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Cidade Adormecida

Brito-Semedo, 18 Set 11

Mindelo à Noite, Foto de 2011, gentilmente cedida pelo seu autor, Luís Alves

 

Fátima Bettencourt, Praia

 

A cidade ainda dorme, mas quem resiste à tentação de olhar um rosto amado a dormir? Por isso saí para a varanda quando ainda não se distinguiam bem as sombras furtivas e hesitantes dos boémios mais renitentes, quase diria resistentes, na última tentativa de regressar a casa. Um deles acaba por entregar os pontos e estende-se ali mesmo num banco da Praça, sob o fino orvalho que humedece a cidade enquanto uma paz fora do tempo envolve tudo.

 

Esta é a minha cidade e estranhamente hoje sinto-me do lado de fora, de resto é como me sinto quando raramente fico num hotel de Mindelo. Esta sensação atormenta-me, persegue-me e segreda-me o tempo todo que começa para mim algum sintoma de rejeição. Por um momento, suspensa do fio de aço da angústia, pergunto-me: “Que faço eu neste hotel?” Que faço eu num espaço frio e impessoal onde me dizem sem me olhar: “O seu passaporte, se faz favor.”

 

Estes rituais hoteleiros conheço eu bem, mas na minha cidade dão-me de repente um incómodo aperto, uma dolorosa impressão de que a cidade tão amada não entenda porque estou ali. Procuro reunir uns restos de racionalidade para encontrar justificações razoáveis e lógicas, mas fica um bichinho roendo-me por dentro. Fruto dessas lucubrações, vou varando a madrugada insone e decido sair para a varanda com medo de não encontrar a magia de Mindelo à minha espera, mas para minha tranquilidade ela lá está.

 

Depois duma chuvinha tão longa quanto mansa, o céu ainda guarda alguns tons de roxo com raros fulgores de laranja anunciando a manhã que vai chegar, preguiçosa como é comum acontecer aos Sábados depois da agitação de Sexta à noite.

 

Na minha frente o jardim da Praça Nova, posto em sossego como um bilhete postal. Do jeito natural como tudo acontece ali, várias figuras se cruzam, mulheres que se diligenciam atrás das primeira vassouradas do dia, turno disputado e preferido para a colheita que a correria da noite de Sexta ventualmente deixa cair; dois jovens musculosos exibem uma juventude agressiva no bom sentido, claro, não são notívagos atrasados, mas cultores do físico, à primeira vista parece uma briga, mas vendo bem não é, brincam apenas; mulheres e homens maduros, de fatos de treino, vão sérios demais, o seu problema é o colesterol e as batidas cardíacas, nem se dão conta da beleza desta manhã orvalhada que, ao fim ao cabo, é uma dádiva para mim enquanto para eles é apenas uma manhã igual às outras. Num banco, um casal de velhos residentes protege as cabeças com lenço e boina, mais além outro casal de idade semelhante, estrangeiros, curiosamente protege as cabeças de igual modo.

 

Não fossem as diligentes varredeiras e tudo pareceria um belo slide, mas elas afadigam-se à volta das rulotes de fraquíssima colheita a julgar pelo desalento bem visível nelas. Um maço de cigarros amassado guarda apenas um cigarro, uma carteira de homem causa algum alvoroço, mais uma decepção, afinal está vazia e não passará provavelmente da devolução de algum carteirista adolescente com pretensões a profissional, depois de arrecadado o conteúdo. Longe vai o tempo em que estrangeiros bêbados perdiam chorudas carteiras, muitas daquelas mulheres ainda se lembram que foi assim que a comadre Canjinha conseguiu montar o seu negóco e largar a vassoura municipal. Elas, porém, não tiveram tal sorte e continuam empunhando a vassoura no frio das madrugadas, enquanto assistem ao desfilar dos boémios mindelenses.

 

A propósito, não se fazem mais boémios como antigamente, gente que sabia valorizar os que trabalhavam, dormiam em qualquer canto e iam deixando cair notas pelo caminho. Boémio agora anda de carro de vidros fumados e passa em alta velocidade a caminho de algum gueto secreto fora de portas. Os que passam a pé são mesmo os “cachaceiros” no último degrau da vida, caminham sempre com os olhos postos no chão na esperança de encontrar alguma moeda ou ponta de cigarro que tenha escapado ao olhar de lince das varredeiras.

 

Saí há muito da varanda, como certamente se deram conta, e andando pelo jardim identifiquei um inesperado homeless. Meu Deus! Como este mundo  dá voltas! Ainda há pouco tempo era ouvir o mesmo indivíduo invectivando um colega com a famosa expressão: “Sabes com quem estás a falar? Eu sou filho de fulano , neto de sicrano e descendente directo de beltrano!”

 

Esse que foi alguém jaz aqui num banco da praça, não tem casa, ascendência ou descendência, é tão somente um farrapo como alguns outros em que se tropeça por aí. Gente que se deixa derrotar sem luta, que perde a auto-estima e a dignidade, se entrega ao álcool e à droga, não sabe mais quem é, espera apenas a morte no último patamar da vida.

 

A cidade mágica olha-os com ternura e compaixão, mas também um pouco decepcionada, pois não consegue entender como alguém no seu seio pode desistir de viver.

 

Foto MonteCara Soncent, no FaceBook
 ________

Fátima Bettencourt, natural de Porto Novo, Ilha de Santo Antão, Cabo Verde. Diplomada e Magistério Primário, estagiou em Comunicação Educacional na Universidade Nova de Lisboa e na Escola Superior de Educação de Setúbal (Portugal). Foi professora do Ensino Primário em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola, e professora do Ensino Preparatório em Cabo Verde.

 

Desempenhou, entre outros cargos, o de directora do Departamento de Informação e Relações Exteriores da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) e o de técnica de produção radiofónica na Rádio Educativa (Cabo Verde).

 

Contista e cronista, Fátima Bettencourt é Prémio Eugénio Tavares da Crónica Jornalística 2005, atribuído pela Associação de Escritores Caboverdianos.

 

Tem colaborações dispersas por periódicos nacionais e estrangeiros e os seus trabalhos figuram também em manuais pedagógicos. Reside na Cidade da Praia.

 

 

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4 comentários

De jose azdevedo a 19.09.2011 às 12:06

Onde se prova da possibilidade de fazer prosa poética e, ainda por cima, com preocupações sociais...Gostei, sinceramente!
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Onde se prova da possibilidade de fazer prosa poética e, ainda por cima, com preocupações sociais...Gostei, sinceramente!<br /> <p class="incorrect" name="incorrect" <a="">Zito Azevedo<br /></p>

De Maguy a 19.09.2011 às 12:25

Apreceei muito esta crónica da Fátima Bettencourt e já está na Pracinha...BRAÇA

De Joana Maria a 20.09.2011 às 07:57


GGostei de ler esta crónica sobre Mindelo.

De Adriano Miranda Lima a 21.09.2011 às 22:02

Mindelo é uma cidade que fica para sempre cativa no nosso coração e alimenta-nos um imaginário que por vezes ultrapassa os limites da própria memória. Recordá-la é também recriá-la no embalo dos nossos sonhos fantasiosos, ora enaltecendo a sua face bela e virtuosa ora lamentando a sua face mórbida e disforme.
Ler esta crónica alegrou-me e reavivou a minha alma mindelense. Felicito por isso a autora deste poético texto.

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