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Numa Esquina de Fonte Cónego

Brito-Semedo, 29 Ago 11

Foto Arquivo Histórico Nacional (IAHN), Praia

 

O título deste Blogue, “Esquina do Tempo”, faz-me recordar as esquinas dos tempos da minha meninice e logo vou inevitavelmente parar à zona onde vivi, a partir dos 7 anos, até sair de Cabo Verde – Fonte Cónego, exceptuando um interregno de 2 anos em que morei na rua de Serra, perto do liceu Gil Eanes.

 

Adriano Miranda Lima, Portugal

 

Havia em Fonte Cónego uma esquina que funcionava, sobretudo ao cair da noite e até à hora decente de recolher ao leito, como ponto de animado encontro de grupos de rapazes que se constituíam em função das idades, excluídas outras afinidades, mas que se aglutinavam quando era para ouvir as inocentes histórias de gongon e do ti lobo e canilinha ou o relato dos últimos filmes exibidos no Eden Park e no cinema do Tuta.

 

Entre os mais entusiastas do espectáculo cinéfilo, destacava-se o “Moraizinho”, filho do nhô Caquim Morais e irmão, mais velho, do Djene Morais, ex-funcionário do Telégrafo Inglês e mais tarde da Shell. Ora, o Moraizinho era o sheriff que impunha toda a sua autoridade, por vezes com certa jactância, e tutelava todas as conversas, inspirando um certo temor aos mais novinhos, como eu. Ele seria pelo menos uns 8 anos mais velho que os do grupo mais jovem. O Moraizinho tinha na massa do sangue o culto do cinema e os western eram a sua perdição, a ponto de o seu quotidiano sofrer uma influência mimética do que absorvia na tela. Ouvíamo-lo com reverencial atenção contar as peripécias dos duelos de pistola ou de pugilismo entre os sports e os bandidos e descrever a tensão que pairava nos saloons no prelúdio do afrontamento entre o herói e o vilão. Foi principalmente pela sua boca que ouvi pela primeira vez os nomes de actores como Gary Cooper, Jonh Wayne, Alan Ladd, Randolph Scott, Joel McCrea, Errol Flynn e tantos outros, e de tal modo era a sua eloquência que nos inoculava o bichinho do cinema e similar predilecção pelos filmes de cowboys.

 

Tinha eu os meus 8 ou 9 anos quando, com alguma frequência, ele organizava os jogos de “mãos ao ar”, stick out ou hands up, como então se dizia. Mas, nós, os mais novinhos aí não entrávamos nem metíamos o bedelho, limitando-nos a assistir, entusiasmados com o empolgamento das cenas protagonizadas pelos juniores, que não raro aprisionavam e amarravam bem firme um ou outro chefe de “bandido” dos grupos adversários e deixando-o abandonado no mais esconso daquelas rochas sobranceiras ao Alto Selarino. Ocasiões até houve em que os jogos se transferiram lá para uns arrabaldes mais solitários e mais condizentes com os cenários desérticos do Arizona, só faltando os cactos, e nessas alturas entrava mesmo em cena uma bela mula do pai do Moraizinho, que este montava assumindo todo altaneiro o seu papel de sport. Mas claro que não nos limitávamos a ser passivos espectadores do desempenho dos mais velhos. Criávamos, dias depois, os nossos próprios jogos de “stick out”, com as mesmas regras que pautavam os dos juniores mas com a intensidade e duração compatíveis com o escalão juvenil, digamos assim em alusão à hierarquia organizativa do futebol.

 

Enfim, o jovem Moraizinho é uma recordação imperecível no espírito de todos os meninos que o conheceram e que com ele privaram, embora neste caso mais como espectadores silenciosos do que como verdadeiros comparsas, porque ele só dava confiança aos mais próximos dele em idade.

 

Emigrou para o Brasil e nunca mais o vi. Figura destacada no meu imaginário infantil, nunca o esqueci e muito gostaria de um dia o reencontrar e abraçar para recordarmos os tempos do farwest de Fonte Cónego.

 

Tenho bem viva a memória de todos os nossos vizinhos daquele tempo, que integravam uma comunidade em que todos se relacionavam com simpatia, afecto e espírito de solidariedade. Menciono os já citados Morais, a família Teixeira (nhô Djandjam, compadre do meu pai), a família Vitória (nha Matilde e seus filhos Daniel, Fininha, Titú e Jorge), a Família Dias (nhô José Dias, presidente do Castilho), a família Gamboa Matos, a família Almeida (José Almeida, mulher Quinha e filhos), a família Silva (enfermeiro nhô Manuel de Mexô), a família Vera Cruz Pinto (o velho nhô Moxim Pinto), a família Marques (um dos sócios do Eden Park), nhô Adão Almeida, o nhô Jom Teca, o nhô Djindja (electricista), o nhô Cabo, o nhô Batcha, dono de uma loja numa pequena elevação de terreno hoje irreconhecível, o nhô Vasco Fonseca, a família Santiago Gomes (nha Ilda e filhos), o pastor protestante Manuel Ramos e família, etc. É claro que cito principalmente apenas os nomes dos chefes de família, pois seria por demais exaustivo incluir todos os membros dos agregados, de que, aliás, me recordo muito bem.

 

Mas também é impossível esquecer a Pantchola, mulher típica do povo que vinha de fora, não sei de onde, e se instalava numa outra esquina com uma venda de rebuçados e sucrinha. Do mesmo modo, guardo na memória a velha e muito volumosa nha Maria Paulina, que tinha uma lojinha de pão (pão de trigo, de trança, de milho, pão doce e barão) situada no outro vértice da esquina ocupada pela Pantchóla, lojinha no interior da qual estava pendurado o retrato do seu fidje mótche com boné de marinheiro, embarcado diazá para terralonge, mas que nunca por lá apareceu. Ah, lembro-me muito bem de uma rapariga simpática e trigueira que vinha do alto do Selarino com uma bilha do leite que vendia pelas casas todas.

 

Dos membros dessas famílias, os mais próximos do Moraizinho para as cowboyadas eram, pela idade, o Jorge Vitória (já falecido), o Jorge Ohnet, o Manuel Dias (já falecido), o Xisto Silva, o Ney Gamboa Matos, o Elísio e o Armindo (emigrados pouco tempo depois com a mãe para a Argentina, um deles já falecido), o Zeca da nha Elisa, o Malaquias de Jom teca, o Jorge Fonseca, entre outros. Do meu grupo de futeboladas e de imitação das cowboyadas dos mais velhos faziam parte os filhos do Djandjam, isto é, o Djibito, porque o Oldegar, mais velho, tendia para o Moraizinho, o Nelson Santiago Gomes, os filhos do nhô Cabo, Feliciano e Humberto (ambos já falecidos), os filhos mais novos de nhô Jom Teca, Djosa e Basílio (um deles já falecido), o filho mais novo de nhô Batcha, Tony (creio que já falecido), o Carlos de nha Neza, o Arlindo (Jimba), neto de nhô Manuel Enfermeiro, o Carlos Almeida, que ainda vive na zona, etc.

 

Porto Grande do Mindelo, anos 40. Foto do Arquivo de Djô Martins

 

Regressei ao lugar em 2002, quase 40 anos depois da minha saída. Percebi que só por mero acaso poderia lá encontrar-se ainda uma ou outra das pessoas da antiga vizinhança. Mas logo soube que o Arlindo (Jimba), antigo companherinho, ainda lá vivia, e por sinal na mesma casa de outrora, ou seja, a dos avós, assim como os filhos do nhô José Almeida, tendo mesmo encontrado o mais velho, o Luís, que faleceria anos depois. Também fui informado de que o pastor Manuel Ramos ainda lá vivia e na mesma casa, facto que me sensibilizou porque ele era, na zona, o único sobrevivente da geração do meu pai. Quase todos os outros a lei do tempo os levara na sua inexorável voragem. Outro sobrevivente que eu reencontrei foi nha Alice, viúva do nhô Djandjam, mas a viver em outro lugar na companhia da sua filha Tula.

 

Pois bem, fiz tenção de visitar o Jimba, aliás retribuindo a visita que me fizera à minha chegada a S. Vicente. E logo de seguida resolvi ir à casa do pastor Ramos cunquir-lhe à porta, tendo-me recebido muito simpaticamente mas já não se recordando de mim e da minha família, porque a avançada idade pareceu-me que já lhe tinha apagado certa memória. E no entanto, à minha saída, veio à porta, amparado na sua bengala, despedir-se de mim, sem deixar de me aconselhar cautela no regresso a casa porque a noite tinha acabado de cair, dizendo-me que “os tempos já não eram como antigamente”. Em boa hora, decidi ir visitar o velho pastor Ramos, porque poucos anos depois ele viria a falecer, tendo eu então escrito um texto evocando a sua acção pastoral no lugar em que vivíamos.

 

Ao revisitar a zona das minhas vivências de menino e moço, onde dei pontapés em bolas de trapo num largo em que a calçada já tinha substituído o piso térreo, senti o poema que redigi nessa mesma noite, madrugada dentro, e que aqui vos deixo como expressão de um sentimento que sobrevive a todas as metamorfoses da vida, dos tempos e dos lugares. Nem as dificuldades e as incertezas que de um modo geral marcaram os tempos mais recuados das nossas vidas conseguem toldar o recinto onde se resguarda o que de puro, belo e mágico sublima a memória das nossas infâncias.

 

Enfim, eis o poema…

 

(À memória da infância vivida em Fonte Cónego)

 

REVISITANDO FONTE CÓNEGO

 

Presa na memória, a bola de trapos

Vai e vem, com simulacros de pêndulo,

Em movimento errático e mofino,

Na esteira das balizas que se perderam

Com a geometria progressiva das ruas.

Ressalta na parede da velha esquina,

De cal nostalgicamente poluída,

Onde ficaram para sempre estampadas

As travessuras dos meninos de outrora.

Mas já sem o afago da antiga poeira chã,

A bola desvia-se e, sem cerimónias,

Saltita para as casas da vizinhança,

Acordando recordações adormecidas

E emolduradas nas paredes domésticas

Entre a penumbra e o silêncio.

Surpreende olhos atrás das persianas,

Pasmados com o rosto enigmático do dia,

Que hoje parece mascarado de fantasia,

Fazendo lembrar sonhos que o tempo deliu.

Surge o sol inclemente do meio-dia,

A hora dilecta do temido minguarda,

E calaram-se as vendedeiras de rua

E os cães irrequietos presos nos quintais.

E a bola de trapos seguiu o seu destino,

Costurada com farrapos de ilusão.

 

S. Vicente, Julho de 2002

 

 

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13 comentários

De Djack a 29.08.2011 às 18:38

Excelente, excelente, excelente! Outras palavras são desnecessárias.
Prosas como esta merecem publicação em papel.

Grande braça
Djack

De Valdemar Pereira a 29.08.2011 às 18:52


Já me preparava para corroborar esta agradável relato, contado Adriano nos desertos imaginários de Fonte Cónego e Alto de Selarine porque se o contador viveu essas cowboiadas eu conheci quase toda essa gente que enriquece o enredo. Se de algumas caras já não me lembro, do Moraisinho recordo-me muito bem por termos sido vizinhos no Lameirão.

De Fonte Cónego nunca hei-de esquecer pois foi onde fiz a Primeira Classe (1940) com o Sr. Eurico Teixeira que viria a ser o meu professor no Curso de Admissão aos Liceus. Deste professor, muito podia contar, nomeadamente dois episódios que nunca esqueci. Talvez outro dia.

Mais venho essencialmente para dizer ao Adriano que, segundo me disseram em Setembro de 2010, o seu "figaro" ainda vivia. Ele trabalhava no lado oposto à barbearia do Djony, onde trabalhavam também o grande Nhô Antone Tchitche como seu ajudante Tchota.

Djony, além de guarda-redes para a festa de Nhô Balta, era boxer e... tocador de rabeca. Mas quem tocava mesmo o violino era Nhô Tchitche, não fosse ele da Boavista.

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 31.12.2011 às 11:14

Oh " Colega de escola " apos teres relembrado da tua 1° Classe em 1940 devias fazer um salto até a "nossa 4° Clase " relembrando a nossa professora Dona Assunçao e da escola Camoes !..Nesta ESQUINA DO TEMPO hà espaço para relembrarmos ,os bons tempos passados e que nos permite reviver a nossa juventude ,a valiosa tradiçao de Cabo Verde ,particularmente as velhas esquinas de Saocente em que cada uma delas deixaram uma historia para ser relembrada neste BLOG !..Obrigado Semedo por esta magnifica ideia . Boas Festas e Feliz Ano Novo para todos !..Votos d'Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

De Djack a 29.08.2011 às 19:38

"Notícias do Norte"
19.Julho.2011

Fonte Cónego já não é mesmo o que era (título meu)

Um grupo de adolescentes decidiu esconder-se nas imediações da rotunda de Fonte Cónego para apedrejar as pessoas que circulam naquela área. Houve indivíduos que foram atingidos com pedras e estilhaços de garrafas arremessados pelos adolescentes encapuçados.

Os primeiros ataques por parte destes adolescentes aconteceram na quinta-feira de acordo com um morador que assistiu ao apedrejamento da janela da sua residência. Os adolescentes estavam escondidos ao lado do Bar Santo António e assim que se aperceberam que por ali passavam dois jovens perpetraram o ataque. O morador de Fonte Cónego acrescenta que "ouvi gritos e fui a janela do meu quarto, pois pensei que tratava de um caçubodi. Porém vi cinco adolescentes encapuçados com pedras nas mãos e logo de seguida vi uma chuva de pedras contra um rapaz e uma rapariga que seguiam em direcção a Rua da Rádio Nova. Vi que uma das pedras acertou nas costas do rapaz, mas os dois jovens limitaram-se a correr aos gritos". Contudo o grupo não continuou o ataque, pois para este morador o plano passa pelo apedrejamento de quem passa naquela área e logo de seguida fugirem em direcção a zona de fonte Felipe.

Na madrugada de sábado o grupo voltou a carga e despejaram pedras e garrafas contra seis jovens moradores em Alto Sentina. Eram três horas da manhã quando o grupo composto por dois rapazes e quatro raparigas passaram pela Rotunda de Fonte Cónego. Uma das raparigas atingidas pelos estilhaços de uma garrafa explica como aconteceu o ataque "fomos dançar na Discoteca Caravela para marcar o inicio do verão. No regresso para casa passamos pela Rotunda de Fonte Cónego que até então não tinha sinal de ninguém na rua. Mas de repente apareceu um grupo de rapazes com capuchos vindo detrás de uma árvore que nos atiraram pedras e garrafas sem mais nem menos. Nós ficamos assustados e a nossa reacção foi correr e no momento que baixei para tirar o meu sapato uma garrafa partiu-se na minha frente e os estilhaços feriram a minha perna direita."

Na madrugada de sexta-feira quatro alunos da Universidade Lusófona passaram pela mesma situação, mas de forma diferente, visto que pensaram tratar-se de uma guerra de gangs. “Num curto espaço de tempo apareceu um grupo de mulheres e homens que passaram por nós a correr e logo de seguida virei a cara e vi outros com pedras e garrafas atirando contra o grupo que passou por nós”- explica uma aluna

Parece que surgiu, na zona de Fonte Cónego, uma nova forma de criminalidade aliada a delinquência juvenil. Pois se antes aquela zona era tida com zona atractiva para os caçubodistas. Hoje um grupo de menores decidiu esconder-se atrás de árvores ou em áreas de fraca iluminação para apedrejar quem passa nas imediações da rotunda.

De Z.Figueira a 29.08.2011 às 19:46

Caro Adriano, Achei a tua crónica excelente e como bem o demonstras todos nós fizemos parte da "Cultura Éden Park ". O cinema e as suas influencias contribuiram a moldar a nossa juventude e muitos de nós
bem gostavamos de brincar aquele "stick out ou hands up " passando
por Sports de Cinema". O caso do Moraizim que sofreu a influencia da indumentária Don Artur Di Bordega do filme Zorro, lá andava passeando
pelas áreas da Pracinha do Liceu , Praça Nova etc., com seu colete, botas
e chapeu de "cow boy".Independentemente desta consideração achei também interessante a descrição daquele "modus vivendi" de outrora
dos nossos medos de canilinha e gongon de crianças... Força! Continua porque queremos mais do género.Aquele robusto e fraterno abraço do sempre fixe Zizim Figueira

De Luiz Silva a 29.08.2011 às 20:34

Um texto excelente pontuado de recordaçoes de infância aos quais nos sentimos ligados. As viagens no tempo, as mais produtivas, nos fazem sofrer.  Relembar esses aspectos da vida quotidiana nos facilita a reescrita da nossa historia, com toda a sua modestia e dignidade. Mas sera' que lembras daquele poço no campo da Fontinha onde fomos com o Tchida e outros colegas da escola dos Senhores Alfredo e Julinho Teixeira  se banhar e que sem a corda que uma mulherzinha trazia passada num balde ias ficar dentro do poço? Ainda da ultima vez que encontrei com o malogrado Tchida, nos relembramos desse acontecimentos.

De Adriano Miranda Lima a 29.08.2011 às 23:30

Pronto, Luiz, tenho de contar essa do poço, embora seja um episódio mais apropriado a um filme de pirata do Errol Flynn do que a um western.
Tínhamos 11 anos e estávamos na admissão ao liceu, frequentando a escola do Ti Fefa e Julinho na rua do Jacó. Era eu, tu, o Tchida, um rapaz bem mais velho que se chamava António Maria, e outros mais de que já não me recordo. Seríamos talvez uns 8 ou 10 naquele momento e naquele lugar.
Nessa altura, eu ainda não sabia nadar com todo o desembaraço e desenvoltura, mas já flutuava e dava umas braçadinhas. Tudo aprendido à sorrelfa e em escapadelas que dava sem que a minha mãezinha se apercebesse, porque ela não consentiria que eu fosse sozinho nadar. Digamos que eu aproveitava principalmente as idas à escola. Tinha aprendido alguma coisa com o meu pai, quando me levava à Cova da Inglesa, mas tendo saído de Cabo Verde no ano anterior acabaram as aulas assistidas.
Um belo dia, aproveitando o fim antecipado das aulas (deve ter faltado um dos mestres), fomos ao campo de futebol da Fontinha fogar futebol num recinto adjacente ao rectángulo. Depois do jogo, alguém se lembrou do poço refrescante ali mesmo a desafiar-nos. Roupa fora dos corpinhos, os mais atrevidos e dextros na natação atiram-se para dentro do poço. Este era daqueles que tinham água a uns 2 metros da abertura, possuindo uns degraus de ferro. Já não me lembro se o Luiz foi dos que de rompante logo se atiraram. O Tchida, acho que foi. Fiquei hesitante, sem saber se as minhas aptidões já seriam suficientes para tal desafio. Às tantas, atirei-me mesmo. Só que tudo aquilo era muito diferente da praia, em que se entra e se caminha progressivamente para dentro. Como caí de pé, fui ao fundo e, apanhado de surpresa, não consegui aplicar correctamente o que aprendera no mar. Comecei a engolir água e a coisa estava feia até que apareceu uma rapariga com um balde para recolher água. Foi a minha salvação, porque, por mais que o tentasse, não conseguia agarrar o degrau da escada de ferro que os colegas aflitivamente me indicavam. Vi o balde cair e não tive dificuldade em segurá-lo e ser içado são e salvo para o exterior.
Acreditem ou não, ainda tenho na memória a fisionomia da rapariga que me salvou com o seu balde. De uns 18 ou 20 anos, morena escura e com o cabelo em duas tranças. Nunca mais voltei a vê-la, mas a verdade é que não me esqueci dela.
Durante muitos dias, andei numa grande aflição com receio de que a minha mãe viesse a saber. De facto, acabou por saber, não sei através de quem, mas só muitos meses depois.
E foi isto, não foi, Luiz? Livre arbítrio e  determinismo são crenças doutrinárias que tentam explicar o curso da nossa existência. Acredito que tudo é obra do acaso, incluindo a origem da própria vida neste planeta. Se essa rapariga não tivesse aparecido naquele preciso momento naquele poço munido do seu balde, eu teria desaparecido da existência aos 11 anos de idade. E não existiriam as minhas duas filhas e os meus dois netos. Esta é que é esta. Quem quiser que replique com outro argumento filosófico sobre a existência.

De Luiz Silva a 30.08.2011 às 08:25

Maravilhoso Didi.  Eu também nunca  pude  afastar  da minha memoria esse historico acontecimento da nossa infância. E creio que  aquele momento de afliçao que juntos vivemos nos marcou para sempre. Paz ao Tchida d'Emilia, nosso bom companheiro de infância...

De Valdemar Pereira a 30.08.2011 às 09:07


Vejo que o meu primo Alcides andou metido nessa brincadeira que podia ser fatal não tivesse aparecido a menina com a corda.
Imaginem as sovas que iam apanhar no escola e em casa pela "mufneza" que fizeram e que vos maracaria pela vida. Eu nem queria ver a fùria do Julim e do sr. Alfredo, que eram pelo castigo corporal para remediar tudo.
Dizem agora que não é pedagôgico mas não encontraram qualquer solução para parar a criação de pequenos monstros.
Se não estou em êrro, o sistema ainda persiste em certos colégios na Inglaterra onde os alunos preferem o "to pay cash", quer dizer (lote na polpa!!!)

De Adriano Miranda Lima a 30.08.2011 às 12:28


Eu só me livrei de uma sovinha em casa porque a minha mãezinha só soube do ocorrido muito tempo depois. Caso contrário, eu teria apanhado umas rebencadas de palmatória com uma escova de fato, como ela preferia. Mas bem sei o que ouvi de reprimenda da boca dela, tendo-me sentido, a partir dali, com as rédeas menos soltas.
Quanto ao Ti Fefa e ao Julim, eles, de facto, aplicavam umas chibatadas  nas pernas, mas, que eu me lembre, mais o Julinho que o seu colega mais velho. O Julim só uma vez me deu com a chibata nas pernas e mesmo assim ao de leve. Estava no mapa e eu tinha de responder a perguntas sobre as linhas de caminho de ferro portuguesas, o que eu considerava a coisa mais intratável do currículo escolar daquele tempo. Lembro-me de ele me ter dito que desembarquei em Aveiro e tinha agora de apanhar o comboio para a Figueira da Foz. Fiquei embatucado porque aquilo eram linhas e ramais à mais para a minha jovem cabecinha. Errei na resposta e, com o despautério, devo ter descarrilado o comboio porque de súbito senti o efeito do cabedal da dita cuja nas perninhas. Ah, mas foi coisa suave e admirei-me como o Julim não teve mão mais pesada. Mas claro que sabia a razão. Era uma cunhazinha por mor do meu tio Carlos Soulé, à época meu encarregado de educação na ausência do meu pai. Pois fora pelo conhecimento e amizade entre o meu tio e o Julim que fui colocado na sua escola. O Julim e o meu tio pertenciam a um grupo que frequentemente fazia serenatas nocturnas às "pequenas". O Julim tocava e era também o vocalista (tinha uma voz bela e sonora) do grupo, enquanto que o meu tio creio que era mais figura de corpo presente, se bem que cantasse também umas coisinhas a solo ou em coro. Um belo dia, fui a casa do meu tio, ao cair da noite, e lá estavam eles numa pequena farra. Mas o engraçado tinha acontecido noutro dia, ou melhor, noutra noite, uns 2 anos antes. Num dia em que, por qualquer razão, o meu tio não estava no grupo, foram fazer uma serenata a uma "pequena" que vivia numa casa colada à nossa. Só que se enganaram e em vez de se postarem junto à janela da casa da "pequena", foi a janela da nossa casa o alvo da serenata. O meu pai, que ainda não tinha saído de Cabo Verde, levantou-se da cama e, intrigado, foi apurar a razão da serenata. E logo se deram conta do engano, com os serenatistas a desfazerem-se em mil pedidos de desculpa e o meu pai a rir-se a bandeiras despregadas quando, na manhã seguinte, contava o episódio. E não se coibindo de deitar uma piadinha maliciosa à minha mãe (na altura com apenas 29 anos), dizendo, enciumado: "Hum, por momentos pensei que eras tu o motivo da serenata..."
Tenho mais dois episódios engraçadíssimos que o meu tio contou a respeito desse grupo de serenatas, mas fica para outra ocasião. Caso contrário, farei figura de tagarela nesta Esquina.

De M Conceiçao Fortes a 30.08.2011 às 23:13


Este lindo registo, complementado com outros testemunhos, faz-me lembrar de muitas outras esquinas doutras zonas do Mindelo d'outrora onde, de noite ou de dia as crianças brincavam livremente, sem perigos, orientadas com a sabedoria e a "marotice" doutras mais velhas. E assim, muitas foram caminhando, num processo de desenvolvimento saudável que até ainda hoje tem a sua marca, a testar pelas lembranças aqui evocadas por cidadãos que vivem no longínquo, mas que nunca esqueceram os nossos mais velhos que já se foram, referindo-se a eles com aquele carinho que se espera dos que tiveram uma infância feliz!

De Brito-Semedo a 31.08.2011 às 15:51

Amiga, O "Na Esquina" só fica a ganhar com os seus comentários e os autores dos posts agradecem! Assim, está "autorizada" a usar esse espaço e colaborar, da forma que achar mais conveniente. Obrigado e um abraço!

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