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O Boletim Oficial de Cabo Verde

Brito-Semedo, 23 Ago 12

 

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A primeira tipografia foi trazida para Cabo Verde em 1842, tendo começado a funcionar nesse mesmo ano a Imprensa Nacional de Cabo-Verde e Guiné. A introdução da imprensa no arquipélago, tal como nas outras províncias ultramarinas, foi uma consequência do Decreto de 7 de Dezembro de 1836, do ministro da Marinha e do Ultramar, Marquês Sá da Bandeira, que mandava publicar boletins oficiais nas províncias ultramarinas para o que era, portanto, necessário tipógrafos locais ou idos da Metrópole (José Gonçalves, 1966). À excepção do Estado da Índia (1837), a tipografia só foi instalada nos outros territórios ultramarinos depois de Cabo Verde: Luanda, em 1845; Macau e Timor, em 1846; Ilha de Moçambique, em 1854; S. Tomé, em 1857; e Bolama (Guiné), em 1879 (Silva Pereira, 1895).

 

O advento da imprensa periódica em Cabo Verde é assinalado com a publicação, na ilha da Boa Vista[1], do número I do Boletim Official do Governo Geral de Cabo-Verde, posto a circular na quarta-feira, 24 de Agosto de 1842, sendo então Governador Geral o Brigadeiro Francisco de Paula Bastos (1842-1845). Na "Parte não Official" (p. 4) do Boletim podiam ler-se as seguintes palavras:

 

“Raiou felizmente para esta Provincia uma nova era de ilustração; o Governo de SUA MAGESTADE sempre sollicito pelo bem dos subditos da mesma Augusta Senhora [Rainha D. Maria II] não podia por mais tempo consentir que continuasse a ignorancia, em que o povo de Cabo-Verde se achava engolfado. Já agora temos entre nós a Imprensa, este grande vehiculo das luzes e da sciencia; [...] parabens, pois, ó Cabo-Verdianos! Livres pela civilização dos nossos irmãos da Europa, vós ides dever a vossa civilização á Liberdade, que a não ser ella, ainda hoje se não teriam rasgado as densas nuvens do obscurantismo que ennegreciam esta Provincia”.

 

Este boletim oficial viria a servir a Província de Cabo Verde e o Distrito da Guiné até 1879, ficando, a partir dessa data, em virtude da desanexação daquela região do governo de Cabo Verde[2], exclusivamente ao serviço do Arquipélago, com o nome de Boletim Official do Governo da Província de Cabo-Verde.

 

Apesar de todos os constrangimentos, estavam criadas as condições para o surgimento da imprensa não oficial em Cabo Verde: (i) havia a tipografia, (ii) um público leitor com uma certa instrução e (iii) uma elite letrada e culta, capaz de escrever para jornais e revistas, se os houvesse. Contudo, por razões que não foi possível identificar, o aparecimento de jornais não oficiais só viria a acontecer trinta e cinco anos mais tarde, em 1877.

 

Inicialmente e na falta de um periódico não oficial publicado nas Ilhas, os primeiros poetas e prosadores cabo-verdianos começaram a exprimir-se através do Boletim Official – secção Interior, “Parte não Official”, que incluía notícias diversas, anúncios particulares, crónicas, poesia e ficção, esta, em forma de folhetim – e, mais tarde, passaram a expressar-se através do anuário Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932). José Lopes, em 1952 explica o porquê disso: “nós não tínhamos onde publicar nossas produções senão naquele festejado anuário”[3].

 

Num dos seus apontamentos sobre a frequência da Biblioteca Nacional, fundada na Praia em 1871, Guilherme Dantas escrevia o seguinte:

 

“De todas as possessões portuguesas, duma certa classe, é Cabo Verde a única que ainda não possui uma publicação literária e periódica [...]. O Boletim, pelo exíguo do seu formato, pela sua mesma índole, não comporta nem longos e sucessivos artigos, nem dissertações sobre todas as matérias, nem artigos de recreio para o público, tais como romances, folhetins, etc. Ora, tudo isto se poderia reunir numa publicaçãozinha mensal”[4].

 

Efectivamente, em Moçambique tinham sido editados nove jornais: O Baluarte (1860) O Progresso (1868), A Imprensa (1870), A Verdade (1871), Noticiario de Moçambique (1872), Jornal de Moçambique (1873), África Oriental (1876) e O Africano (1877); em Angola três: Commercio de Loanda (1867), O Cruzeiro do Sul (1873) e Correspondencia de Angola (1875); e em São Tomé e Príncipe, um: O Equador (1869) (Silva Pereira, 1897), pelo que Hypolito Olympio da Costa (18??-1920?) lamentava, em artigo publicado em 1871 no Boletim Official: “E esta provincia sem imprensa política ainda que a inunde de sua luz civilizadora!”[5]

 

Finalmente, a 1 de Outubro de 1877, um ano antes do fim oficial da escravatura, aparece na Cidade da Praia o Independente (1877-1889)[6], “jornal politico litterario e commercial, dedicado aos interesses da provincia de Cabo Verde”, que teria sido fundado por Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 1849-1888) e Joaquim Maria Augusto Barreto (Brava, 1854-1878). Do primeiro, João Martins (1891) diz que escreveu “artigos com que fulminou [...] tantos preconceitos, tantos ridiculos e tantas ostentações”; e ao último, refere-se como “este valente manejador da satyra” (op. cit., p. 228).

 

Brito-Semedo, in A Construção da Identidade Nacional – Análise da Imprensa Entre 1877-1975, Praia, 2006

 

[1] O Boletim Official foi publicado até ao número 32, ora na Boa Vista, ora na Praia, chegando mesmo a ser publicado na Brava, conforme o local de residência do Governador, antes de regressar definitivamente à capital da Província, em 1855. Recorda-se que o B. O. só não foi publicado de 31 de Agosto a 21 de Dezembro de 1842 e de 26 de Junho de 1847 a 17 de Junho de 1848, senão uma vez, por motivo de doença do compositor, que era ao mesmo tempo o impressor.

[2] A desanexação do Distrito da Guiné da Província de Cabo Verde foi feita pela Carta de Lei de 18 de Março de 1879, na sequência da guerra e do desastre de Bolor ocorrida a 30 de Dezembro de 1878. Nesse "desastre" foram chacinados, nas águas do Rio Bolor (Guiné), cinquenta e um soldados de Cabo Verde e dois oficiais de Goa, praticamente indefesos. Na sequência disso, o governo de Lisboa decidiu assumir o controle directo da Guiné e, por Carta de Lei de 18 de Março de 1879, o antigo distrito foi elevado à categoria de província, desligando-se da sua antiga tutela. Para uma descrição mais pormenorizada da derrota do rio Bolor, ver Senna Barcellos, 1912, pp. 295-300.

[3] José Lopes, "Os Esquecidos", Cabo Verde Boletim de Propaganda e Informação, N.º 35, Praia, Agosto de 1952.

[4] Guilherme Dantas citado por Félix Monteiro in "A Imprensa em Cabo Verde", Comunicação apresentada no Simpósio sobre Cultura e Literatura Cabo-verdiana, por ocasião do 50.º aniversário da revista Claridade, S. Vicente, Novembro de 1986, p. 4.

[5] Hypolito Olympio da Costa Andrade, "Instituição da Imprensa Politica N'esta Provincia", B. O., N.º 46, Praia, 18 de Novembro de 1871.

[6] Segundo informações de Silva Pereira, in O Jornalismo Portuguez: Resenha chronologica de todos os periodicos portuguezes impressos e publicados no reino e no estrangeiro, desde o meiado do século XVII até á morte do saudoso Rei Senhor D. Luís I; bem como de jornaes em língua estrangeira publicados em Portugal durante o mesmo tempo, Lisboa, 1895, o jornal Independente ainda em 1889 continuava a ser publicado. Existe na Biblioteca Nacional de Lisboa um único número deste periódico, aliás, o “Suplemento” ao N.º 37, Praia, 17 de Setembro de 1978, disponível apenas em microfilme, dado o seu estado avançado de deterioração.

 

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1 comentário

De João Sá a 26.08.2011 às 16:06


Boa tarde e desde já os meus votos de um bom fim de semana :)
Este post, insteressantíssimo do ponto de vista histórico e cultural, está em destaque "Na Rede" na homepage do SAPO Cabo Verde.

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