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Foto do Arquivo de Valdemar Pereira, Mindelo, 1948

 

Valdemar Pereira, Tours, França

 

Foi em 1948. Não me perguntem o dia porque sou incapaz de dizer. Tenho vergonha mas não me lembro das datas de aniversário dos meus netos. Sou avesso a isso. Mas lembro-me perfeitamente do dia em que a Académica ia festejar o seu primeiro titulo de Campeão com essa plêiade de jogadores, cada um melhor que o outro.

 

Começo por dar a linha (de pé): Cirilo Gomes; Mário Silva e Alfredo Ferreira; César Alves, Epifânio e Reinaldo Évora; (agachados) Quida, Pitcha, Américo, Tétse e Adriano Leite (estão bem posicionados na foto,  à moda antiga).

 

Como sempre as duas claques, lado a lado, mandavam colibés e nominhos menos bonitos. Do lado do Mindelense, Nhô Damatinha que nunca sentava porque precisava de espaço para movimento e para gritar suas mensagens. Eu tremia. Estava do outro lado. (Já disse que não gramava o Mindelense porque batia em tudo quanto aparecesse).

 

O jogo estava renhido e, às tantas, a Académica ganhava por uma bola e o Mindelense estava tetanizado. Não encontrava modo de passar a defesa adversária e... fizeram sururu momentos antes da partida terminar. Aí, o arbitro – Quinquim Ribeiro – adepto assumido da Micá, interrompeu o jogo "por não haver condições de segurança".

 

João da Mata Costa, "Damatinha"

Os adeptos dos estudantes exultavam e os dos encarnados barafustavam. Não vos conto o estado de espírito do Sr. Damatinha que continuou a reclamar até à Pracinha da Igreja (perto da sua casa) de onde mandava adjectivos superlativos aos sujeitos endiabrados que se encontravam à janela na sede da Académica (Rua Sá da Bandeira).

 

Houve muitas interpretações e,  entre elas, a que "estava tudo combinado" porque a fotografia já estava emoldurada e foi uma trupida quando o Presidente João Barbosa a colocou em lugar de destaque.

 

Mas... A festa não ia durar. Sucedeu que, no jogo seguinte entre as duas equipas, contra os hábitos de ir ao campo com fatos de treino, a Académica apareceu de gabardina como que a querer dizer "is in the pocket". Pois bem, meus amigos, com as mesmas equipas a jogar, a Académica levou 8 a 1  (Pitcha foi expulso).

 

Procurei ser o mais fiel relatando o que sucedeu em 1948 e peço desculpas de antemão para eventuais cleonices. Se nessa altura torcia pela Micá, sempre fui (e sou) do Castilho.

___________

 

TÍTULOS DE FUTEBOL

Títulos Nacional: 1

Liga de Cabo Verde

1989

Títulos da Ilha de S. Vicente:

Liga da Ilha desde independência4

1986/87 1997/98, 2003/04, 2006/07

Torneio de Abertura: 2

2001/02, 2006/07

 

 

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7 comentários

De Adriano Miranda Lima a 29.07.2011 às 19:15


Ora, o Val conta estas coisas de futebol com muito sal e pimenta, tornando-as de fácil digestão, mesmo que o clube da nossa afeição seja o que ficou a ver navios. Mas o Val arranja sempre um antídoto para estas situações, um alka seltzer que cada um ingere à medida do seu desarranjo momentâneo. Está mais que visto que para o celebérrimo Damatinha nem esgotando os stocks das farmácias do Nena e do Leão o Val conseguiria acalmar a azia do homem. Bem, eu na altura ia fazer 5 anos, mas em retrospectiva estou do lado do Damatinha, sem a mínima ponta de dúvida, mindelense em que me haveria de tornar, com mais ou menos acentuado clubismo.

Quanto aos jogadores campeões que posam nesta foto, até é possível que os tenha visto movimentar-se no campo da Fontinha. Mas sem saber minimamente de quem se tratava, sequer da equipa em causa. É que, a partir dos meus 4 aninhos, o meu pai começou a levar-me ao futebol e guardo imagens desse tempo, até com registo de alguma minúcia. Ainda tenho nas narinas o cheiro do bonezinho de cabedal que ele me enfiava na cabecinha para me proteger da inclemência do sol dessas tardes domingueiras em que acontecia futebol.

Quanto ao Damatinha, lá onde ele estiver deve ter-se regozijado com a vitória retumbante do Mindelense, no campeonato nacional deste ano. Mofino como ele era, deve ter sapateado sem parar, exteriorizando exuberantemente a sua alegria, numa qualquer outra dimensão do empedrado da pracinha da Igreja, sem descurar umas bocas valentes enviadas na direcção da sede da Académica, lembrando-se do roubo de igreja de que foi vítima o seu Mindelense. Para ele, há desaforos que nada consegue delir, principalmente para quem, como ele, paira hoje certamente num tempo em que todos os tempos se reencontram e nada se esquece. Pois personagens mindelenses como Damatinha jamais morrerão na nossa memória.

Parabéns, Val, por esta  saborosa crónica.

De Brito-Semedo a 29.07.2011 às 20:32

Caríssimo Amigo,

É bom encontrá-lo aqui no "Na Esquina", trazido por um amigo comum e colaborar deste blog. Aprochegue-se, sinta-se à vontade, puxe um mocho, sirva-se de um bebida da terra, participe da coversa "sábe", dê a sua opinião e conte coisas, que é como quem diz, partilhe estórias e imagens!
Votos de bom fim-de-semana e continuação de bons momentos no Estádio da Fontinha!

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