Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Valdemar Pereira, Tours, França

 

O reconhecimento do Povo de Cabo Verde para com o Dr. José Baptista de Sousa tinha de ficar assinalado para sempre.

 

Então o industrial Manuel de Matos teve a feliz ideia de uma Subscrição Popular que ficou a cargo do seu amigo Jom Bintim, o qual andou por todo o lado, mostrando às pessoas, mesmo às pessoas mais modestas, o bem fundado da iniciativa e quão nobre era o gesto para com o "engenheiro humano" cuja dedicação ao Povo de Cabo Verde não se podia pagar. Ele tinha sido dedicado até mais não, operando sempre no Hospital Militar, graciosamente. Até avançava para os que não o procuravam, nomeadamente quando cruzava na rua com pessoas de "pé croque".

 

A primeira moléstia que erradicou foi a conhecida por "dor de barriga d'home" que não era senão apendicite (peretonite). Antes dele chegar a maioria dos pacientes morria durante ou apôs as operações. E não se pode imputar a culpa aos dois médicos que procuravam fazer o melhor possível, sem condições nenhumas, para salvarem vidas. Depois soube que isso era devido a anestesia aplicada – o clorofórmio. Se o paciente suportasse o medicamento era operado mas vinham depois as convulsões pôs operatórias que rompiam as costuras e provocavam cepticémia e/ou danos colaterais.

 

Segundo ouvi do meu falecido pai, para a Subscrição, até as mulheres do cais, que coziam os sacos (digamos que muitas vezes rasgavam) deram mil réis ou mesmo 5 tostões.

 

Assim a População de S. Vicente pôde oferecer ao benfeitor o iate "Morabeza" como lembrança.

 

Fotos Arquivo Valdemar Pereira, Mindelo, 1944

 

Nas três fotos vê-se:

 

1) – Entrega de um Diploma (ou acto de propriedade do iate "Morabeza") no Salão de Desenho do Liceu Gil Eanes, destacando-se o Maestro Jorge Monteiro, o Sr. Ferreira (Ship Shandler), dois dos três Kahn (Kahnim e Kahn; falta o Kahnão);

 

2) – Iate "Morabeza" saindo dos Estaleiros da Pontinha onde foi revisto.

 

3) – Dr. Baptista de Sousa fundeando o iate no Porto Grande de Mindelo, ao lado da Praia de Bote

__________

 

Nota: Peço de antemão as minhas desculpas a todos e a qualquer um. O que fica acima foi o que ouviu um menino de 7 anos e que agora diz o que guardou na memória esperando que pessoas mais documentadas possam rectificar. Assim poderemos reconstituir tudo. Fica o pedido e também o desafio. VP

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

8 comentários

De Valdemar Pereira a 10.09.2011 às 07:36

Foi no dia 10 de Setembro de 1944 que Dr. José Baptista de Sousa, partia para sempre de Cabo Verde, tendo uma despedida jamais feita a uma pessoa na nossa terra. Portando hà 67 anos.
Lembrar a figura do "Engenheiro humano" é justiça, tanto mais que muitos da geração actual nunca se preocuparam em saber o porquê do nome do Hospital de S.Vicente.

"La reconnaissance est la mémoire du coeur"

De Adriano Miranda Lima a 10.09.2011 às 13:20


Foi pena não se ter esperado por esta data, 10 de Setembro, para dar à estampa os pormenores da despedida de Baptista de Sousa, pois antecipou-se e isso foi feito há dias neste mesmo Blogue. Mas, enfim, o que foi feito feito está.
No entanto, Baptista de Sousa é um tema intemporal para os cabo-verdianos, pouco importando o calendário. Um dia destes, por sugestão do Brito Semedo, vou resumir o texto de 22 páginas que eu escrevi sobre este médico militar. Infelizmente, o resumo está por fazer porque ainda não tive oportunidade.
Só acho bem que se corrija o título deste post, assim como o do último sobre ele. Baptista de Sousa era capitão médico e não coronel quando esteve em Cabo Verde. Foi promovido a coronel médico em 1960, ou seja, quase 20 anos depois.

De Brito-Semedo a 10.09.2011 às 14:35

Amigo Adriano Miranda Lima, Com a descoberta do material (fotos enviadas por Valdemar Pereira) e na ânsia de conhecer e dar a conhecer esta grande figura mindelense, não terei feito um melhor planeamento. :) O seu texto, esperado com ansiedade, será a apresentação da figura, todos ligados ao mesmo tag, "baptista de sousa". Obrigado ainda pela correcção feita ao título. Um abraço e votos de bom fim de semana!

De Brito-Semedo a 10.09.2011 às 17:10

Caro Amigo, Reorganizei os posts e o da despedida do Dr. Baptista de Sousa foi puxado para o dia de hoje, o dia da efeméride. É como eu digo, 'sou de raciocínio lento, mas chego lá", rssss ! Um abraço!

De Adriano Miranda Lima a 11.09.2011 às 10:06


No termo dos seus serviços prestados em Cabo Verde,  o Brigadeiro Comandante das Forças Expedicionárias a Cabo Verde conferiu ao capitão médico Baptista de Sousa um louvor com o seguinte texto: “Louvo o capitão médico José Baptista de Sousa pela excepcional qualidade dos serviços prestados durante o período em que desempenhou o cargo de Chefe dos Serviços Cirúrgicos das Forças Expedicionárias de Cabo Verde. Como cirurgião muito hábil, permitiu a recuperação de muitos militares em situações desesperadas, e alguns lhe ficaram devendo seguramente a vida. Sempre pronto e solícito para todos, quer militares quer civis, a sua competência e a afabilidade do seu trato fizeram-no apreciar e estimar e o tornaram um elemento de valor no estreitamento das relações entre as Forças Expedicionárias e a população de Cabo Verde, que por várias maneiras lhe expressou a sua gratidão pelos valiosos e desinteressados serviços, em manifestações partidas de todas as classes sociais e das entidades oficiais da Colónia, dando assim um valioso exemplo no cumprimento dos seus deveres cívicos e militares.” Na sequência deste louvor, e pelos mesmos factos, viria a ser louvado, mais tarde, em 1947, pelo Ministro da Guerra nos seguintes termos: “Louvo o capitão médico José Baptista de Sousa pela sua notável acção como chefe da “equipe” cirúrgica do Hospital Militar de Cabo Verde, onde prestou às Forças Expedicionárias serviços dignos do maior apreço, impondo-se, pela sua alta competência técnica e acrisolada devoção profissional, à consideração de militares e civis”.

De Adriano Miranda Lima a 11.09.2011 às 10:14


Num texto que eu escrevi sobre Baptista de Sousa consta o seguinte:


      "Desde logo, considero algo exíguo o teor deste último louvor, ou seja, o do Ministro da Guerra, na altura o célebre Santos Costa, parecendo-me que ele optou por uma interpretação algo modesta e abreviada do louvor conferido pelo Comandante das Forças Expedicionárias. Penso que a real valia e grandeza do médico cirurgião, do militar e do homem, deveriam ter tido outra expressão e desenvolvimento no louvor dado pelo Ministro da Guerra. Por desatenção ou por assumido propósito? Na instituição militar é procedimento normal que um louvor conferido por um determinado escalão de comando seja assumido pelo escalão imediatamente superior, como poderia ter sido o caso deste louvor. Mas não foi o caso. Com efeito, raramente se altera o texto do louvor concedido pelo escalão subordinado, mas neste caso é bem patente que o texto é outro e muitíssimo mais empobrecido na sua substância, sendo notória a ausência de qualquer menção e realce ao prestígio alcançado pelo médico no seio da sociedade civil, bem como o apagamento das invulgares homenagens que esta lhe prestou. Além disso, se repararmos que é de 3 anos o tempo que decorre entre os dois louvores, seremos levados a pensar que o Ministro necessitou de um longo tempo de reflexão e amadurecimento da sua decisão, o que é estranho por não ser habitual nestes actos de comando. Numa palavra, parece que o Ministro da Guerra teve de engolir um sapo. Admito até que o louvor lhe possa ter sido tirado a ferros mercê de algumas pressões exteriores, a que não seria alheia, por exemplo, e entre outras, a acção do deputado por Cabo Verde. Veremos mais adiante o porquê desta observação. Porém, só o facto de os serviços prestados terem sido necessariamente elevados ao reconhecimento da mais alta hierarquia do Exército já espelha bem a importância da acção desenvolvida por Baptista de Sousa em Cabo Verde. Uma acção que seria quase criminoso ignorar ou passar-lhe uma esponja por cima."


 


     

De Adriano Miranda Lima a 11.09.2011 às 10:20


Do meu referido texto consta ainda, e em sequência, o seguinte:


 


      Mas, se o louvor militar é como é, tendencialmente frio e objectivo, maior é louvor que o médico deve ter auscultado, sem precisar de estetoscópio, no coração do povo do Mindelo. Inúmeras homenagens públicas tinham sido dias antes prestadas ao doutor Baptista de Sousa pela sociedade mindelense, quer por entidades oficiais quer privadas, como bem refere no seu louvor o brigadeiro Nogueira Soares. Uma delas, de entre várias, mas esta de grande simbolismo, é a morna “Engenheiro Humano”, com música e letra de Jorge Monteiro, morna que continua a ser ouvida com emoção nos dias de hoje. Outra homenagem foi a oferta de um pequeno iate ao doutor Baptista de Sousa, construído nos estaleiros de S. Vicente, iate a que se deu o nome de “Morabeza”, custeado por subscrição pública na cidade, por iniciativa do conhecido industrial Manuel de Matos, dono da Fábrica Favorita. Todo o povo da cidade, rico, remediado ou pobre, contribuiu com pouco que fosse, mas a parte leonina do custo coube àquele industrial. Valdemar Pereira, para ilustrar o sentimento popular, refere que o seu tio Jom Bintim lhe contou que uma mulher do povo que cosia sacos ao pé da Alfândega teve estas significativas palavras: “cirê ta custá-me 3 testom; ma pa iate de senhor dator um ta dá 10.000 reis”. Contou-me um tio meu que, no acto solene da entrega do iate, o doutor Adriano Duarte Silva, deputado por Cabo Verde, encerrou com estas exactas palavras a prelecção que proferiu: “…Quando estiverdes a velejar no Tejo, no Estoril ou em Cascais, Morabeza (nome do iate) vos fará lembrar este povo altaneiro que sabe amar e compreender aqueles que o amam e compreendem."


 

De Brito-Semedo a 11.09.2011 às 11:07

Excelente enquadramento histórico e análise. Uma grande lição de homenagem feita ao Capitão-Médico Dr. Baptista de Sousa, recordada aqui no "Na Esquina". Um muuito obrigado aos Colaboradores Valdemar Pereira e Adriano Miranda Lima. Votos de bom domingo!

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

Powered by