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Capa José Gomes

 

À memória de João André Barros (Nhô Fula), o melhor wicket-keeper caboverdiano de todos os tempos.

 

Caboverdianamente, regozijo-me com este aumento de património Subsídios para a História do Cricket em Cabo Verde, do Prof. Antero Barros ao seu itinerário de atleta, pedagogo e construtor de mentalidades desportivas.

 

E rendo as minhas homenagens ao autor, ora Presidente do Comité Olímpico Nacional, pelo revigoramento que traz à reflexão e à evolução do culto do desporto nas nossas ilhas, sediado antes no futebol, na elegante disciplina do jogo do “Cricket”, de tradição britânica, então organizado entre os patrícios versus ingleses, como uma das velhas escolas de afirmação cívica mindelense, no seu cosmopolitismo ilheno, “fair-play” e urbanidade.

 

Investigador, sem nunca se afastar do rigor e da autenticidade factual e narrativa, primeiro substantiva a criação e a evolução das agremiações do cricket, quer do núcleo dos ingleses quer no âmbito dos caboverdianos como “gentlemen agreement” celebrados entre as duas partes; para depois vivenciar e personalizar os testemunhos com tal espaço e modo de participação, a induzir o próprio leitor a ser cúmplice de um passado que aspira ser conjugado no presente, onde as palavras e as emoções transportam para a memória gestual, a acção, o movimento e a eloquência coreográfica de um jogo de cricket.

 

A reconstituição das três gerações do Cricket – glória, sobrevivência, exterior – modalidade desportiva que primeiro se praticou em Cabo Verde a partir do último quartel do século XIX, é paralelo e complementar, na visão do Autor, de outros subsídios históricos que colocam a “Ilha do Porto Grande”, então o “living room” entre o Atlântico Norte e o Atlântico sul nas esteiras das companhias carvoeiras e dos grandes fluxos portuários dos navios de guerra e passageiros, dos velbotes de pesca e vapores que escalam Mindelo: fonte não só de uma das alavancas indutoras do desenvolvimento económico do arquipélago, como também do florescimento de uma urbanidade de raiz atlântica com enfoques recebidos, nomeadamente, da Inglaterra, Noruega, Grécia, portos da costa de África, Estados Unidos, Argentina e Brasil.

 

O cosmopolitismo dos contactos e o domínio de várias línguas de comércio (inglês, norueguês, holandês, grego) por patrícios quase analfabetos; a reconhecida capacidade laboral dos ilhéus e o discreto orgulho na organização de desportos de vanguarda urbana (cricket, futebol, golfe, ténis), a merecer destaque na imprensa londrina, pela maestria técnica dos seus cultores face a relevantes equipas estrangeiras, são valores que também enriqueceram e foram enraizando no homem da ilha a conscientização caboverdiana da diferença.

 

Antero Barrros, Foto Caboindex.com

 

Meu caro Antero Barros, seguindo pelos subterrâneos dos seus propósitos, não será despiciendo perguntar ao largo arquipélago da pedagogia do sofrimento e da afirmação – através da exclusão e da dor, através da erosão e do amor – se a iniciática celebração do “Eu” colectivo pelo desporto não terá quiçá contribuído, também, como a imprensa, a literatura e demais tradições nativistas dos fins do século passado e primórdios deste, para a reconstrução dialéctica do nosso proto-nacionalismo.

 

Ao dedicar esta obra ao pai, João André Barros, popularmente estimado e conhecido por NHÔ FULA, - uma magnânima estatura de gigante na sua imponderável destreza de caçador de tubarões e mergulhador de sete fôlegos e salvador de vidas no mar de canal – ilumina-se a árvore de várias gerações de patrícios que, na sua vocação cívica de bem-fazer e melhor servir, vem enriquecendo a tradição e a dignidade das gentes do arquipélago.

 

Praia, Outubro de 1998

Corsino António Fortes, "Prefácio"

 

Título: Subsídios para a História do Cricket em Cabo Verde

Autor: Antero Barros

Editor: COC/CPV, Praia

Capa: José Gomes

Edição: 1998

 

 

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2 comentários

De Valdemar Pereira a 11.08.2011 às 06:13

Feliz ideia esta de trazer um dos desportos mais populares de S.Vicente e, com ele, uma das nossas valorosas figuras - Antero Barros.
Não cheguei a praticar este desporto que começou na então Salina para transitar mais tarde para a Chã de Cricket hoje a parte norte da cidade do Mindelo mas, como todos os meninos do meu tempo, fui "fominha de corrida pau" no Largo de Chã de Cemitério.
Pouca ideia me resta desta prática mas ainda conheci gente famosa da qual não me aventuro a falar aqui porque de certo alguém mais abalizada o fará brevemente. Todavia, com a vossa licença, cito dois dos meus tios que fazem parte do núcleo dos Grandes Praticantes: - Tomaz Djidjula e Felipe Tchutcho.
Dos desafios que vi, um ficou-me para sempre na memória: S.Vicente contra a Home Fleet que estava de visita a Cabo Verde. Na sorte coube aos locais receber e... dar cátedra. Mas o jogo foi interrompido à noitinha para nunca mais recomeçar.
Na nossa gíria temos uma expressão que cola precisamente à pouca sorte dos britânicos: - "Cercá pa nothing"

De Brito-Semedo a 11.08.2011 às 08:32

Do amigo e Colaborador Luiz Silva (Paris) recebemos o comentário abaixo, com o pedido de publicação:

O primeiro jogo de cricket a que assisti na companhia do meu pai foi na Chã de Cricket . Eu era uma criança dos meus cinco anos e ainda me lembro do famoso North Lewis , que me ofereceu uma chávena de chá e que eu rejeitei por falta de açúcar. Nunca mais me esqueci desse encontro entre caboverdianos e ingleses e ainda do Eduardo Fula, excelente bolador e um taco seguro, do meu padrinho, Florencio de Canjinha, pai do malogrado Tchifão , como também de outros amigos do meu pai, sempre presentes na nossa casa. O cricket , para além de ser na altura um desporto tão popular como o futebol em São Vicente, era também o mais nobre, seguido do golf e do boxe. No meu bairro jogávamos cricket e também o famoso rodiada pau, o nosso base-ball , com pau de pilão e outros tacos. Muitas vezes era no portão de Nhô Fula, dado o espaço que lá existia, que organizávamos os nossos jogos perante o silêncio de Nhô Fula, homem de poucas falas, mas um herói como jogador de cricket , como também caçador de tubarões e o homem que arrastava os barcos para que não houvesse fome em São Vicente. Nhô Fula era um benemérito silencioso que ajudava os pobres e até alguns malucos que se diziam afilhados dele.

Como compreender o declínio dessas actividades desportivas em São Vicente? O crikect era praticado por todos os clubes desportivos e também pelas empresas privadas, como Favorita, Wilson, Shell , etc. A maioria dos jogadores de futebol do Monte eram ao mesmo tempo jogadores de cricket . Quando terminava o campeonato de futebol, entrava-se nos jogos de cricket com Adérito Sena, Eduardo Fula, Blada , Tchesse , Lela de Panante no lado do Mindelense ; Monca, Quida, Djé Griguim na Académica; Olavo, Lulu Barbinha, Djidjé Pafinha e Adolfo Juff no Amarante; Ernesto Medina no Castilho, etc. E falava-se ainda de grandes jogadores de cricket nos Estados Unidos, Brasil e Argentina, como reza o livro do B.Leza – A Razão da Amizade para com a Inglaterra.

Faltou evidentemente uma Federação de Cricket e o apoio do Município para a construção de espaços para a prática do cricket . Depois da Independência, o falecido Adriano Brito, tentou relançar o cricket mas não conseguiu criar as estruturas necessárias para prosseguir a sua missão. Actualmente os filhos do Eduardo Fula, com o apoio do pai, do Jack de Beta e outros carolas, continuam a treinar-se semanalmente no campo de Torrada, mas faltam apoios e acima de tudo uma federação para estender esta actividade aos clubes, às empresas privadas e aos liceus, integrada no curriculum escolar. Essas actividades próprias de São Vicente precisam de federações com sedes próprias em São Vicente, que foi mãe de todas as actividades desportivas em Cabo Verde. O desporto precisa ser repensado em Cabo Verde no quadro da regionalisaçao, com autonomia para as federaçoes: omo alguém já disse, temos uma constituição democrática, mas as estruturas continuam a funcionar num modelo herdado do centralismo do estado leninista que lembra o partido único.
As minhas felicitações ao Brito Semedo, menino de Chã de Cemitério, por nos ter trazido algumas páginas da nossa memória desportiva. Se ele não jogou o cricket no largo do Senhor Afonso, estou certo de que foi um bom campeão de rodiada pau, o nosso base-ball caboverdiano, com muitas topadas e “bebebas”.

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