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Torneio de Golfe

Brito-Semedo, 30 Jul 11

Foto de Junho de 1953, gentilmente cedida por Luiz Silva

 

Torneio de golfe realizado em Junho de 1953, ao  tempo em que o  buraco n.° 1 se encontrava na Cova d'Inglésa.

 

Legenda – De cima para baixo: Nhô Jom Doia (pai do Onésimo Silveira), Ti Djô  Semedo , Pedro Silva (meu pai), Mr. Northon Lewis, Dadal Martins, Henrique Vera Cruz, Djosa Sena, Ti Djô Figueira, Hermínio Pereira; Florêncio Santos (pai do Djodje de Bia), Nhô Damatinha, (…), Lulu Marques, Jom de Rome, do Monte Sossego, Adérito Sena, Djô Dias, Quida, pai do Eduíno, Toi Pombinha e Djunga de Pé de Napla;

Segunda fila: Nhô Faia Torres, Cacone, João Faustino, ou melhor, Nhô Jumzim de Central (pai do Manuel Faustino), Mr. Tompson, seguido de outros dois ingleses, Nho Antoni Costa (pai do Guguga), Djidjé Fortunato (pai do Camilo Abu-Raya), Tutchim de Damatinha;

Em baixo: Djô D'iria, que vive nas Canárias e que morava em Monte Sossego, que me enviou esta fotografia, Nicolau de Pinga, (...), Nhô Júlio Vitória, Silva de Nhô Tino e Nhô Yaya de Monte Sossego.

 

NOTA: A legendagem foi feita por Luiz Silva (França).

 

__________

 

Comentário recebido do Colaborador e Amigo Luiz Silva:

 

O golf é um desporto das elites burguesas que se proletarizou em São Vicente através dos caddies dos jogadores ingleses. Os mais conhecidos desses caddies foram o Eduardo Fula, o Florêncio Santos, o Dr. Antero de Barros, que seria o primeiro presidente do Club de Golf de São Vicente, oficializado em 1942. Numa curta brochura, o Dr. Antero Barros traçou a historia do golf de São Vicente. Antes dele já havia uma geração de jovens do Monte e Dji de Sal que participavam nos torneios de golf de caddies organizados pelos ingleses. Por razões diversas, muitos desses jovens não prosseguiram essa actividade desportiva que marcou São Vicente. O golf de terra batida, mistura de areia e óleo, foi uma invenção dos ingleses e dos caboverdianos que desejavam praticar o golf numa terra sem condições para ter campos de golf relvados. A adesão dos Mindelenses ao golf permitiu a formação de vários jogadores que em torneios contra os ingleses, e mais tarde contra os portugueses, dignificaram Cabo Verde.

 

Foi no golf que começou a solidificar a élite nacionalista em Cabo Verde que deu orgulho e dignidade aos caboverdianos. Assisti com grande emoção o jogo entre o campeão dos ingleses de São Vicente, o Senhor Thomson da Shell contra o Djidjé Fortunato, que sacudiu o nacionalismo caboverdiano pela nossa vitória. Figuras da intelectualidade caboverdiana também aderiram ao golf e os torneios anuais ficaram famosos. Nessa fotografia descobrem-se figuras da sociedade civil Mindelense cujos filhos continuaram a defender o património cultural e político de Cabo Verde e de São Vicente, em especial.

 

O golf de São Vicente teve também as suas figuras célebres como o Ti Djô Figueira, embora de tacada curta, era capaz de fazer apostas  de 500x50,  o célebre pau encebado, que toda a gente queria ganhar ao Ti Djô Figueira.  Existe um manancial de estórias do golf que precisam ser recuperadas. O Dr. Antero Barros, que foi um dos maiores jogadores do golf, pode ainda escrever essas memórias.

 

Por azar da história, há já alguns anos, um núcleo de indivíduos, sem qualquer passado na historia do golf, se apoderaram do Club com o objectivo de vender os terrenos a um consorsium turístico estrangeiro. Com entradas nos Ministérios na Praia, conseguiram criar uma associação em Santa Cruz (Santiago), sem aprovação dos sócios, no qual se integrava o Club Golf. Um grupo de filhos dos sócios fundadores, incluindo o próprio Dr. Antero Barros, teve de levar o caso aos Tribunais e estamos à espera da decisão dos Tribunais. O próprio Presidente Pedro Pires recebeu uma delegação dos sócios do Golf pedindo a sua intervenção a fim de pôr termo à venda deste património sagrado de São Vicente por indivíduos encostados aos partidos políticos somente com a intenção de obter benefícios pessoais. Os deputados de São Vicente também se calaram perante esse crime contra o património de São Vicente. Como é possivel defender a Cidade Velha, herança colonial, e não defender o golf de São Vicente, verdadeiro património dos caboverdianos? Como bem disse Adriano Lima, os governos sucessivos de Cabo Verde têm sido contra a capacidade criadora dos sãovicentinos, comprovadas com a demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, do cinema Eden Park, do Fortim d’El Rei, da demolição das empresas inglesas onde os guindastes, os tornos, as caldeiras, deviam estar num museu inglês de São Vicente. Isso é patrimonio caboverdiano enquanto a Cidade Velha é patrimonio dos portugueses e nada mais!

 

Na Holanda ou em França, quando veem um caboverdiano com um saco de golf logo imaginam que somos milionários. E temos de explicar que em Cabo Verde todo o pé descalço do Monte ou Dji de Sal joga o seu golf e com muito nivel.

 

O golf não é somente uma prática desportiva: o golf também educa as pessoas. É uma maneira de estar na sociedade com muito respeito e dignidade. Graças ao golf os caboverdianos souberam dignificar Cabo Verde no momento pela sua maneira de estar e viver em sociedades diferentes.

 

Caboverdianamente,

 

Luiz Silva

 

 

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10 comentários

De Valdemar Pereira a 30.07.2011 às 17:28

Escapa-me agora o nome desses ingleses que adoravam jogar com os autóctones mas posso dizer que o jogo foi de despedida de Mr. Tompson que viveu alguns anos em S. Vicente como Director da Companhia Shell (ao lado do Sr. Junzim de Central). .
Tenho de dizer a bem da verdade que a maior parte desses britânicos, nomeadamente os da Western, preferiam ir jogar entre eles no proprio club sito na Ribeira de Julião.

De Brito-Semedo a 30.07.2011 às 17:38

E assim, lentamente, vai-se fazendo a reconstituição  da memória da nossa terra. Precisamos dos mais vividos para fazer isso. Obrigado e um grande abraço!

De Adriano Miranda Lima a 30.07.2011 às 19:05


Caramba, quão emocionante é receber testemunhos destes! Sobre pessoas que conhecemos ou de que ouvimos falar, mas principalmente sobre acontecimentos e vivenciais sociais e desportivas que constituíam a marca indelével da sociedade mindelense. Uma sociedade tropical, mestiça nas suas características étnicas, mas evoluída social e culturalmente, a ponto de se tornar difícil identificá-la com qualquer quadrante cultural preciso.


Está por fazer a história de microcosmos tipificadores do que foi Mindelo.  Julgo que se devem guardar cuidadosamente todos os testemunhos, factos, figuras, acontecimentos, realizações, imagens fotográficas, para que um dia se escreva a história de uma ilha humana e singularmente rica como S. Vicente.


Razão tem, afinal de contas, a capital do país para tentar apagar a memória de S. Vicente. Há ciúmes que corroem as entranhas de tal maneira que se atinge os limites do descaramento e do despautério. Contudo, a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima.

De Brito-Semedo a 30.07.2011 às 20:45

Caro Amigo, A sua presença no "Na Esquina" e o seu testemunho são estimulantes e contibuem para este resgatar de memória do nosso povo. Um abraço e votos de bom fim-de-semana!

De Adriano Miranda Lima a 30.07.2011 às 19:20

Às vezes a insuficiente acuidade visual me impede de capturar algumas gralhas nos meus textos. Queria escrever "vivências sociais"... e saiu "vivenciais...". Não tem grande importância, mas enfim...
Viva, o desporto multifacetado que se praticava em S. Vicente! Vivam figuras típicas do Mindelo antigo, como Damatinha! Vivam os grandes compositores da música cabo-verdiana criada no Mindelo! E vivam os nossos amigos contemporâneos que nos trazem tão preciosos testemunhos!

De Adriano Miranda Lima a 31.07.2011 às 09:10


Amigo e conterrâneo Brito Semedo


Como ainda o não tinha feito nas minhas intervenções, aproveito para agradecer as suas amáveis palavras e felicitá-lo pela iniciativa deste Blogue. Andamos à procura de fóruns para exprimir os nossos sentimentos e opiniões sobre os problemas da nossa terra, e a Esquina do tempo é sem dúvida uma iniciativa que vem ao encontro das nossas aspirações. É um blogue bem estruturado, de bom conteúdo  e de muito fácil utilização, não colocando entraves e sinuosidades aos comentaristas com o intuito de análise prévia das suas intervenções. Há jornais on-line que o fazem e outros não. Em relação aos primeiros, em que muitas vezes os comentários são inseridos com bastante atraso, nota-se uma certa escassez de intervenções, talvez pelas razões referidas. Não me parece que os ganhos sejam significativos ou compensadores do crivo que se queira impor, pois a melhor censura é aquela que resulta do odioso das próprias intervenções maldosas ou denegridoras de outrem, pois os desviantes dos bons princípios da ética e da boa educação cívica acabam por ser colocados nos seus lugares pelos comentaristas que prezam aqueles princípios.


Portanto, o seu blogue é um espaço propício à boa discussão e troca de opiniões sobre os delicados problemas da nossa terra, e não só, e oxalá apareçam cada vez mais cidadãos interessados em pôr a sua palavra ao serviço da colectividade. Sobretudo, os mindelenses, que me parecem mergulhados numa estranha e inquietante abulia.


Parabéns e bom domingo.


 


Adriano Miranda Lima

De Brito-Semedo a 31.07.2011 às 12:21

Caríssimo Amigo (permita-me que o considere assim),

Como disse em outro lugar, há muito que deixei de ser o dono do "Na Esquina" para ser o seu Gestor, contando com colaboradores de qualidade e motivados neste proósito de partilhar a nossa História, com especial destaque para a História de S. Vicente. E o "Na Esquina", pelo seu trabalho sério de resgate de memória que tem estado a fazer, vai-se afirmando e, estou certo, já conquistou o seu lugar no ciberespaço caboverdiano! Votos de um bom domingo!

De Adriano Miranda lima a 31.07.2011 às 22:47


Julgo que quando inseri o meu primeiro comentário sobre estas saudosas recordações fotográficas, ainda não tinha lido o texto do Luiz Silva. Ou então qualquer distracção da minha parte me impediu o seu visionamento.


Ler a descrição do Luiz demonstra que ele também é portador de suculentas memórias sobre a prática do nosso golfe. Pode ajudar a reconstituí-las com a ajuda de vultos mindelenses como o Dr. Antero de Barros, nosso antigo mestre. E convém agir depressa porque o tempo corre célere e não espera. Parece que ainda ontem éramos rapazes com o sangue na guelra e agora já vamos a caminho dos 70.


Mas, voltando à descrição do Luiz, ele quase que me faz sentir o efeito oloroso de uma mistura de maresia, breu e aqueles locais míticos do Monte e do Dji de Sal onde se praticava o golfe, causando-me pena não ter nunca, nem de perto nem de longe, participado em tais andanças. E, no entanto, até aos meus anos 7 anos morei naquela residência contígua ao antigo Matadouro e que depois disso foi entregue ao compositor B. Leza. Portanto, o Monte estava ali bem perto com as suas incidências sociais e desportivas. Via passar os praticantes da janela da casa, mas longe de aspirar a um dia afeiçoar-me à prática do golfe. Não passei do pica-pau.


Temos assim um rico e interessante património cultural que deve ser preservado por todos os mindelenses que tenham ao menos coração, porque o empenho cívico parece cada vez mais arredado dos espíritos.


Na altura em que certos oportunistas quiseram alienar o património da ilha que é o Clube de Golfe, o Luiz foi considerado visionário por alguns parceiros daquela rede de interesses, alegando que ele estava fora de moda e não acompanhava os novos tempos, que são de aposta em grandes “investimentos”. Hoje, quando cai a máscara das jogadas capitalistas, pondo a nu intenções que raramente se prendem com o bem das comunidades, fica perfeitamente claro que o Luiz estava com carradas de razão, assim como todos os que com ele alinharam em prol da causa do nosso golfe.


Parece que há muita coisa que se conjuga para liquidar a memória cultural da nossa ilha. Por um lado, uma política cultural centralista que aposta quase exclusivamente na ilha capital, por outro, cidadãos mindelenses que, por amor aos seus interesses pessoais, são capazes de vender a alma ao diabo.

De Brito-Semedo a 02.08.2011 às 00:18

De facto, o comentário do nosso amigo Luiz Silva, bem assim a silhueta do jogador de golfe, foram inseridos posteriormente pelo que faz sentido o seu comentário. Fica prometido votarmos ao tema, com fotos e novas revelações!
Descubro agora que o Amigo, para além de ser "fidje de gente cunchide" é praticamente da minha zona! :) Sendo da Rua do Matadouro Velho, na direcção de quem vai para o Monte, apenas o Largo John Miller o separava da minha rua, casa defronte da Padaria dos Matos!
Um abraço!

De Adriano Miranda Lima a 02.08.2011 às 09:41


Amigo Brito Semedo

De facto, fomos quase vizinhos, mas apenas até aos meus 7 aninhos, porque a partir dessa minha  idade mudámos para Fonte Cónego. De qualquer maneira, como devo ser bem mais velho (nasci em 1943), não devemos ter sido vizinhos e parceiros desses meus tempos de muito tenra idade, senão, talvez, em projecto alinvado para um futuro qualquer. Caso contrário, bem nos podíamos ter encontrado nas únicas escapadelas que me eram permitidas pela vigilância materna. Era ir à cata dos gafanhotos que, em certas alturas, pululavam no largo frente à casa. Era ir comprar pão, munido de uma bolsa de pano doméstica, à lojinha que pertencia à mãe (Maria Augusto) do que viria a ser meu colega de liceu, José Augusto Lopes Duarte, hoje emigrado na Bélgica, segundo me disseram. O curioso é que não me lembro dele desse meu tempo de menino da rua do Matadouro.
Mais tarde, sim, deveremos ter estado mais próximos de uma vizinhança, real ou virtual. Frequentei a 3ª e a 4ª classes naquela escola primária existente na Chã do Cemitério. Na altura era uma escola de construção recente. Revisitei-a em 2003 e verifiquei que ela se mantém intacta, e talvez sem alterações.
Mas, voltando a falar de golfe, em Fonte de Cónego fui vizinho do praticante José Dias, que foi presidente do Castilho. Um homem sociável e muito simpático. É possível que houvesse na zona mais praticantes da modalidade, mas só me lembro desse senhor.

Um grande abraço

Adriano

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