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 Nha Dona

 

Cada ruga do seu rosto esconde uma mágoa secreta. A dobra das suas costas transporta o peso dos longos e fadigados anos da sua vida. Repetindo um ritual quotidiano, nha[1] Dona prepara a catchupa[2]. Acocorada diante do improvisado fogão, abana as brasas do carvão para alimentar o fogo. A colher de pau repousa entalada entre a tampa e o caldeirão depois de ter dado uma volta ao manjar que fervilha ao lume. A serenidade estampa-se no seu rosto, acentuada por um sorriso cheio de doçura. Em que pensará nha Dona nesse preciso momento? Nas saudades dos filhos embarcados e dos netos que não vê crescer? Ou estará a dar graças a Deus por mais aquela refeição em tempo de seca prolongada?

 

Filomena Araújo Vieira, Paris

 

Esta é uma das muitas figuras que brotam das mãos e do barro de Lurdes Vieira. Ceramista confirmada dá vida ao barro, materializando as recordações da sua infância e do imaginário colectivo de todos aqueles que, como ela, tiveram que deixar as suas ilhas em busca de um outro amanhã.

 

Lurdes Vieira é caboverdiana, nascida há oitenta e quatro anos no Mindelo e criada na Praia. Aos dezassete anos rumou com os pais e irmãos para a terra longe de Angola. Sem saber, com ela levava um tesouro que só veio a dar por ele ao dobrar a esquina das suas sessenta primaveras: as raízes da sua cultura gravadas no mais profundo do seu ser, tais amarras de um navio que não se quer deixar levar ao sabor das correntes marinhas... E é esse tesouro que Lurdes Vieira partilha hoje generosamente numa homenagem à sua terra e às suas gentes.

 

Revelando desde sempre uma sensibilidade para as artes manuais, que preencheram ao longo da sua vida os momentos de lazer da exímia funcionária pública que foi, a artista descobre muito mais tarde a arte de modelar o barro. E tudo aconteceu por acaso: um dia foi a uma olaria comprar material para os seus trabalhos. Cruzou com uma senhora que trazia um tabuleiro cheio de peças em barro para serem cozidas no forno do oleiro. Atraída e deslumbrada com aquelas figurinhas, comprou um pouco de barro para ver “ o que poderia fazer”... Uma nova fase da sua vida iniciava nesse momento com a confecção da sua primeira obra: o busto de um velho, que espantosamente revelou a capacidade artística de Lurdes Vieira no maneio do barro.

 

Colá San Jon

 

A partir daí o trabalho desta matéria preencheu a sua vida aperfeiçoando-se ao longo dos anos, enquanto desenvolvia uma obra que se pode considerar de cariz etnológico. É, na verdade, através do barro modelado, a que insufla o sopro da vida com o sentir próprio da sua arte, que Lurdes Vieira conta o quotidiano do povo caboverdiano, cuja riqueza está na crença de si mesmo, na sua força, coragem e determinação num combate permanente de sobrevivência. E tudo isto transparece na obra da artista. Ao trabalhar o barro, estampa a alegria e a tristeza, a ternura e a força, a determinação e a resignação, o vigor da juventude e peso dos anos nas expressões das suas personagens. Crianças, mulheres e homens enchem-nos o coração de ternura deixando-nos com vontade de conversar com eles por sentirmo-los vivos e tão próximos!

 

É um regalo para os olhos o rosto terno da Mãe crioula amamentando o seu filho ou o Menino bambudo[3] adormecido nas costas da mamãe. Enche-nos de compaixão o Menino triste.

 

Apetece-nos dançar com as mulheres do Batuque[4] enquanto que nos nossos ouvidos ressoam o coro das vozes e o repicar da tchabeta[5]. A Tocatina traz as recordações das serenatas em que a morna é rainha. O Par a dançar a mazurca, rigorosamente trajado à moda antiga, o Par a dançar o funaná[6] e o Par a dançar a morna[7] embalam-nos nos movimentos dos seus corpos. E o tradicional ritual do Cola Sam Jom[8] transporta-nos para a festa graças aos seus mais pequenos detalhes em que não faltam o par de dançarinos, o dançarino com o barco e as conchas de enfeite…

  

Como nos dá vontade de desafiar para uma partida os Jogadores de uril ou brincar com o Menino da bola!

 

Ah! E quem não gostaria de provar a saborosa Catchupa de nha Dona preparada com tanto carinho e com o milho que a Cutchideira[9] pilou logo pela manhã?

 

Quantos corações não baterão perante a beleza serena e a sensualidade da jovem Crioula!

 

E quem não se revê na sua infância diante da Contadeira de estórias ou a receber a Benção da mamãe ou da vovó?

 

Sobe-nos ao nariz o cheiro da Pitada de cancã[10] e da Mulher grande fumando o seu canhoto[11]

 

A vendedeira de atum traz a nostalgia do pregão «Atum, atum!».

 

Apetece-nos dar uma mãozinha ao Homem da enxada que de sol a sol luta pelo seu pão contra o chão ingrato e a chuva ausente...

 

E quem não se reconhece naquela família repleta de filhos Escadas que Deus dá em que os mais velhos ajudam a criar os mais novos?

 

Não ficamos insensíveis à cumplicidade do Velho casal, fruto de um longo percurso nem sempre ameno. E nas rugas do Homem das ilhas, o velho badio[12], lemos a vida árdua do seu povo.

 

São estas algumas das peças da obra de Lurdes Vieira. Cada peça é uma homenagem aos pilares de toda uma sociedade: à mãe, à mulher, à família, às tradições e lutas pela vida... E de peça em peça vai contando o viver do seu povo.

 

Par de Dançarinos

 

São cenas da vida que a ceramista retrata e imortaliza nestas figuras, sob o olhar cúmplice de Cláudio Vieira, seu companheiro de há quase seis décadas. Cenas da sua meninice, certamente algumas já desaparecidas das tradições de hoje, mas que pertencem a um imaginário colectivo e ao património cultural de toda uma Nação. Cenas que, tal como ela, gerações de cabo-verdianos emigrados levaram consigo e transmitiram aos seus filhos e com elas as referências culturais das suas raízes. E Lurdes Vieira soube conservá-las intactas na sua memória, enquanto amadurecia em si essa arte de dar vida ao barro.

 

São formas, cores e expressões que brotam espontânea e naturalmente das mãos desta incontornável figura das artes cabo-verdianas que tem como uma das suas principais qualidades a humildade dos grandes seres.

 

 

 _____________

Maria de Lourdes Figueiredo Araújo Vieira, nasceu no Mindelo, S. Vicente, em 1924.  

 

Fez os estudos primários na Praia e o liceu no Mindelo, em S. Vicente.  

 

Em 1942, viajou com os pais e irmãos para Angola, onde durante 25 anos foi funcionária dos Serviços de Economia e de Estatística, antes de se aposentar. 

 

Em 1975, deixa este país estabelece-se em Portugal onde reside até à data. 

 

Autodidacta, começou a trabalhar em cerâmica em 1985. Tem participado em inúmeras exposições colectivas em Portugal, Suiça, Itália e Bélgica e realizou 6 exposições individuais, três em Portugal e três em Cabo Verde.  

 

As suas peças estão espalhadas por vários países, sendo algumas delas em colecções particulares.     

 


[1] Senhora, dona.

[2] Prato tipo e emblemático de Cabo Verde, preparado à base de milho, feijões, carnes (ou peixe), mandioca, batata doce, banana verde.

[3] Às costas.

[4] Dança, canto e música ritmada por uma cadência marcada por batidas com as mãos em rodilhas feitas com tecidos, interpretados por mulheres.

[5] Ritmo do batuque.

[6] Música e dança tradicional de Santiago, acompanhadas com ferro e gaita e mais recentemente com acordeão.

[7] Música típica de Cabo Verde cantada com um acompanhamento de violino, viola e cavaquinho.

[8] Ritual das festas juninas das ilhas do Barlavento.

[9] Mulher que pila o milho.

[10] Rapé.

[11] Cachimbo.

[12] Natural da ilha de Santiago.

 

 

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7 comentários

De Valdemar Pereira a 18.08.2011 às 06:43


"A arte é bela quando as mãos, a cabeça e o coração trabalham juntos" (J.Ruskin - 1866)

Mesmo se a vida é efêmera, a arte é eterna, nomeadamente quando o(a) artista sai tudo que tem na sua alma para corrigir a Natureza assinando um contrato de longevidade.

Tendo "começado tarde" (nunca é tarde para bem fazer), de certo não se enriqueceu materialmente. Aliás, "o amor à arte nunca enriqueceu ninguém" e dando vida ao barro, a minha Prima enriqueceu a sua alma e enriqueceu o Mundo.

Longa Vida, Artista, e que das suas mãos nasçam muitos mais "meninos de barro"

De tchale a 18.08.2011 às 12:02


Belo texto, belo Vídeo e as obras em cerâmica da senhora Lurdes, esta jovem de 84 anos, de facto, são pedaços da nossa memória colectiva, como diz Mena no seu texto. Soube que ela começou a modelar o barro com 60 anos: Eis mais uma prova que, a velhice não são rugas na cara, mas sim quanto começamos a ter rugas no coração. Parabens dona Lourdes, parabens Mena e ao Brito Semedo.

Um grande abraço.

Tchal^Figueira

De Adriano Miranda Lima a 18.08.2011 às 22:35

O meu amigo Luiz, através de um mail, “mandou-me um escrepa” ao perguntar-me por onde eu andava que ainda não tinha comentado este belíssimo texto e seus “spots”. A “escrepa” é sinal de que me tornei um assíduo frequentador deste blogue. Mas também prova de que o Luiz me tem na conta de um fiel companheiro destas lides cibernéticas, que vezes sem conta nos uniram em torno das nossas convicções sobre o que é o melhor para a nossa terra. Pois bem, Luiz, a ausência, não sei se longa, acho que não, deveu-se ao facto de a silly season não nos permitir um pouso certo nesta altura, quais libelinhas em voo frenético à volta das flores. Acabei de chegar da Sertã, aonde me desloquei em visita a um familiar.


 


Respondi ao mail que recebi da Filomena com o vídeo, dando-lhe conta da surpresa e apreço com que fiquei a conhecer a arte da sua mãe. E não é caso para menos. Surpresa porque não conhecia ainda a grande ceramista, culpa de que não me eximo, já que é exclusivamente minha. Apreço que se traduz num sentimento que não poderia ser mais genuíno: comoção, pura e simples. Sim, de facto só quem tem coração de pedra não se comove com a humanidade expressa com tanta autenticidade nas criações da dona Maria de Lourdes Vieira.


Pelos exemplares que nos são presentes, vê-se que a obra da artista abrange um amplo leque de expressão etnográfica, que dispensa palavras para descrever os usos, costumes e rituais do nosso povo, desnudando a sua alma. Não se limita a uma única ilha (leia-se, Santiago), como é hoje tendência na nossa terra. Isso demonstra a visão larga e abrangente que a artista teve e tem do seu povo, que na diversidade só pode colher motivo de regozijo e engrandecimento, ao invés de paroquialismos retrógrados e bairrismos patetas.


Por tudo isto, peço à Filomena que transmita à sua mãe as minhas felicitações e os meus agradecimentos de conterrâneo orgulhoso. Não posso jurar, mas acho que já vi a senhora em pessoa, provavelmente num dos eventos da comunidade cabo-verdiana residente em Lisboa (na Associação de Antigos Alunos ou em homenagem a alguém).


 

De Filomena Araújo Vieira a 20.08.2011 às 12:04

Agradeço, em nome da minha mãe a quem informei desta publicação, os comentários e as felicitações aqui postados.


Os seus trabalhos são realmente pedaços de vida. Infelizmente, essa forma de expressão artística não foi herdada por nenhuma das filhas... Ou será que ainda vamos a tempo de nos lançarmos nessa arte, atendendo a que ela nas nossas idades nunca pensara em enveredar por esse caminho?


Aqui fica também o meu obrigada sincero a todos e em particular ao Manuel Brito Semedo por ter tido a iniciativa de trazer a minha mãe à Esquina do Tempo.


Um abraço a todos.

De welcometothebabylonsystem a 23.08.2011 às 12:57


desde já felicito ao Brito Semedo pelo seu blog, que alias diga-se de passagem rico em conteudo , excelente. valorizando principalmente a cultura cabo verdiana , cabo verde.
Apresentou-me Samira Silva , jornalista do A NACAO , gostaria imensamente de fazer um especial reportagem com a   Maria de Lourdes Figueiredo Araújo Vieira.
 
pelo seu excelente trabalho com o barro , desde do momento que vi e li atraves deste blog fiquei super interessado em mostrar aos cabo verdianos e o mundo a sua sensibilidade para as artes manuais.
 aguardo ansiosa um feedback

De Filomena Araújo Vieira a 24.08.2011 às 06:25

Agradeço à jornalista Samira Silva que me contacte através do endereço: filomenavieira56@gmail.com para vermos a questão da reportagem sobre Lourdes Vieira.

De José Lopes a 17.07.2013 às 19:21

Eu não conhecia a Dª Maria de Lourdes Vieira mãe da amiga e companheira Filomena Vieira mas tínhamos aqui uma grande  artista, como deve haver muitos que ainda hoje estão por descobrir. Que esta obra seja exposta e valorizada são os meus votos.
Mais uma vez apresento à família enluta os meus sentidos pêsames

José Fortes Lopes
 

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