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Eden de Eden Park

Brito-Semedo, 1 Jul 11

Alberto Rui Machado, Engenheiro

 

A 15-5-2011, teve lugar a aguardada ante-estreia do Filme de Daniel Blaufuks, EDEN, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, no âmbito do 8.º FESTIVAL INDIE LISBOA 2011, o Festival Internacional de Cinema Independente.

 

Um público entusiasta, entre o qual estavam muitos cabo-verdianos, aplaudiu longamente este documentário de longa metragem que acabara de receber o Prémio TAP.

 

A 22-6-2011 o filme foi novamente exibido, no Centro Cultural da Malaposta em Odivelas, com a presença de realizador, o que proporcionou um debate que se arrastou pela noite fora. Na assistência estava um dos principais entrevistados, Daniel Mascarenhas (Djibla).

 

A exibição iniciou-se em S. Vicente com anteestreia para convidados 29-6-2011 e exibição para o público em geral a partir de 30-6-2011, no Centro Cultural do Mindelo.

 

O filme gira à volta das vivências ligadas ao cinema dos anos 50 e 60 dos mindelenses. Inclui também uma abordagem aos filmes feitos em S. Vicente por Henrique Pereira, Chiquinho de Nhô Djunga e Augusto Ferro nos anos 40/50, nomeadamente ao “Segredo dum Coração Culpado” e “Força da Cobiça”, o único de que existem cópias em vídeo e DVD.

  

A película de Blaufuks teve o condão de nos transportar aos nossos tempos de infância e adolescência e terá, em parte, conseguido os seus objetivos.

 

A escassez de meios, confessada antes do início da projeção pela Diretora da Produção, Bárbara Valentina, prejudicou, de alguma forma, a pujança do filme.

 

Muitas filmagens com câmara estática, faltando “travellings”, “plongées”,  “zooms”, etc., que poderiam ter enriquecido o trabalho, sob o ponto de vista meramente cinematográfico. Um “zoom”, que saindo da cabine de projeção chegasse ao ecran no qual apareceriam pequenas sequências dos principais filmes citados, do tipo do que acontecia no “Cinema Paraíso”, teria enriquecido sobremaneira a película.

 

Mas o balanço é, sem margem para dúvidas, altamente positivo e não ignoro que é sempre mais fácil criticar o trabalho dos outros do que fazer.

 

Nos anos 50 as viagens para o exterior não eram fáceis de forma que vivíamos encerrados numa ilha, numa altura em que os aparelhos rádio eram escassos e ainda não havia televisão. O cinema era assim uma porta aberta ao exterior através da qual os mindelenses viajavam por todo o mundo.

 

As entrevistas do filme, criteriosamente selecionadas, dão uma ideia adequada das vivências dos mindelenses relativamente ao cinema dos anos 50 e 60 do século passado.

 

A escolha do “Tuin”, que foi durante muitos anos responsável pela bilheteira do Parque Miramar, como figura central nas entrevistas revelou-se feliz pois ele consubstancia toda a adoração que tínhamos pelo cinema.

 

É correcto o que ele diz que cada um de nós tinha um ator preferido. No caso do Tuin era o Alan Ladd a ponto de ele ter posto luto aquando da morte do ator, e ter ficado em casa a receber pêsames dos amigos que o foram reconfortar sem qualquer laivo de ironia.

 

O meu preferido era John Wayne (o ator, não o homem) mas não o dos westerns como “A Cavalgada Heróica” (Stagecoach) ou “Rio Bravo” (Texas) mas sim o de “O Homem Tranquilo” (The Quiet Man), a estória de um emigrante que regressa à terra natal (Irlanda) depois de uma vida inteira no estrangeiro, estória que nos tocou profundamente, dada a nossa condição de ilhéus, quase sempre predispostos a procurar fora o futuro que não conseguimos ter na nossa própria terra.

 

Mas havia muitos outros atores idolatrados pelos fâs do cinema como Stewart Granger, Tony Curtis, Fred Astaire, Johnny Weissmueller, Elizabeth Taylor, etc.,

 

Embora um dos entrevistados – Daniel Mascarenhas – tenha abordado uma das formas como a rapaziada menos favorecida ultrapassava a falta de dinheiro para as entradas, teria sido interessante referir outras artimanhas como a colagem de partes dos bilhetes velhos, por forma a obter um bilhete novo ou ainda fazer uma coleta entre um grupo de amigos por forma a conseguir uma entrada para um deles que depois vinha “contar” o filme aos outros.

 

Os mais aventureiros chegavam a saltar os muros do Eden-Park mas por vezes eram apanhados com os pés sujos de cal branca que o guarda (Nhô Djack e mais tarde Toi Cecílio) tinha o cuidado de espalhar ao longo do muro do cinema e, uma vez descobertos,  eram convidados a abandonar a sala de espetáculos.

 

No Mindelo a equipa do David e Golias, produtora da película, ainda conseguiu entrevistar o “Sport” do “Segredo de um Coração Culpado”, António Puntchinha, entretanto falecido, mas faltou falar com o Gabriel Borges, um dos atores de então.

 

Em Lisboa ficaram a faltar entrevistas com um dos fundadores do Cineclube de Amadores que produziu os filmes, Luís Morazzo, com o responsável pela sonorização do filme “Segredo dum Coração Culpado”, Zito Azevedo e com os atores Aguinaldo Wahon, Eduardo Ribeiro, Daniel Leite (Danielin) e a Mariazinha Cohen.  Ficou também por fazer uma entevista à heroína do “Segredo de um Coração Culpado”, Anita Tedd, com a qual, nem nós próprios conseguimos marcar um encontro.

 

Saliente-se que quando foi feita a “Cowboiada”, “O Guarda Vingador” havia um só cavalo em S. Vicente. Como era preto pintaram uma metade do pobre animal de branco e na cena da perseguição filmavam-no ora de um lado ora do outro para dar a sensação do cavalo perseguido e do perseguidor.

 

"O Guarda Vingador" foi estreado no início dos anos 40 no Eden-Park. O filme era de 8 mm e o som era transmitido por um gravador áudio que funcionava sincronizadamente com a película. O “Sport”era o próprio realizador, Henrique Pereira, que contracenava com Elvira Pereira.

 

O projetor estava colocado a meio da Sala uma vez que o seu alcance era limitado.

 

O “Segredo de um Coração Culpado”, estreado década e meia depois, tinha as mesmas limitações, embora já fosse a cores,  e o projetor foi colocado a meio da sala do Parque Miramar com um gravador audio que reproduzia sinconizadamente com a película os diálogos e a música.

               

O destino que levou o filme “Segredo dum Coração Culpado” é alvo de diversas teorias fantasiosas, algumas explanadas em entrevistas do filme. Há quem sustente que o filme foi destruído nos Estúdios da TÓBIS por inveja, dada a qualidade da película. Ora, pela Tóbis passavam filmes sonoros portugueses de 35 mm  desde 1930 e o nosso filme era de 8 mm e não tinha banda sonora própria, o que deita abaixo esta teoria.

 

A verdade é só uma: o Henrique Pereira entusiamado com o sucesso do filme em S.Vicente e na Praia foi exibi-lo para os cabo-verdianos de Dakar, As autoridades senegalesas, com a justificação de que o filme, de que só existia o original, não fôra declarado à entrada, confiscaram-no após as exibições, e nunca mais se soube dele.

 

As soluções encontradas dão uma ideia das dificuldades de realizar um filme em Cabo Verde, naquela época, e mostram que engenho e imaginação criativa não faltavam aos nossos conterrâneos. Conseguir realizar longas metragens com as dificuldades referidas constituiu uma proeza, a todos os títulos assinalável.

 

E o filme “Eden” é antes de tudo uma homenagem àqueles arrojados produtores, realizadores e atores de então. E se servir para termos de novo o Eden-Park de volta, como sala de espetáculos, então terá valido mesmo a pena.

 

Lisboa, 1-7-2011

 

 

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4 comentários

De zito azevedo a 01.07.2011 às 20:34

Bem que eu gstaria de ter "botado faladura" acerca do Segredo de Um Coração Culpado, do meu amigo e companheiro de sonhos de muitos anos, Henrique Pereira, cineasta, engenheiro, produtor, camara-man, o homem sem sono, perseguindo o seu sonho sem desfalecimentos, sem receios com a firmeza de carácter, de procura, de descoberta, com destino sempre à vista, sempre ao alcance de todos os esforços, por mais exigentes pois ele era um vencedor, um homem à frente do seu tempo...
E, empolgado com tanto entusiasmo, também embarquei na onda e, mesmo sem mesa de montagem conseguiu-se sonorizar um filme de 8 mm
graças a um gravador de fita em terceira mão, e aos velhos discos de música clássica do Rádio Clube Mindelo, um gira-discos, uns auscultadores e muitas, muitas, horas de breves imagens sonoras da musica dos mestres pontilhando, aqui e ali, as imagens visuais desse outro mestre da sétima arte...As artimanhas a que foi necessário deitar a mão para "sincronizar" o gravador de som e a máquina de projectar o filme, só por si, constituem episódios de conquistas épicas, dignas de pertencerem aos anais da industria cinematográfica...Não sei se este filme, EDEN, não terá perdido a oportunidade de o fazer, antes que as memórias e o seus portadores se percam...Un braça de sôdadi!

De Brito-Semedo a 01.07.2011 às 22:14

Acabo de chegar a casa do "cinema" do Centro Cultural Português da Praia. Hoje reconstituí o ritual de antigamente de ir a uma matinée '. Cheguei do trabalho, lavei-me, fiz um lanche ligeiro, vesti uma roupinha limpa, pus brilhantina no cabelo e perfume de Djandjan. Fiquei um "sport d'cinema" e saí porta fora. Foi uma coisa muito bonita, essa que vivi nessa boquinha da noite, numa viagem ao passado, às minhas memórias de há 40 anos! Valeu!

De amendes a 04.07.2011 às 20:18


Nas "estórias" do cinema nem só o Edem-Park é peculiar nete de Mundo di Deus....
No Alto Maé  da velha Lourenço Marques havia ( há?) um cinema Império de seu nome de crisma.... que tinha uma galeria usada exclsivamente para "pagantes" de ouvintes de "SOM" do filme... independentemente da lingua em que era falado.... Só o portugûes usufruia  dum pequeno desconto!!!

E esta? 

De Brito-Semedo a 05.07.2011 às 10:39

É simplesmente curioso isso! Afinal, no Império (que não apenas no cinema) as coisas eram semelhantes. Nós ficamos cá "ilhados" e limitados que, às vezes, não tomámos conhecimento do que acontecia ou acontece para lá do nosso horizonte. Um abraço e Viva 5 de Julho!

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