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Jogo de Despedida do Dr. Baltasar Lopes

Brito-Semedo, 27 Ago 11

Equipa Mista, Casados e Solteiros, Mindelo, 1951

 
Legenda (esquerda para a direita) De pé: (…), Djony Barbeiro, Jom de Nha Estudante, Piloto de Bia Djodja, Filinto Joia, Herminio Pereira, José Figueira, Jorge Sena Pinto, Jom Bintim, Dr. Baltasar Lopes, (…), Tuta Melo, Tchuf de Jom Dóia, Jom Dóia, Djack de Câmara e Dufega; Agachados: Nhone de Jom Bronque, Papim Melo, Julim Melo, Vasco Melo, Antone Puntchinha, Paulo Diplomata, Manecas (mascote) Manim Estrela, (…), Mano de Carmo e Djosa Sena.
 

Equipa de Casados, Mindelo, 1951

 

Legenda (esquerda para a direita) De pé: Dufega, Jom de Nha Estudante, Piloto de Bia Djodja, José Figueira, Herminio Pereira, Dr. Baltasar Lopes, Jom Bintim, Jorge Sena Pinto, Djosa Sena; Agachados: Filinto Jóia, Tuta Melo, Djony Barbeiro, Manecas (mascote), Jom Dóia e Djack de Câmara.

 

"Dr. Baltasar ti ta ba pa Brasil!" Nunca uma frase foi tão preocupante para o povinho amante e assaz ambígua na nossa língua crioula. É que mais de dois terços da população mindelense a interpretava no pior sentido pois conheciam os rumores que sempre circulavam sobre esse filho querido de Cabo Verde, que nunca trocou a sua terra natal por qualquer outra. Nem a possibilidade que teve de ir para Coimbra, o que seria a cereja sobre o bolo para tão brilhante e ilustre cabo-verdiano, que jamais será esquecido urbi et orbi.

 

Quem havia de aproveitar do boato (ele nem sabia se era "a" ou "para") foi o meu dinâmico tio, João Oliveira Santos, popularmente conhecido por Jom Bintim, o criador do Derby, o homem dos cavalos, das receitas de meladinha (ô tonte dor de cabeça!!!) e de manifestações, nomeadamente as despedidas do Dr. Baptista de Sousa e Dr. Luiz Terry.

 

E foi assim que, aproveitando-se da noticia que inquietava a população, pôs em prática a sua experiência em matéria de organizações para montar uma "festa de despedida" como se o nosso Homem estivesse de malas arranjadas para ir residir nas terras de Amado, Bandeira, Graciliano, Lins do Rego, etc., deixando para trás o primo José Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Ferreira e tantos mais. Nho Baltas só queria (e Jom Bintim não sabia) ir ouvir as modinhas em voga, ver a Praia de Copacana e subir ao Pão de Açúcar.

 

No programa da festinha houve um jogo de futebol entre Casados e Solteiros, seguido de um baile na sede do Castilho com discursos de fazer chorar (Senhor dotor ca bocê 'squecê de nôs).

 

Os que pensavam que a ida seria definitiva cedo realizaram que a viagem foi, se calhar, uma promessa de pôr os pés na Terra de Vera Cruz.

 

Valdemar Pereira, Tours, França

Dr. Baltasar Lopes dando o pontapé de saída

 

Fotos do Arquivo de Valdemar Pereira, Mindelo, 1951

 

 

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17 comentários

De Luiz Silva a 28.08.2011 às 11:33

Foi durante o periodo de ausência de Cabo Verde de Baltasar Lopes que apareceu, como convidado do Governo português, o sociologo brasileiro Gilberto Freire, que numa viagem de sete dias no veleiro Senhor das Areias, se permitiu escrever as maiores enormidades sobre a cultura caboverdiana ( ver Aventura e Rotina). Foi no regresso à Cabo Verde que Baltasar Lopes resolveu responder ao sociologo brasileiro com o opusculo Cabo Verde, visto por Gilberto Freire, tão necessario ainda para os nossos jovens para uma ajuizada leitura sobre a caminhada cultural de Cabo Verde. Baltasar Lopes foi ainda um grande desportista: corredor dos 400 metros, jogador de cricket e golf e dirigente desportivo. Parabens ao Valdemar por esta maravilhosa fotografia.

De Brito-Semedo a 28.08.2011 às 12:02

Caro Amigo Luiz silva, Obrigado pelo enquadramento histórico.

A visita meteórica de Gilberto Freyre às ilhas de Sal e S. Vicente ocorreu entre 19 e 29 de Outubro de 1951 e o seu livro "Aventura e Rotina" saiu em 1953.

O Dr. Baltasar Lopes viria a responder às afirmações de Gilberto Freyre com os seus "apontamentos lidos ao microfone de Rádio Barlavento", tendo a primeira saído na emissão de 12 de Maio de 1956.

Nesse caso, é mais do que provável que essa despedida aqui descrita e ilustrada fotograficamente pelo Valdemar Pereira tenha tido lugar em 1951. Braça e votos de bom domingo!

De Adriano Miranda Lima a 28.08.2011 às 12:55


Início da década de 1950, e eu nunca tinha ouvido falar nesta despedida a não ser por relato do Valdemar. Eu era muito pequenino ainda.


Realmente, a expressão crioula pode conter ambiguidades. A língua portuguesa diria: Nhô Baltas vai para o Brasil, ou Nhô Baltas vai ao Brasil, frases em que as preposições “para” ou “a” marcam a diferença definindo o sentido  preciso da deslocação do professor ao Brasil. Mas o crioulo neste caso não deixa escapatória possível pois, que se saiba, só é possível utilizar o “pa”. Bem gostaria de saber se o ALUPEC, com a sua pseudo-gramática, tem respostas para estes casos, mas duvido.


Agora, será que a rapaziada não sabia mesmo que o nhô Baltas ia apenas para arejar o espírito? Como sabemos, na nossa terra, arranja-se sempre pretexto para organizar umas farras, um baile ou umas comezainas. Veja-se o butzód de boneca!


Foi bom rever estas pessoas tal como eram naquele tempo.

De Joaquim Saial a 28.08.2011 às 15:01

Achegas:

"Diário Popular"
2.OUTUBRO.1951
INICIA-SE A VIAGEM DE GILBERTO FREYRE AO ULTRAMAR – Dando início à viagem ao Ultramar, para que foi convidado pelo ilustre ministro da referida pasta, sr. comandante Sarmento Rodrigues, parte esta noite, de avião, para a Guiné, via Dacar, o notável sociólogo brasileiro e grande amigo de Portugal, sr. dr. Gilberto Freyre. Esta primeira etapa da sua longa viagem pelo «mundo que o Português criou», compreende a Guiné e Cabo Verde. Voltará o nosso ilustre hóspede a Lisboa daqui a um mês, para partir de novo – então para a Índia e Macau, e daí para Moçambique, Angola e S. Tomé.

Acompanha-o, na viagem à Guiné, o distinto etnógrafo sr. comandante Teixeira da Mota, sendo em cada uma das outras províncias ultramarinas, escolhido para acompanhar Gilberto Freyre um funcionário com inclinação de espírito para os estudos de antropologia cultural.

2.NOVEMBRO.1951
GILBERTO FREYRE DIZ AO «DIÁRIO POPULAR» QUE REGRESSOU DA GUINÉ E DE CABO VERDE IMPRESSIONADO COM A ENERGIA CRIADORA DOS PORTUGUESES (tenho fotocópia; a notícia é longa e não posso colocá-la aqui, mas fica a nota bibliográfica).

De Brito-Semedo a 28.08.2011 às 18:17

Isto é uma verdadeira investigação, tendo por epicentro o "Na Esquina", hihihi!!!

Obrigado, Amigo Saial, por partilhar estas informações com os leitores e pela cópia do "Diário Populoar" enviado. Fico a dever-lhe mais esta! Abraço!

De Joaquim Saial a 28.08.2011 às 16:08

E ao que parece, nhô Balta não foi ao Brasil por gosto momentâneo ou mera vontade de passear.

Tenho documentação de meados de Janeiro de 1958 (altura em que já tinha saído o seu "Dialecto Crioulo de Cabo Verde"), que diz o seguinte:

«Tendo compreendido que um dialecto português do ultramar não podia ser completamente estudado sem a constante referência ao português do Brasil, Baltasar Lopes da Silva, além de se documentar pela leitura dos autores brasileiros, aproveitando umas férias escolares, em vez de vir à metrópole, foi, à sua custa, de longada até Terras de Santa Cruz (queria dizer o jornalista de "Vera Cruz") e lá andou estudando as alterações tropicais da língua portuguesa. (...)»

Braça,
Djack

De Brito-Semedo a 28.08.2011 às 18:24

Olhem a riqueza de informações que se partilha aqui no "Na Esquina"! Mas também com leitores generosos como esses...

Amigo Saial , então, isso leva-nos a concluir que a "despedida" do Dr. Baltasar Lopes terá ocorrido em finais de 1957 ou nos primeiros dias de 1958.

Obrigado, mais uma vez!

De Anónimo a 28.08.2011 às 18:49

Amigo Brito-Semedo,

A cópia de jornal que lhe enviei é do "Diário de Notícias" de New Bedford (6.Novembro.1951) e reproduz um texto de "O Século".

Quanto à ida de Nhô Balta ao Brasil, tenho dúvidas, mas terá sido certamente por 57 ou 56 ou até 55, por aí. Estar lá, obter os dados que desejava, tratá-los e depois escrever e publicar o livro, tudo aponta para a segunda metade dos 50, de facto. Mas não tenho certezas. Enfim, vamos escavando e vamos encontrando.

Um grande abraço,
Djack

De Valdemar Pereira a 28.08.2011 às 20:04



Vejo com imenso prazer os cometários do Luiz, do Adriano e do Djack que me ajudaram na data da festa que deve ser Outubro de 1951 pela simples razão de estar na Western quando apareceu o Sr. Julim Oliveira com o ilustre Gilberto Freire que me deu um monzada e me questionou durante uns minutos.

Aproveito o ensejo para agradecer ao "Na Esquina" por tudo o que vem trazendo a público. Tudo quanto vem refresca a memória ou noticia factos que os mais novos desconhecem. E se sou tido no que vem desfilando a intenção é de dar a minha contribuição mas nunca para procurar a galeria.

De Brito-Semedo a 28.08.2011 às 20:17

Caro Amigo, Se o "Na Esquina" tem feito um trabalho de divulgação e de utilidade pública, isso é graças aos colaboradores que tem. Nesse caso, os agradecimentos são mais deste lado do que dos colaboradores. O "Na Esquina" é nossa e é para isso! Braça!

De Adriano Miranda Lima a 29.08.2011 às 17:01


Não apanho bem o que leva o amigo Brito Semedo a concluir que a viagem de nhô Baltas ao Brasil foi em 1958, quando todos os factos apontam para 1951. E um deles é a memória do Valdemar, que nestas coisas é infalível, ou não fosse o episódio do encontro no Telégrafo que o tocou pessoalmente. Penso que a notícia de 1958 a que se refere o Saial é sobre a obra de nhô Baltas (O Dialecto crioulo de Cabo Verde) escrita muitos anos depois da sua viagem.
Mas vê-se que acabou por vir indirectamente à baila o pensamento de Gilberto Freire sobre o lusotropicalismo e as considerações que formulou sobre Cabo Verde, que viriam a ser replicadas, e com todo o fundamento epistemológico, pelo nhô Baltas.
Este é um tema que poderia retornar um dia destes à Esquina.
Uma figura que eu registei particularmente na foto é a do Djonny Barbeiro. Conheci-o bem porque diariamente passava na minha rua a caminho da sua casa, que creio ficava em Fonte Filipe. Mas conheci-o também pela sua barbearia, que ficava num compartimento com ligação exterior situado no lado esquerdo do Mercado Municipal. No lado oposto, ficava o de nhô Fidjim, que era o que eu frequentava, porque o meu pai me fez freguês da casa era eu ainda um mucim de uns 2 ou 3 anos. E nunca tive outro enquanto estive em Cabo Verde. Causaria admiração ver o Djonny como futebolista, dada a sua destacada barriguinha, caso não soubéssemos que aquilo era uma brincadeira de solteiros contra casados. Mas sempre ouvi dizer que o Djonny foi boxeur, o que o Valdemar poderá aqui confirmar ou não.

 

De Brito-Semedo a 30.08.2011 às 00:25

O Amigo Valdemar encostou-se ao "Na Esquina", deixou-nos lançar os dados e apresentar as nossas hipóteses de data da "despedida" e, no fim, quando achei que já tinha uma data de consenso, aparece, como quem não quer  a coisa, e arruma-me com a invocação da sua memória!  Valdemar falou e disse: a data é 1951 e pronto!

De Valdemar Pereira a 29.08.2011 às 20:31


Caro Adriano,
Com a leitura de mais de um post , fiz amálgama e falei do Djony de Mari Barba, também conhecida por Bibaba , no teu extraordinário cenário de cow boy " nas tapadas de Fonte Cónego  onde o Moraizim se distinguiu como o "sport" montado numa mula. Cada se defende como pode e, assim, a mula de Nhô Vasco podia servir para qualquer coisa... excepto corridas.
Mas convém falar aqui do "kipper" de festas entre casados e solteiros que foi também boxeur e tocador de rabeca. Ele encontrava-se com outro barbeiro - Gregôrio - que o acompanhava ao violão; encontrei-o em Dakar onde também esteve o Fidjim, teu barbeiro, que se defendia muito bem no violino.
Todos esses "figaros" tinham por émulo Nhô Tchitche cuja barbearia se encontrava no outro lado do Plurim. Este boavistence - barbeiro que ousou reter na sua oficina o Dr. Baptista de Sousa para ouvir o seu violino - merece uma homenagem pois era uma figura da paisagem mindelense.

De Luiz Silva a 30.08.2011 às 06:46

Nhô nbsp; Tchitche, barbeiro, acérrimo defensor do racionalismo cristão, era muito amigo do Dr. Baltasar Lopes da Silva,  que  possuia um grande humor e gostava de falar dos acontecimentos diarios da vida mindelense. O Baltas contou-nos uma historia com o Tchitche, que ele considerava o unico racionalista cristao coerente no Mindelo. Dizia ele que soube da morte do filho do Tchitche, um rapaz muito traquinas e foi à casa dele  apresentar-lhe as condolências. Ao aproximar da casa do Tchitche  deparou-se  com ele a tocar o seu violino e perguntou-lhe se   era verdade que o filho tinha morrido ao que este respondeu: Sim! Mas a morte nao interrompe a vida. Ele vai agora fazer uma verdadeira evoluçao espiritual e voltar a fazer a reincarnaçao com uma missao util para a humanidade. Foi a sorte dele de se ter desencarnado. E continuou a tocar sobriamente o seu violino... 

De Valdemar Pereira a 30.08.2011 às 09:31

SO VISTO !!!

O procedimento no comentàrio que antecede é coisa rara.
Ainda em Setembro 2010, passava ao pé da casa da avozinha do Luiz , na Rua do Coco, vi casualmente um "casa de morto". Porta "escancarode, gente que cara d'caso", sem nenhum quadro na parede, um espelho grande coberto de pano preto. Outrora era assim e a gente dessa casa fazia como gente antiga. Nhô Tchitche era pessoa diferente. Foi um criador, daqueles que contribuem para o enriquecimento de uma lingua. Ele popularizou uma interjeição que empregava invariavelmente para qualquer coisa:
- SO VISTO !!!

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