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Foto gentilmente cedida por Elísio Silva, Portugal

 

 

Luiz Silva, Sociólogo, Paris

 

A Pracinha d' Quêbrod em Roterdão (Holanda) faz-me lembrar a Praça Estrela nos anos sessenta, onde se encontravam crianças, jovens e adultos, para falarem de tudo, principalmente do futebol, de grupos carnavalescos, de namoradas, etc. Às segundas discutia-se futebol e aos sábados as namoradas. Um dia o Djosinha de Bernarda do Mindelense, teve um problema de  namorada com o Piras de Nhô Rimundi e tratou «de leme de mota»  ao seu bigode,  ao que este respondeu de maneira sartriana: “um beijo sem bigode ê moda cmê um ovo sem sal”. Anos depois em França, ao encontrar essa resposta no Les Mots, ensaio biográfico de Jean Paul Sartre, viajei pela minha história na Praça Estrela e sempre lhes lembrei desse momento na Praça Estrela.

 

Quando os caboverdianos, de maneira autónoma, graças aos 12 apóstolos da emigração para Holanda, saídos clandestinamente do Porto Grande à procura de um abrigo no exterior para organizar a libertação de Cabo Verde das secas e das fomes, do Caminho de São Tomé e Príncipe e da colorização portuguesa, chegaram a Amsterdão (Jerusalém do Norte) e a Roterdão. Precisavam de seus próprios espaços para se encontrarem e trocar informações sobre o trabalho, a política, como também para criarem actividades culturais e desportivas. Para quem conheceu a situação dos nossos emigrantes recém-chegados nos fins dos anos cinquenta e princípios de sessenta na Holanda e a importância de haver um ponto de encontro onde se poderia encontrar um amigo e a solidariedade dos irmãos, esta Praça, que os próprios caboverdianos deram o nome de “Pracinha d' Quêbrod”,  teve e tem uma história especial na emigração caboverdiana. Outros pontos de encontro dos caboverdianos noutros países da Europa tomaram o nome de “Pracinha d' Quebrode”. Assim, temos “Pracinha d' Quêbrod” em Paris XVI e em Roma.

 

Na “Pracinhad' Quêbrod” em Roterdão festeja-se também as festas tradicionais de Cabo Verde, em especial o Sam Jom, que reúne gente de todas as ilhas, em especial de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau, graças à acçao de uma associação cultural onde se distinguia o Mariano Teixeira “Dim-dim”, Pedro Soares, Gilberto Andrade, João Pedro, Djosa Bernarda, Tchurlim entre outros. Tornou-se numa referência para qualquer caboverdiano que visite a Holanda. Ali fala-se crioulo, ouve-se as músicas mais recentes, informa-se das actividades políticas em Cabo Verde ou dos encontros socioculturais dos fins de semana numa grande fraternidade, totalmente diferente do Cabo Verde actual onde da política se fez clubismo bairrista e as pessoas se definem pela cor política e não pela origem familiar ou regional. Em tudo isso se vê também a influência cultural da Holanda, sem dúvida um dos países mais democráticos do Mundo. A emigração não é uma questão simplesmente económica: também conquista-se valores sociais e culturais.

 

E ali encontramos velhos amigos da Praça Estrela como o Deiza, irmão do tenista castilhano Marcolino “Naraus”, morto num grande naufrágio, o Amâncio, o Djosa de Bernarda, o Rui de Tuda, cada um a defender orgulhosamente a sua equipa de Cabo Verde e não de Portugal, como hoje acontece em Cabo Verde. Fala-se da chegada dos emigrantes nos fins dos anos cinquenta e principios de sessenta e das pessoas que organizaram a nossa emigração e em especial dos fundadores da comunidade; das equipas de futebol caboverdianas de Roterdão e de Cabo Verde; da criação da “Voz de Cabo Verde” e do jornal “Nôs Vida” (que precisa ser reeditado devido ao seu papel na luta de libertação); dos problemas das outras comunidades caboverdianas no Mundo; dos agentes sociais que arranjavam trabalho nos barcos aos caboverdianos; de holandeses e holandesas (como Maria Grega e o Papá Dedona que muito ajudaram os caboverdianos); da participação dos emigrantes nas transformações económicas, sociais e culturais, a partir dos fins dos anos cinquenta.

 

Arquivo Histórico Nacional (IAHN), Praia

  

Esses factos nunca mereceram uma comemoração por parte do Governo de Cabo Verde ou do Município de São Vicente, donde partiram os caboverdianos para a luta por Cabo Verde. Não foi somente nos maquis da Guiné que se lutou pela Independência de Cabo Verde. Muitos desses combatentes da Guiné já tiveram todas as glórias e reconhecimento enquanto ainda não houve nenhum reconhecimento, nenhum estatuto, nenhuma medalha para estes combatentes da Pátria nos mares do mundo, a partir de Roterdão.

 

Os nossos heróis emigrantes, que tanto deram por Cabo Verde, não têm ruas, nem avenidas, nem praças. Podemos ser emigrantes, mas não temos nomes próprios para nos identificar. Toda a história de Cabo Verde e dos emigrantes é revisitada diariamente na “Pracinha d' Quêbrod” num percurso que nos leva à travessia do oceano no caminho das Américas em busca do pão, dignidade e sacrifício para as familias, até às roças de São Tomé onde os nossos irmãos continuam a padecer enganados de que com a Independencia seria o regresso à Terra-Mãe.

 

A Câmara Municipal de Roterdão, informada, mandou também fixar ao lado do seu nome em holandês o nome caboverdiano desta praça, considerada como o ponto de encontro e de actividades dos caboverdianos. Na “Pracinha d' Quêbrod”, podemos encontrar holandesas com os maridos caboverdianos a falarem crioulo, o que nem sempre acontece com as portuguesas em Cabo Verde.

 

Em comparação àquilo que faz o Município de Roterdão para os nossos emigrantes no plano social e cultural, perguntamos o que fazem os Nossos Municípios para os nossos emigrantes, fundamentais no seu desenvolvimento? Pagamos impostos, participamos no desenvolvimento económico dos municípios de Cabo Verde e não temos o direito de voto ou, melhor, fomos excluídos do nosso município. Não existimos, jurídica e politicamente no nosso município.

 

Há dias estive em Roterdão e encontrei na “Pracinha d' Quêbrod” um amigo de infância, reformado, que passou a vida a trabalhar duramente nos mares do mundo para sustentar a família e investir em São Vicente e que, angustiado, me disse:

 

“Luiz, passei três meses em São Vicente e vim desgostoso: o povo de São Vicente ignora o nosso sacrifício por Cabo Verde. Somos mal recebidos nas repartições e somos valorizados simplesmente pela nossa conta bancária. As pessoas ignoram-te nas ruas e em três meses ninguém me convidou a um almoço em sua casa, quando aqui sabemos receber os nossos compatriotas que vêm de Cabo Verde ou de outro lugar.

 

Conheço muitos países do Mundo, como o sul da Itália, onde os emigrantes têm um papel importante na vida económica e cultural e são respeitados em todos os lugares. Durante o período de Verão as câmaras municipais, os bancos, as empresas, as bibliotecas, as casas de espetáculos funcionam 24/24 horas para servirem os emigrantes e os turistas, pois deles depende a sua economia. As Câmaras organizam viagens dos seus munícipes, às empresas e os bancos, andam atrás dos emigrantes a proporem condições de investimento. O intercâmbio desportivo e cultural com os países de emigração são intensos e os emigrantes são verdadeiros embaixadores das suas câmaras.

 

A política municipal da emigração é mais importante do que a política regional ou nacional de emigração. Agora, o meu Soncente é aqui em Roterdão. Aqui realizamos os nossos sonhos de menino e moço, não há diferenças de classes, conseguimos a nossa emancipação, o Município tem um programa de apoio às pessoas de terceira idade, não nos humilhamos com pedidos de favores, vivemos numa grande fraternidade, somos respeitados e apoiados pelo Município. Aqui na “Pracinha d' Quêbrod” somos todos iguais, todos irmãos! Nha Soncent ê na Roterdão!”

 

Isto perseguiu-me todo o dia. Voltei no dia seguinte à “Pracinha d' Quêbrod” à procura do Djosa de Salamansa, sapateiro na Casa do Sr. António, para discutirmos sobre a frase: “Nha Soncent ê na Roterdão”. E então falou-me da sua infância e da sua juventude em Cabo Verde, da sua luta para emigrar para a Holanda, do seu sacrifício por Cabo Verde sem encontrar reconhecimento público da Nação. Não regressou quando podia levar a sua reforma, o seu saber e novas práticas de vida.

 

Na verdade, faltam-nos estruturas para se compreender o ser e o estar dos nossos emigrantes. Os partidos políticos, por razões partidárias, criam estruturas para amigos e compadres quando, para estudar a emigração, precisa-se de gente com experiência e saber. A “Pracinha d' Quebrode” tem estórias e estórias da nossa emigração por contar.

 

A emigração é uma disciplina (já escrevi isso noutros lugares) que no contexto caboverdiano deveria ser estudada nas escolas primárias, nos liceus e nas universidades, para que o povo caboverdiano conhecesse uma parte substancial da sua história, do sacrifício dos caboverdianos no Mundo por Cabo Verde, com derrotas e sucessos, sempre pensando em Cabo Verde. No Liceu, há muito que sugeri o estudo do holandês e do italiano como línguas livres para facilitar o conhecimento desses países da nossa emigração, da sua história e da sua cultura. A geminação com cidades da nossa emigração, a criação de centros culturais na nossa emigração e vice-versa (de há muito que se pede um centro cultural holandês em São Vicente). Como continuar Cabo Verde se não existe um projecto cultural para a nossa diáspora? Somos capazes de brigar com essa leviandade do alupec, de gastar dinheiro num alfabeto que divide os caboverdianos, pois já possuímos o nosso alfabeto segundo a ortografia portuguesa e não somos capazes de pensar nas línguas que educam e libertam o homem!

 

Os emigrantes têm sido os agentes da modernidade em Cabo Verde, mas não só precisam de reconhecimento da Nação como também de condições para fazerem a sua reintegração sua Terra Natal. Queremos os nossos direitos nos Municípios e na Nação, com igualdade de direitos e deveres. A política actual da emigração não serve! Somente consegue afastar o emigrante caboverdiano da sua Terra Natal onde nem sequer direitos tem no local onde nasceu…

 

Paris, 2 de Agosto de 2011

 

 

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6 comentários

De Adriano Miranda Lima a 02.08.2011 às 19:49

Não conheço a Holanda a não ser em trânsito pelo aeroporto de Amsterdam, e é por isso que a “Pracinha de Quebrode” de Rotterdam é para mim uma novidade.
O Luiz descreve-a com grande autenticidade e com um pormenor que sintetiza o que de mais precioso colhe da humanidade das pessoas que a frequentam e animam. Essa Praça é, em rigor, uma ágora, pois se os bolsos de alguns dos seus frequentadores poderiam andar circunstancialmente vazios, certamente que não as suas cabeças e o que nelas fervilhava de sentimentos, ideais e saber de experiência feito. Uma ágora era o espaço de cidadania da antiga polis grega e para o cabo-verdiano emigrante bem se compreende a importância similar de um lugar desta estirpe onde a coesão grupal concita a força anímica que por certo não haveria na demanda individual do trabalho ou da satisfação das necessidades mais imediatas para quem chegava a um mundo novo e estranho.
Conforme percebemos, a Praça não tardaria a deixar de ser exclusiva dos “quebrodes” para passar a ser uma reinvenção do Mindelo contido no coração de todos. Todos? Provavelmente não seriam todos de S. Vicente ou ilhas mais próximas do Barlavento. Mas bem se vê que a alma mindelense é que imperava e impera naquele ambiente, com o que de singular a define e transporta para todos os cantos da imensa diáspora. É a esta “cultura” que há poucos meses me referia num artigo de opinião publicado no Notícias do Norte e no FORCV.
Contudo, não é por acaso que o Luiz afirma que hoje em dia muitos cabo-verdianos encontram um Mindelo mais pleno de genuinidade na “Praça de Quebrode” do que na própria cidade natal. Não admira, comparecem lá todos de coração lavado e alma limpa, tão puros na sua identidade como quando, há muitas décadas, deixaram o torrão, ao tempo porventura mais escasso de progresso material mas mais rico de alguns valores humanos.
Pois é, o luiz volta a enfocar as razões de desencanto com a terra de que muitos se queixam, ou por causa da desconfiança com que se olha para o emigrante, ou por causa de constrangimentos políticos, ou, mais frequentemente, por causa de escolhos e dificuldades com que o emigrante quase sempre se depara na resolução dos seus problemas.
Continua…

De Adriano Miranda Lima a 02.08.2011 às 19:53

Continua…
Não preciso de grande esforço de convergência para reconhecer inteira verdade nas palavras do Luiz. Eu também sou um emigrante, a bem dizer. Regressei ao berço natal 40 anos depois de ter saído e estranhei imenso o comportamento de algum modo indiferente das pessoas. Estava à espera de reencontros efusivos e de muito mais abertura de espírito. As pessoas, de facto, parecia que fugiam à transitoriedade de um leve momento como partilhar um café ou um copo com alguém que chegava. Certo dia, resolvi ir à Biblioteca da cidade e impressionou-me as “trombas” com que a empregada me recebeu à entrada e quando informada sobre o motivo preciso que lá me levava. Frontal como gosto de ser, não pude deixar de a interpelar sobre o motivo do seu aparente azedume, ao que ela respondeu: “nha cara é assim meme, se bocê ca tá content paciência”.
Enfim, os tempos mudam como tudo na vida, mas é natural que se lamente o desaparecimento daquele antigo convívio inocente e descontraído que dava especial sabor ao encontro entre amigos.
Como saturadamente temos vindo a denunciar, urge mudar muita coisa na nossa ilha. É difícil, mas é possível. Incumbe-nos a obrigação de passar às gerações actuais um testemunho que será lamentável se vier a diluir-se na memória.

De Adriano Miranda Lima a 02.08.2011 às 19:57

Continuação e conclusão…

O Luiz deixa aqui um importante testemunho mas também um alerta e um desafio. Saibamos todos ler atentamente as palavras de quem sobre a emigração detém o saber e a experiência. O que acho muito difícil de concretizar, se não talvez dispensável, é a sugestão de ensinar nas nossas escolas o holandês e o italiano. O primeiro é falado por 15 milhões de pessoas e o segundo por 60 milhões, que, sendo já um número apreciável, fica bastante aquém dos 272 milhões de falantes da língua portuguesa no mundo inteiro, a quinta mais falada e a primeira no hemisfério sul. Ora, a emigração para a Europa é fenómeno social do passado, sem qualquer perspectiva de reanimação, como todos bem sabemos. Ao passo que temos, sim, de olhar prospectivamente com atenção para o hemisfério sul, onde emergem o Brasil e Angola, dois futuros colossos económicos que falam a nossa língua. É muito mais importante e urgente apostar na língua portuguesa do que perder tempo e energias com o completo disparate que é o ALUPEC. Não quer dizer que o nosso crioulo se menospreze e deixe de ser o nosso genuíno cartão-de-visita nos momentos mais informais e descontraídos da nossa vida. Que são aqueles em que nos sentimos inteiramente donos de nós próprios.

Um abraço

Adriano Miranda Lima


De Valdemar Pereira a 02.08.2011 às 20:35

E muita coisa mais se pode contar se houver interesse para o conhecimento da História dos de fora.
Pessoalmente espero o dia em que a Diáspora será reconhecida no seu justo valor porque pode dar uma contribuição efectiva para a construção da nossa terra que sempre viveu, em parte, das ajudas dos seus filhos que sairam.
Saimos para ganhar a vida e regressar e os que não regressaram definitivamente não esqueceram da terra natal contribuido para a sua economia e para a divugação da sua cultura.
Portanto hà que haver um retribuição e/ou reconhecimento para o melhoramento das relações.

Conheço a Cidade de Roterdão que visitei mais de uma vez tendo a cada vez o privilégio de ser recebido pelos nossos irmãos com a tradicional morabeza que tende a desaparecer.
Obrigado por isso tudo.

De Brito-Semedo a 02.08.2011 às 21:25

Recebi do Amigo Elísio Silva (Portugal), um comentário, pelo Facebook que, pela sua importância e curiosidade, passo aqui para o post:

"um lê quel brilhante traboi de nha migue e colega de escola de Rei, Luis Silva e um gostá tcheu. Má nha versão de orija de nome."Pracinha d'Quebrode" ê esse: nôs irmon conde ês tava bá pa Holanda primera vez ês tava ranjá quel dnhirim pa viaja e poc más. Tchegonde na Holanda ês tá instalá num pensão tê conde "agente" tá ranjás vapor. Entretante, enquante ês tava ta esperá e cma ês ca tinha dnher pa sentá num cafê moda quês que já era embarcode, ês tava bá sentá nesse praça, ondê quês tava passá dia na conversa. Antom um dia um grupe de patrices embarcadice, portante que dnher na bolse passá pra lá e um dês dzê bsote oiá quês quebrode. A partir desse dia ês cumeça ta tchemá quel praça, Pracinha d'Quebrode. Más ô menes isse cum patrice contame na Roterdão. BRAÇA

De Valdemar Pereira a 08.09.2014 às 16:50

Ê fantàstica a forma como se sentem os nossos patricios em Roterdão. A cada vez que passava na Pracinha (e não sô...) encontrava patricios que se distinguiam dos outros povos crioulos.
Muitos eram de Santo Antão. Inconfundivelmente e nem precisavam cumprimentar com o tradicional "Mênêra?"

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