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Adquirí em Mindelo, em sistema de troca, o livro do patrício e vizinho da Chã de Cemitério a viver na terra-longe, Valdemar Pereira, O Teatro é Uma paixão, A Vida é uma Emoção. Pela temática – o teatro do Conjunto Cénico Castilhano (1948-1954) – e pelo propósito – os lucros provenientes da sua venda destinarem-se aos 'meninos de rua' da ilha de S. Vicente – saúdo efusivamente o seu autor e destaco a sua obra, aqui no "Na Esquina do Tempo" como "o livro da semana".

 

Há um ano atrás, a 09-05-2010, na sequência do seu lançamento em Lisboa, o blogue-confrade ”Café Margoso”, do amigo João Branco, postou uma matéria sobre o livro. Dado à pertinência e à actualidade do texto, ele é agora aqui reproduzido, com a devida vénia.

 

 

Foi uma cerimónia emocionante. E geralmente é assim quando alguém que fez teatro em Cabo Verde resolve deixar o seu testemunho, mais a mais, em forma de livro. Lançado no passado Sábado em Lisboa [o texto é de 09.05.2010], na muito simpática Associação dos Antigos Alunos Liceais de Cabo Verde, o livro de Valdemar Pereira intitulado «O teatro é uma paixão, a vida é uma emoção» provoca diversas perplexidades e convoca múltiplos estados emocionais.

 

Em parte substancial desta obra, um documento precioso, o autor relata a criação do Conjunto Cénico Castilhano, criado com o objectivo de reactivar o futebol do Grémio Sportivo Castilho, que pela primeira vez no seu historial associativo, se viu metido em tais andanças teatrais, tendo sido percursor neste género de actividades. Depois do Castilho, seguir-se-iam o Amarante, a Académica, o Mindelense, a desenvolver actividades cénicas ligadas aos clubes desportivos, uma realidade que marcou décadas do teatro Sanvicentino e originou um novo tipo de comédia popular crioula (e em crioulo).

 

Fotografia de Alexandre Conceição, 2010, Lançamento do livro: João Branco cumprimentando Valdemar Pereira 

 

O livro foi apresentado por Joaquim Saial, numa sede pequena para tanta gente, de várias gerações. Associados, familiares e amigos assistiram com emoção a mais este evento, e homenageram o autor Valdemar, grande percursor e dinamizador deste teatro popular.

 

Aliás, como sabemos, o teatro vive da sua própria natureza, ou seja, do contacto directo entre quem vê e quem faz, e como arte do efémero, tem a sua historia dependente de testemunhos e documentos. Mais ainda se considerarmos o teatro de tempos idos, quando não havia forma de fotografar, filmar, enfim, registar, em forma de documento testemunhal, o objecto cénico.

 

Essa será a principal razão porque este testemunho de Valdemar Pereira é absolutamente precioso. Explica o autor: «recorrendo ao pouco que restava nas abissais da memoria e com a ajuda de alguns amigos, consegui consagrar numa pequena brochura elementos que vos transportarão aos primeiros teatros do Grémio Castilho.» Modéstia do Valdemar, digo-vos. Isto que nos foi apresentado no passado Sábado é muito mais do que «uma pequena brochura», é uma peça nuclear para se entender o extenso e fascinante puzzle que constitui a história do teatro cabo-verdiano. Em Setembro, esperamos ter o autor no nosso festival Mindelact, para apresentar a obra e dar-lhe todo o valor e aplauso que eles (obra e autor), sem dúvida, nos merecem.

 

Título: O Teatro é Uma Paixão. A Vida é Uma Emoção

Autor: Valdemar Pereira

Edição do Autor, 2010

_______

 

NOTA: Depois da saída do post, Valdemar Pereira fez uma nota-circular aos amigos, que, com a devida permissão partilho com os leitores:

 

O meu livro não foi lançado na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, por razões que não sei explicar. Até que apareceu o dr. Manuel Brito Semedo que dele ia falar no seu blog e lhe disse, contando também para quem se destinava o dinheiro da venda. E ele vai encarregar-se de estudar a sua divulgação.
 
A obra chegou depressa aos amigos do Brasil e ainda não chegou na nossa capital. Curioso, né?

***
Manuel nasceu no meu bairro e sua Mamã Xanda, da minha idade, era uma das crioulinhas mais bonitinhas e sorridentes e nos encantava. Cada um de nôs esperava quando passava para ...ver, até ela dobrar a esquina. Depois, ficávamos de trás da esquina, espreitando, até ela desamparecer.

E um dia veio um marmanjo de outra ilha, rapaz muito mais velho, jà homem, e quando soubemos que a pediu em namoro, a decepção foi geral. O mais ousado chegou a dizer: - Vou-lhe esperar aqui na esquina, na boca da noite, e dou-lhe uma pedrada.

Não houve nenhuma pedrada e houve muitas tristezas.

Ele era Policia e levou-nos uma das nossas riquezas...

Bom fim de semana a todos os amigos a quem mandei a circular.
 
Abraços,
Valdemar

 

 

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4 comentários

De Joaquim Saial a 19.06.2011 às 15:42

Pouca coisa para dizer, mas boa:
Um livro fundamental para a história do teatro em Cabo Verde e um autor e amigo de quem só posso dizer bem em todas as suas vertentes: literária, humana, diplomática, de contador de histórias e bom conversador e até naquela que o faz apreciar umas ricas enguias de ensopado acompanhadas por um bom vinho de Borba.
E saudações ao Brito Semedo que aqui colocou a obra.

Abraço
Djack

De Brito-Semedo a 19.06.2011 às 16:05

Juntaram-se neste post amigos de SonCent de várias gerações no único propósito de valorizar a cultura e o que se tem feito de muito bom nessa ilha. Um abraço a todos e votos de bom fim-de-semana!

De Veladimir Romano a 23.06.2011 às 14:47

Nunca as boas ideias fizeram algum dia mal a quem quer que fosse; por isso as iniciativas pedagógicas fazem falta para cuidado do nosso património histórico e da memória relevante que tudo representa, tal como este blog em boa hora criado pelo Manuel Brito Semedo e o destaque que nesta oportunidade oferece ao trabalho de Valdemar Pereira. Uma riqueza de infinita dimensão, acrescento da nossa Caboverdianidade, um momento, possivelmente um átomo de tempo, mas uma delícia de uma certa época vivida por gente bem diferente que teve a vivência de valores muito diferentes daqueles que arrasam hoje a nossa querida terra. Obrigatório fica ler e reler a obra sobre um momento criativo que se foi repetindo, esta parcela do Teatro em Cabo Verde, e só não se compreende são as respostas que nunca aparecem daqueles responsáveis da Governação, particularmente da Cultura, Instituto do Livro, da Educação, que não sabem aproveitar esta dádiva da memória daqueles que ainda a guardam e nos vão oferecendo estas maravilhas da nossa terra. Um obrigado ao Valdemar Pereira, pelo trabalho, lição e pela preocupação e, ao Brito Semedo, por divulgar e guardar estas relíquias de porta aberta. Um forte bem-haja. Veladimir, Lisboa de 2011

De Brito-Semedo a 25.06.2011 às 20:02

Obrigado, Amigo, por se ter encostado ao "Na Esquina do Tempo". "Aprochegue-se", como diria Odorico Paraguassú, puxe um mocho, sirva-se de um café de terra ou de um chá de mato e participe da conversa. Este é um espaço de partilha, que está aberto à colaboração de todos. Um abraço e votos de bom fim-de-semana!

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