 1910; das políticas do Estado Novo estatuído em 1933; da Casa dos Estudantes do Império, criada em Lisboa, em 1944; só para enumerar alguns.

 

O conhecimento desses factos históricos é indispensável para uma leitura de obras fundamentais da nossa Literatura.

 

Vejamos mais alguns exemplos:

 

No Período do Cabo-verdianismo

 

Exemplo 4 – Os romances O Escravo, de Evaristo d’Almeida (1856) e Memórias dum Pobre Rapaz, de Guilherme Dantas (2007) ou mesmo alguma poesia de José Lopes, Eugénio Tavares ou Pedro Cardoso, aqueles, plasmados sobre a realidade histórica da Monarquia Liberal, e esta, sobre as disputas políticas trazidas para as Ilhas, com o advento da Primeira República.

 

No Período da Cabo-verdianidade

 

Exemplo 5 – O romance Entre Duas Bandeiras (1994), de Henrique Teixeira de Sousa, que tem como pano de fundo uma fase conturbada da nossa História, entre o período a seguir à queda do regime político em Portugal e a independência de Cabo Verde (1974-1975), ou seja, entre as bandeiras das cores rubra e verde e da estrela negra.

 

Período do Universalismo

 

Exemplo 6 – o romance O Meu Poeta (1990) ou a Morte do Meu Poeta (1998), de Germano de Almeida, todos relacionados de uma forma directa com a História Política recente do País, do regime do partido único do PAIGC ao sistema do multipartidarismo, com a governação do MpD (1991-2001), ou ainda, Dona Pura e os camaradas de Abril (1999), abordando o período histórico e o processo de negociação que desembocaria na­ independência de Cabo Verde.

*

 

À laia de conclusão, apenas acrescento que pretendi fazer uma abordagem que pratico nas minhas aulas do Curso de Licenciatura, procurando fugir à abordagem clássica de um professor de literatura típico, que a encara como estanque, pelo que estou disposto a discuti-la convosco.

 

- M. Brito-Semedo

 

 

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6 comentários

De Izaura Furtado a 28.05.2010 às 09:47

Sr. Prof. Doutor Brito-Semedo

Gostaria de felicitá-lo pela pertinente reflexão sobre as «Formas de Ler e de Ensinar a Literatura».

Todo o processo deve se estimulado ainda na pré-escola e no ensino básico, através da inter face entre o ensino do Português e de outras disciplinas, como por exemplo, a Expressão Dramática.

O seu texto foi muito útil para mim, porque amanhã devo animar uma formação para professores do EBI da Praia, sobre «Avaliação de Alunos com NEE - Necessidades Educativas Especiais » e uma das actividades chave é o visionamento da peça teatral «Blimundo», realizada na escola portuguesa de Rio Tinto. Tudo é encenado por alunos, na sua maioria com NEE. É emocionante ver as crianças portuguesas dramatizando, com entusiasmo, personagens da literatura caboverdiana, como o Blimundo, a Côdezinha, o Barbeiro, o Rei, a Rainha, o Menino do Katigá, numa belíssima iniciativa da artista Celina Pereira!

Oxalá os nossos meninos cá nas Ilhas tenham muitas oportunidades de aprender a gostar de Literatura desde cedo! E assim se aprende Literatura, «porque é de pequenino que se torce o pepino»! Saudações!

De Brito-Semedo a 29.05.2010 às 17:18

Cara Amiga, Agradeço a sua contribuição para esta reflexão. Essa vertente dramática, a que se refere, é muito importante, sobretudo para os mais novos. Neste particular, de facto, entram as publicações infanto-juvenis (embora ainda poucos de produção nacional) como o "Blimundo", "Capton Farrel" e outros, e dos nossos clássicos adaptados ao teatro, como "A Caderneta", de Baltasar Lopes, e "Flagelados do Vento Leste", de Manuel Lopes, bem assim passados para a tela, para o cinema, lembrando das experiências das obras de Germano Almeida, Teixeira de Sousa, Manuel Lopes e Evaristo d'Almeida, respectivamente, com "O Testamenteo do Senhor Napomuceno...", "Ilhéu de Contenda", "Flagelados do Vento Leste" e "O Escravo".

Espero, Colega Professora, que tenha tido uma boa sessão com os Professores do EBI na utilização do "Blimundo", de Celina Pereira, e que esta iniciativa se multiplique, para o estímulo à leitura das nossas crianças em geral e, particularmente, traga uma nova visão sobre os alunos com NEE.

Um abraço e continue a parar  "Na Esquina do  Tempo".

De Ricardo Riso a 28.05.2010 às 22:09


Meu caro Manuel, pertinente a discussão proposta neste texto. Também considero essencial para o ensino da Literatura o acompanhmento de outras áreas do saber como a História, principalmente. Essa relação demonstra, para o joevem estudante e ainda como uma forma de atrai-lo ao texto literário, a relevância de determinada obra ou de algum autor. Não desconsiderando as análises estruturalistas, mas é essencial contextualizar a obra de um escritor em seu tempo, é fundamental conhecer a biografia do autor. Nas literaturas surgidas nos países que sofreram a violência da colonização como os nossos, essa condição impõe-se de sobremaneira.
Tento, dentro do meu parco conhecimento, mostrar a importância do contexto histórico no qual foi se sedimentando as literaturas africanas durante o séc. XX, e no caso específico de Cabo Verde, como isso influenciou as obras de Ovídio Martins, Mário Fonseca e Onésimo Silveira, por exemplo, e como ainda se apresenta de forma inquietante nos contemporâneos, considerando José Luis Hopffer Almada como um dos expoentes da rememoração biográfica e coletiva e da revisão crítica da história recente das ilhas.
Gostaria que o senhor enviasse o seu e-mail para que eu possa lhe mandar uma apresentação que fiz em uma escola daqui do Rio, para assim o senhor ter ciência de como eu trabalho, e se possível me orientar de alguma maneira.
Ah! Aproveitei para anotar os livros citados, com maior atenção para os de Germano Almeida e Teixeira de Sousa.
Grande abraço,
Ricardo Riso

De Brito-Semedo a 29.05.2010 às 18:27

Absolutamente de acordo , Caro Amigo. A Prof. Izaura Furtado também chamou atenção para outros recursos, como a dramatização, ao que eu acrescentei o cinema. Neste particular, às Tecnologias de Informação e Comunicação está-lhes reservado um papel particularmente importante. Um abraço!

De Ernestina Santos a 08.06.2010 às 19:58

Sucinto mas elucidativo, esclarecedor mas aliciante, tal é a abordagem da literatura que nos transmites como professor desta disciplina tão importante na formação de futuros cidadãos.

Enquadramento social e histórico das obras, acrescentando-se a seguir o enquadramento dramático e cinéfilo, feito neste tom claro e aliciante, é uma aposta séria para estimular o interesse e o estudo dos nossos jovens.

Gostei que se tivesse salientado a relevância do conhecimento da biografia dos autores, que deixam compreender a opção de estilos de autores importantes, de que é exemplo o nosso Prémio Camões Armindo Vieira.

Obrigada por esta partilha! Vou guardar esta resenha sucinta mas extensiva de autores importantes da nossa cabo-verdianidade.

De Brito-Semedo a 08.06.2010 às 22:37


Temos uma Leitora Assídua e Fiel "Na Esquina"! É bom saber a repercussão dos nossos textos aqui postados para podermos continuar as nossas reflexões e partilhas! Obrigado!

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