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Batas Brancas

Brito-Semedo, 13 Set 11

Foto Arquivo Histórico Nacional (IAHN), Praia

 

Carlos Feijóo Pereira (Cajuca), Brandon, EUA

 

A atmosfera de férias fazia-se sentir no calor sufocante, que o vento rebocava do “Sahara”. O cheirinho de iodo, vindo do mar, pairava no ar nas noites quentes de Verão. A ansiedade de regressar à terra-mãe deixava-se transparecer nalguns estudantes, que brevemente iriam visitar seus entes queridos, que ao longo do ano lectivo vinham sofrendo de saudade.

Batas brancas reflectiam a sua alvura na pracinha do liceu, onde todos se aglomeravam para celebrar o fim do ano lectivo.

 

Conversas soltas e risadas traziam vida ao ambiente mindelense. As esquinas da Farmácia Teixeira e do Café Royal eram paragens da rapaziada, e os Correios e a Praça Nova, dos namorados.


Notavam-se vestígios de férias, na pele bronzeada e no cabelo rapado daqueles que já se encontravam livre dos exames, enquanto preocupações e canseiras perturbavam aqueles, que não podiam libertar-se ainda, dos livros e das sebentas.


A brisa matinal acariciava os “rabos de cavalo” apanhados à pressa e as faces sonolentas das mocinhas crioulas. No passeio do Telégrafo, onde muitos estudavam à luz postada na entrada do edifício, era tradicional o vaivém preocupado e o beijo roubado na penumbra. Chegava finalmente o dia dos exames. A quietude reinava na sala. O olhar atento dos examinadores, o olhar assombrado dos alunos e o manipular das “cábulas” caracterizavam o ambiente herdado das velhas gerações.


O nervosismo apoderava-se da sala ao ressoarem as badaladas da velha sineta do liceu, anunciando a expiração do tempo.


Apitos de despedida ecoavam na rocha do Fortinho, enquanto os acenos agitavam o denso ar de Verão, no gesto dum saudoso adeus.


Os navios "Senador" e "Carvalho" rumavam-se para as ilhas de Sotavento e Santo Antão respectivamente, retalhando o mar e dispersando saudades na esteira de espuma que se desvanecia na distância.


Nesta saudosa viagem ao passado, vejo as velas do "Senador" emergindo na convexidade do horizonte e nelas, um saudoso passado – um passado, cuja alvura faz-me lembrar as batas brancas das adoráveis mocinhas do liceu.

 

Foto Arquivo Histórico Nacional (IAHN), Praia


 

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4 comentários

De Valdemar Pereira a 14.09.2011 às 08:52


Que saudades!!! As batas do meu tempo da Escola Camões, aos quadradinhos azuis e brancos, viraram alvas quando passaram para o Liceu. O tempo foi e, com ele, os costumes e lugares.

No intervalo das aulas íamos à Praia de Bote ou ao Cais Novo. 'A tardinha iamos à Praça ou à Cova de Inglesa e aos domingos era Laginha ou Matiota.

Se Laginha ficou, Matiota "travestiu" e, por desleixo dos homens, como poeira desapareceu o Fortim.

De zito azevedo a 14.09.2011 às 09:59

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<p class="incorrect" name="incorrect" <a="">Hello , Cajuca . Muito me agradou a tua crónica...Mau grado a diferença de idades que nos separa, eu não escreveria coisa muito diversa sobre o assunto mas, talvez o não fizesse com tanta beleza estética, retratando com tanta delicadeza de pormenores que nos enternece uma era importante da tua e da vida de todos quantos tiveram a oportunidade de frequentar o velho Liceu e viver na bela Mindelo.</p> Obrigado pelos belos momentos que me fizeste reviver.<br /> Convido-te a visitar o meu blog www.arrozcatum.blogspot.com <br /> Um abraço do primo, muito amigo<br /> <p class="incorrect" name="incorrect" <a="">Zito Azevedo<br /></p>

De M Conceição Fortes a 15.09.2011 às 00:23


As batas brancas pintavam a paisagem mindelense no período lectivo, quais pombas brancas "voando" em todas as direcções, espalhando paz em tempo de guerra. Tudo ficava mais ou menos cinzento nas férias para aqueles (as)  que, como eu, não saiam da ilha. Mas nada que o azul do mar de Step ou a animação nocturna da Praça não pudessem tingir.

De Adriano Miranda Lima a 15.09.2011 às 08:10


Esta crónica transporta-nos para os nossos tempos de menino (a) e moço (a) e todos sentimos um forte sentimento de nostalgia no regresso à Pracinha do Liceu, às ruas do Mindelo e às velas enfunadas do navio Carvalho. As batas eram uniformemente brancas e exclusivas das raparigas. A seguir à independência, as batas foram alargadas aos rapazes e a uniformização foi elevada a uma escala absoluta, mas com diversificação das cores em função dos anos escolares. Quando regressei a Cabo Verde, dava-me imenso gozo observar de manhãzinha os rios coloridos de meninos e moças a caminho das escolas.

 

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