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Adriano Duarte Silva 2.jpeg

 Foto retirada do Blogue "Terra-Longe", de Virgílio Brandão

 

 

O "Na Esquina", reproduz, com a devida vénia, uma evocação do Deputado Adriano Duarte Silva, feita pelo historiador João Nobre de Oliveira, Macau, no seu Fotolog Page.

 

 

Adriano Duarte Silva, filho de Roberto Duarte Silva e sobrinho-neto do químico deste nome, nasceu em 12 de Janeiro de 1898 na cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente e faleceu em 23 de Julho de 1961 na mesma cidade. Advogado, professor do Liceu, político e deputado. Aluno brilhante, feitos os estudos primários na ilha natal, seguiu para Portugal continuar os seus estudos no Colégio de S. Fiel e por último o Liceu José Falcão de Coimbra onde, no ano lectivo de 1911-12, fez o 4.º e 5.º ano e no ano lectivo de 1912-13 o 6.º e o 7.º de Letras.

 

No 1.º e 2.º ano liceal obteve o 1.º prémio nas disciplinas de “Português”, “Francês” e “Inglês”, acessit em “Matemática” e menção honrosa nas disciplinas de “Geografia e História” e “Ciências Naturais” (anos lectivos de 1908-09 e 1909-10).

 

Concluído o liceu entrou na Universidade de Coimbra em 1913 com dispensa de idade pois não tinha ainda 16 anos e nela frequentou as faculdades de Direito e Letras. Em 1916 transitou para a Universidade de Lisboa e formou-se em Direito e Ciências Sociais em 1918 com apenas 20 anos de idade!

 

Frequentando ainda o 4.º ano de Direito, com apenas 19 anos, foi, em 1917, nomeado Secretário do Ministro da Justiça, o seu primo Martinho Nobre de Melo, no governo de Sidónio Pais. Em 1919 foi nomeado conservador do Registo Predial da Comarca de Barlavento, na altura sediada na Vila da Ponta do Sol, ilha de Santo Antão. Promovido logo no ano seguinte a Conservador de 1.ª classe foi transferido para a Comarca de Moçâmedes em Angola. Parecia assim destinado a uma brilhante carreira judicial, mas, sentindo-se como dizia “um exilado em terra estranha”, desistiu da carreira judicial e resolveu estabelecer-se na sua ilha natal como advogado. Corria o ano de 1921. Foi do tipo de advogado que nunca chega a rico, pois atendia todos e a qualquer hora podia-se bater à sua porta para pedir ajuda. Em 1922 ingressou na docência como professor do Liceu Infante D. Henrique do Mindelo e em 1924, na ausência do titular Henrique Owen Pinto, foi nomeado reitor interino do mesmo estabelecimento de ensino, cargo que exerceria por mais de uma vez ao longo dos anos. Foi reitor efectivo de 8/6/27 a 19/4/29 (foi substituído pelo dr. Daniel Alves Tavares) e foi devido aos seus esforços e ao apoio do gov. Guedes Vaz que, em 1928, introduziu-se neste estabelecimento de ensino o Curso Complementar (antigos 6.º e 7.º anos dos liceus) passando este a Liceu Central. Em 1931 tornou-se professor efectivo do Liceu Infante D. Henrique do Mindelo. Em 1933 foi nomeado reitor. Em 1937 defendeu enérgicamente a reabertura do Liceu de S. Vicente quando Armindo Monteiro, então ministro das Colónias do governo de Salazar, tomou a medida mais obscurantista de ordenar o seu encerramento. Como se sabe o liceu foi reaberto mas mudando o nome para Liceu Gil Eanes, com o pretexto de que o liceu de Macau já se chamava Infante D. Henrique.

 

Cidadão sempre activo, foi eleito em 18 de Dezembro de 1932 presidente da Assembleia Geral da Federação Desportiva de S. Vicente, foi ainda cônsul honorário do Brasil e da Espanha e agente consular da França, juiz interino da comarca de S. Vicente e Presidente da Comissão Provincial da União Nacional. Como tal foi o representante de Cabo Verde à Assembleia Nacional salazarista durante dezasseis anos. Foi o último grande paladino da adjacência das ilhas naquele parlamento, defendendo muitas vezes isoladamente as suas posições. Começou, logo em 1946, por brilhar pelo desassombro com que questionou as leis racistas, que diferenciavam os “nativos” dos “europeus”, isto é os de cor dos brancos, e dividindo estes últimos em brancos de primeira e de segunda, conforme eram naturais da Europa ou das colónias, confrontando-se neste ponto com o próprio Marcello Caetano, que era então ministro das Colónias e defendia aquelas leis.

 

Além disso colocou ao parlamento vários problemas como o da protecção à imigração, defesa dos produtos cabo-verdianos, medidas contra as estiagens e as crises, defesa da igualdade entre os funcionários da metrópole e das colónias, aumento das pensões, levou ao conhecimento da Assembleia o “Desastre da Assistência” de 1949 na Praia, em 1951 ataca a utilização da expressão “indígena” referida a uma unidade militar de Cabo Verde, defendendo que perante a nova legislação, devia ser banida o seu uso quanto à população de Cabo Verde; em 1952 pede informações respeitantes a serviçais contratados, em Cabo Verde para S. Tomé e Príncipe, levantando assim a questão no parlamento português; em 1953 refere-se ao problema da erosão e arborização de Cabo Verde e à aplicação de novas disposições sobre funcionalismo ultramarino; em 1954 pede a protecção para as pozolanas de Cabo Verde, em 1956 consegue do governo a atribuição de subsídios ao Aeroclube de Cabo Verde, Rádio Clube de Cabo Verde e a Rádio Barlavento, em 1958 exige aos Ministros das Obras Públicas e do Ultramar que sejam cumpridos os despachos que recomendavam o emprego da pozolana de Cabo Verde nas obras do porto do Lobito, em 1959/1960 comenta uma notícia de jornal segundo a qual se teria formado em Dacar um movimento denominado “Frente de Libertação das Ilhas de Cabo Verde” no que terá sido, talvez, a primeira referência feita no parlamento português à existência de movimentos de libertação das então colónias portuguesas, assunto a que voltaria em 1960 ao referir-se à campanha anticolonialista, etc. Mas como deputado a sua grande vitória pessoal foi conseguir convencer o governo de Lisboa a ordenar a construção do cais acostável do Porto Grande, assunto que levava a discussão todos os anos.

 

Cais acostável.jpeg

Cais Acostável do Porto Grande, inaugurado a 13.Maio.1961

 

Foi condecorado pessoalmente pelo Presidente Carmona então de passagem por Cabo Verde com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo e recebeu em 1946 a Cruz de Cavaleiro da Legião de Honra pela República Francesa. Gravemente doente, estando em Portugal e sentindo a morte a aproximar-se, exprimiu o desejo de morrer na terra natal. Desembarcou no “seu cais acostável” a 15 de Julho de 1961. Oito dias depois falecia. O povo do Mindelo prestou-lhe a última homenagem ocorrendo em massa ao seu funeral. O cortejo teve sempre a acompanhá-lo músicos que tocaram a “sua morna”, a morna “Dr. Adriano” feita por B.Léza em sua honra. O féretro desceu à campa ao som da morna “Hora di Bai” de Eugénio Tavares. Em 01 de Dezembro de 1964 foi inaugurado um busto em sua memória na sua cidade natal na praça fronteira ao edifício do antigo liceu. Em 1975, após a independência, o busto foi retirado e seu nome votado ao ostracismo durante algum tempo, mas não foi esquecido. Alguns anos depois o busto voltou ao seu pedestal. (Fonte)

 

 

João Nobre de Oliveira, Macau

 

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11 comentários

De Valdemar Pereira a 31.07.2011 às 19:55

No mês de Setembro do ano passado, acidentalmente, assisti à demolição da Casa que construiu, onde viveu, e que foi doado à sua ilha natal.
Não felicito o inteligente que a deitou abaixo quando se pedia para que ela fosse rcuperada para um museu que não temos. Isto demonstra uma incapacidade de julgar o que deve ser preservado ou, também, um desejo de fazer desaparecer traços da Histôria da Ilha do Porto Grande.
Afinal, com manifestações dessas é Cabo Verde que empobrece mas os autores de vandalismos ficam marcados (negativamente).

De zito azevedo a 31.07.2011 às 21:21

Tive a honra de ter tido o Dr.Adriano como meu professor no Liceu Gil Eanes,  como me recordo de, em 1961, estando em Angola, ter chorado a sua morte como se de membro da família se tratasse...Tinha, como conservo, especial carinho pelo professor, pelo homem, pelo lutador, pai do nosso cais acostável, mindelense de primeira água, que muito honrou a terra que, mesmo quando tentou ser-lhe madrasta o não conseguiu...Aqui se consigne um preito de homenagem tão singular como
 anónimo, como sentido!

De Adriano Miranda Lima a 01.08.2011 às 15:05

Muito me pronunciei, através de artigos de opinião, sobre o significado da demolição da Casa do Dr. Adriano. Um significado que tem explícita a ideia de que se tratava apenas de um prédio em ruínas e que o interesse público recomendava o aproveitamento do terreno para a construção de uma “delegação de saúde”.
O povo do Mindelo, que cada vez mais me surpreende pela sua estúpida alienação, não tugiu nem mugiu, engolindo a patranha do poder oficial (câmara municipal e governo central).
Mas sobre o que esteve implícito nessa decisão, aí, meus caros conterrâneos mindelenses, vocês não quiseram fazer o mínimo esforço mental para atentar nos alertas que receberam. Se o cabo-verdiano em geral, seja ele de S. Vicente, Santo Antão ou Santiago, não percebeu, ou não quis perceber, que a intenção foi passar a rasoira definitiva sobre algo que perpetuaria a memória do ILUSTRE CABO-VERDIANO, o mindelense, esse, independentemente do seu estatuto social e cultural, tinha obrigação moral e cívica de defender com unhas e dentes aquele património arquitectónico porque lhe dizia directamente respeito.
Continua…

De Brito-Semedo a 02.08.2011 às 00:26

Este é um assunto que me/nos ficou atravessado na garganta, pelo que me abstenho de me pronunciar aqui. Esperemos que o bom senso impere e a justiça seja feita a esse ilustre caboverdiano, que muito fez pela sua terra!

Um abraço sanvicentino!

De Adriano Miranda Lima a 01.08.2011 às 15:07

Continuação…


Não o tendo feito, o mindelense pactuou com aqueles que ainda não descolonizaram as suas mentes e consideram o Adriano Duarte Silva como “alguém que esteve ao serviço da política colonial” e por isso não merece figurar nos anais do Cabo Verde independente. Um julgamento grotesco, absurdo e indigno, próprio de mentecaptos, de que, felizmente, se não identifica o Presidente da República, como demonstrou, mas que não teve influência política suficiente para travar a demolição da Casa.


O mindelense de outrora que eu conheci – o cabo-verdiano de espírito aberto, convivente, tolerante e justo – por certo teria vindo a terreiro, em mole humana significativa, para manifestar publicamente o seu repúdio pela “decisão política” de tentar apagar da memória histórica aquele que é seguramente o mais destacado cabo-verdiano do século XX, cuja destemida intervenção na Assembleia Nacional do antigo regime português impediu que a nossa terra não fosse completamente arredada da agenda do governo de então.


Só a corrosão deletéria dos tempos hodiernos, subalternizando valores sublimes, impediu que o povo do Mindelo tivesse agido como se lhe impunha, em preito de justa homenagem e em memória de quem foi o fautor do cais acostável do nosso porto.


Não é possível que a correnteza de ânimo se tenha estagnado completamente em S. Vicente. O José Fortes Lopes atribui a sua causa a perda de características identitárias na população da nossa ilha, que, segundo ele, é hoje uma mescla de populações das ilhas mais próximas, o que não é necessariamente um factor negativo, mas que poderá sê-lo na medida em que não têm emergido novos líderes sociais e culturais para compensar a sangria ocorrida a seguir à independência e à emigração para a Praia dos principais quadros.


Essa pode ser, de facto, uma razão. Mas, se assim é, urge lançar novos sementes na terra e aguardar por novas searas.

De veladimir romano a 02.08.2011 às 17:57

Estou em trabalho na ilha onde nasceu Napoleão e, viajando por este Mediterrâneo desde Maio de 1969, pela primeira vez, deparo-me com esta oportunidade, porém, sempre com o mesmo gosto quando me chegam novidades da terra, orgulhoso que sou de também partilhar o sentimento de ilhéu, desde São Vicente, meu berço eterno. A primeira coisa que me chamou de atenções, foi o aeroporto de Adjaccio se chamar Napoleão Bonaparte; engraçado o entanto, os habitantes corsos não gostarem do seu conterrâneo, não admitem sequer esquecê-lo, dando esta honra dele ser a porta de entrada principal da ilha. Ora, este texto extremamente oportuno sobre a enorme figura do Dr. Adriano, um exemplo de caboverdianidade, poderia ser tomado como exemplo de Napoleão e, agora que temos um aeroporto internacional com alguma dignidade, seria de óptimo gosto, acaso pudéssemos repensar a justiça de ao longo destes anos, gente tanta, sem explicação, com responsabilidades administrativas, terem esquecido propositalmente a figura histórica de Dr. Adriano Duarte Silva. Esta lembrança pedagógica seria bom chegar aos governantes e em especial relevo à Câmara Municipal de São Vicente, para se cumprir uma obrigação, a de se homenagear um homem de grande valor até hoje incompreendido pela classe dirigente, ainda a tempo de recolocar essa pontinha de justiça tresmalhada. Só ficaria bem... a todos. Obrigado "Esquina do Tempo" pela reprodução das coisas com valor dentro e ao senhor João Nobre de Oliveira que desde Macau, sente como ninguém o valor que uma ilha pode conter...

De Anónimo a 05.08.2011 às 08:10

Pouco antes do seu falecimento, no mês de Junho, verificara-se a fuga de Portugal para a França, de vários estudantes universitários africanos que pretendiam ir juntar-se aos movimentos que iam combater pela independência das ex-colónias. Uma coincidência o facto de o último grande paladino da adjacência ter falecido quando começavam as guerras da independência.


Novos ventos sopravam e novas ideias para resolver os problemas de Cabo Verde surgiam.


Mas cada homem é grande na sua época e deve ser enquadrado no seu tempo.


 


João Nobre de Oliveira

De Brito-Semedo a 05.08.2011 às 09:43

"O seu ao seu dono"! Caríssimo Amigo, é bom encontrá-lo aqui no "Na Esquina" e quero agradecer-lhe e felicitar o seu importante texto sobre o Dr. Adriano Duarte Silva, que originou este  post, em boa hora indicada por um amigo e admirador comum!
O comentário/desabafo de agora foi a cereja sobre o bolo! Ficamos a dever mais esta!
Encoste-se ao "Na Esquina" e participe da nossa conversa e conte coisas lá dos Orientes. Braça forte!

De Suzana Abreu a 14.03.2016 às 11:01

Para que a sua memória e o que fez por Cabo Verde não ficassem esquecidos, foi-lhe dedicado um pequeno texto, já em 2012, no livro "Cabo Verde, Terra de Morabeza", na secção Nôs Terra, nôs Gente". E foi com muito gosto que o recordámos, eu e o co-autor Luis António Faria, tentando, com palavras isentas, que a verdade fosse reposta. 


Os paradigmas mudam, as políticas também, a História até pode ser contada consoante as conveniências (e tantas vezes assim acontece...), mas, no fundo, sabemos que os factos ocorridos jamais poderão ser enterrados: têm a terrível teimosia de voltar à tona.


Gostaria de colocar aqui a foto dessa página que lhe foi dedicada, mas infelizmente não consigo.


A todos, um excelente dia!


Com cordiais cumprimentos


Suzana Abreu




De Joaquim ALMEIDA ( MORGADINHO ) a 14.03.2016 às 15:57

Ainda bem que este blog existe ( como outros de resto ) para trazer sempre que for necessàrio a memoria deste ilustre caboverdiano para que esta nova geraçao saiba como Cabo Verde foi crescendo e isso desde que os seus filhos como Adriano Duarte Silva , se dedicou durante a sua existência !.Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

De Madoro Santos a 22.03.2017 às 12:41

Grande homem e um referencial para toda a descendência caboverdeana. Vamos espreiar o seu legado e ser consequentes.

Obrigado por espreiar-me este seu legado.
Abr

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