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100 Anos do 'A Voz de Cabo Verde'

Brito-Semedo, 31 Ago 11

 

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Propriedade de Abílio Monteiro de Macedo (Fogo, 1886 – 1965) o jornal A Voz de Cabo Verde começou a ser publicado na Praia em Março de 1911 e terminou, com o nº 369, em Maio de 1919.

 

Defensor dos ideais republicanos, sempre se caracterizou pela defesa intransigente dos interesses de Cabo Verde e pelo tom extremamente crítico, no que, à administração pública, dizia respeito.

 

Apesar das muitas dificuldades que teve de ultrapassar, como a censura durante a 1ª Grande Guerra, a ditadura de Sidónio Pais e a existência de cisões internas, uma das quais que levou à saída de Eugénio Tavares em Fevereiro de 1916, o jornal tornou-se uma referência no jornalismo cabo-verdiano pelas grandes batalhas que travou como a luta pela igualdade de direitos entre caboverdianos e metropolitanos, a luta contra a emigração para S. Tomé e Príncipe, a luta pelos valores republicanos e acima de tudo a luta pela dignidade e progresso das ilhas de Cabo Verde.

 

Ao longo dos anos reuniu um conjunto notável de colaboradores, mas sem dúvida que Eugénio Tavares – redactor do jornal durante os primeiros anos, embora o seu nome não figurasse no cabeçalho e muitos dos seus artigos e poemas fossem assinados com pseudónimos – foi responsável pelo tom fortemente crítico e interventivo que caracterizou o jornal. Segundo Nobre de Oliveira, o A Voz de Cabo Verde pôde contar com "o trio mais temível do jornalismo caboverdiano": Eugénio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso (responsável pela secção A Manduco).

 

Desde o primeiro número, A Voz teve sempre um espaço dedicado à literatura e não fosse essa atenção atribuída aos escritores cabo-verdianos, muitas das obras publicadas no séc. XIX, ter-se-iam perdido para sempre e outras talvez nunca viessem a público. Logo no 1º número do jornal, dá-se início à publicação do folhetim de António de Arteaga (António de Arteaga Souto Maior) Amores de uma Crioula. De Guilherme Dantas, falecido em 1888, o jornal publica os folhetins Os Intrujões. Estudo crítico por Venceslau Policarpo Banana e Sonho – Memórias dum Doido e ainda a extraordinária reportagem ficcionada Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de S. Tiago. De José Evaristo de Almeida (embora o folhetim fosse apresentado como sendo de autor desconhecido) publica O Escravo.

 

Há ainda a destacar a colaboração de vários poetas, sendo de realçar os nomes de José Lopes e Pedro Cardoso.

 

Abílio Monteiro de Macedo, Fogo, 03.04.1886 – ...10.1965

 

 

– Informações recolhidas na obra de João Nobre de Oliveira, A Imprensa Cabo-Verdiana. 1820-1975. Macau, Fundação Macau e D.S.E.J., 1998

 

 

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8 comentários

De Brito-Semedo a 31.08.2011 às 19:51

Da Amiga Gabriela Mariano recebemos por Face Book  o seguinte comentário, que agradecemos:

"Abílio Macedo foi um Homem Grande de C.Verde.Merece maior divulgação. A obra de Osvaldo L. da Silva "Nos Tempos da Minha Infância" faz inúmeras referências ao homem frontal e destemido que não hesitava quando se tratava de defender os interesses da terra."

De Valdemar Pereira a 01.09.2011 às 06:51

Conheci este "Rafilom " que chegou a pertencer às "Forças Vivas" de S. Vicente que reagiam sempre que necessário e com eficácia Todavia, não estavam impunes (e disso sabiam).
Uma vez (da data não me lembro) por terem manifestado de forma mais veemente que desagradou o Estado, foram passar uns dias no Tarrafal de Santiago. Eram o Sr. Abílio , o Sr. Kahn (da Sociedade Luso Africana) e outro de cujo nome não me ocorre. Esses defendiam não só a ilha onde residiam como o Povo de Cabo Verde e, podem estar certos, se vivessem S.Vicente não estaria como que numa conferência de depressivos.
Eles eram as Forças Vivas e hoje temos uns vivos à força.

De Brito-Semedo a 01.09.2011 às 14:59

Amigo Valdemar, é o que eu digo: "já não se faz gente como as de antigamente! :)
O acontecimento da prisão do Nhô Abílio Macedo, por si aqui referido, por denunciar a fome em Cabo Verde e que lhe custou um mês de internamento na Colónia Penal d eTarrafal de Santiago, data de 1942!

De Valdemar Pereira a 01.09.2011 às 15:11

Obrigado por me ter falado da data, Amigo Manuel. Nesse ano o menino so tinha 9 anos mas o evento ficou marcado na memôria porque tinhamos medo da Policia..

De Alvaro Ludgero Andrade a 01.09.2011 às 14:17


Post veio a propósito, na semana em que o PR condecorou vários jornalistas. Que trio de luxo: Eugénio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso. Mantenhas.

De Brito-Semedo a 01.09.2011 às 15:40

ALA, E eu que tinha ficado danado quando descobri que me tinha esquecido da data desta efeméride (Março, 1911 - Março, 2011)!... Afinal, há sempre um tempo determinado para as coisas! Braça!

De Anónimo a 02.09.2011 às 16:03


Grato por tomar conhecimento e relembrar os factos a que se refere este post´, complementado com os comentários dos intervenientes, em particular o Valdemar Pereira. É um facto que há hoje mais " vivos à força" que "forças vivas", amigo Val. A culpa não será apenas das sociedades mas da decadência de valores que assola o mundo contemporâneo, sobretudo desde a emergência do "homo economicus". Qualquer dia acordamos e damo-nos conta de que somos uma barata, sentindo o mesmo desespero silencioso do personagem Samsa do romance A Metarmofose, de Franz Kafka.

De Adriano Miranda Lima a 02.09.2011 às 21:12


Saiu como anónimo o autor do último comentário aqui inserido, mas ele é da minha responsabilidade. A razão é porque me esqueci de digitar o nome. Aproveito para, em aditamento a esse comentário, deixar aqui a minha homenagem pessoal aos cidadãos cabo-verdianos que, naquela época já bem recuada, lutaram, com os recursos da sua inteligência e da sua pena, em prol dos direitos e da dignidade do seu povo.

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