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A Grande Guerra tinha começado e, com ela, a fúria de um louco que pensou aniquilar um povo laborioso que, só ele, deu mais Nobeis que todos os outros juntos. Um povo que, com suas técnicas, bem podíamos tomar como exemplo para a construção da nossa jovem Nação.

 

No Porto Grande era o movimento de barcos aliados descarregando e continuando seu caminho levando cargas que não nos eram destinadas e  deixavam muito que nos servia na ajuda do quotidiano. Se góte de Mané Jom não engordava na gemada, havia sempre algum alimento e outros géneros que eram sempre aproveitados.

 

Em determinada altura chegavam frequentemente os Liberty Ship, enormes barcos de carga especialmente construídos para transportar mantimentos e armamentos destinados às tropas americanas no Pacífico. Saíam da costa este dos Estados Unidos tentando fugir dos submarinos nipónicos que os faziam razia no lado oposto. Os marinheiros, sedentes de álcool e de algo mais, conseguiam apoderar-se de muita coisa que trocavam ou vendiam aos negociantes e, esses, encarregavam os vendedores do escoamento.

 

Nunca esqueci que se chegou a comprar latas de corned beef de 5 Kg por 25 escudos. Em minha casa abria-se a lata e fazia-se a distribuição aos familiares e amigos porque não havia frigorífico para a conservação dos enlatados. Os próprios ingleses compravam quanto podiam de jam ou outros géneros, que mandavam aos familiares na Inglaterra onde tudo era racionado.

 

Era paradoxal. Enquanto podia faltar no mercado o milho, o açúcar ou a farinha, comprava-se (irregularmente) outros géneros que até voltavam para a Europa em forma de encomenda.

 

Alguns desses barcos foram torpedados, mesmo na zona marítima indevida, e recolhíamos alguns náufragos que conseguiam a custo voltar. Os ingleses, indianos e chineses tinham a possibilidade de sair em barcos aliados de passagem, mas os italianos que eram do Gerarchia ali ficaram até o fim da Guerra. Os filhos que deixaram, que provem.

 

Mas não é dessa gente que quero falar hoje, mas sim dos Judeus que ali chegaram e permaneceram até ao fim da contenda.

 

Já tínhamos um próspero comerciante, o Sr. Kahn, da Sociedade Luso-Africana, pai de um ex-condiscípulo meu, e depois apareceram mais três. Um conhecido por Kahnão, por ser o mais velho, pessoa que devia ser muito conceituado na sua terra. Um verdadeiro dandy. O Blummenthal, ou "cara quémode" devido ao facto de ter a face de pessoa que se queimou. Depois havia o Kanin. Portanto, eram 3 Kahn e um Blummenthal, os três casados, e ainda duas solteiras que deram os seus corações a caboverdianos. A mais nova, uma beleza de mulher, casou com o Carvalhim e a outra foi depois para os Estados Unidos com o seu Romeu dos trópicos.

 

E essa gente toda tomou o primeiro barco possível quando terminou a Guerra. Lembro-me da Esposa do "Cara Quémode" passando na Rua do Telégrafo deitando moedas aos meninos que passavam. Portanto, Mindelo de S. Vicente de Cabo Verde podia ser considerado JUSTO (ou coisa parecida) pois salvou (mais de) uma vida.

 

Sendo "Membre d'Honneur" de Liga Internacional contra o Racismo e Antisemitismo (LICRA, Secção Touraine) contei, numa reunião, o facto e fui
convidado pela Presidente (ainda em exercício) a apresentar um Memorando sobre o assunto do qual tenho ideia (e certeza) mas... de um menino de 7 anos.

 

Logo enviei, há uns anos, um pedido, com todos os detalhes possíveis a um jornalista, explicando o bem fundado do assunto que até o podia ajudar, e ainda estou esperando resposta.

 

A ideia deste facto veio-me à memória agora que temos o "Na Esquina do Tempo", e depois de rever as fotos dos srs. Kahn e Kahnin.

 

Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

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8 comentários

De Valdemar Pereira a 21.09.2011 às 17:36


Quero pedir mil desculpas aos leitores pelos erros que não foram sacados a tempo. E' deveras desagradàvel. Lamento.

De Brito-Semedo a 22.09.2011 às 08:24

Amigo, Valdemar, É, de facto, lamentável, mas são coisas que acontecem, mas que nada alteram o seu conteúdo. Quando trabalhava na Editora Nazarena, o meu chefe brincava com isso e dizia que, para gralha, uma gargalhada, Rsss ! Braça!

 

De Adriano MIranda Lima a 21.09.2011 às 21:37

Amigo Val, que importam pequenas falhas de forma quando nos presenteias com este interessante testemunho? Tinhas 7 anos, como referes, mas eu nem sequer tinha vindo ainda ao mundo. Com isto quero dizer que nada, mas absolutamente nada, conhecia deste episódio da vida da nossa cidade, que, sendo portuária e bem posicionada estrategicamente, era uma placa giratória do mundo. Felizmente que essa condição não serviu para a meter no caldeirão efervescente daqueles tempos terríveis (II Guerra Mundial) mas sim para ser um pacífico ancoradouro de gente perseguida pelo Belzebu.
Posso dizer que nos meus tempos de menino e moço também nunca ouvi falar destes acontecimentos e tudo indica que as gerações posteriores à minha também não. Aproveitemos então os actuais meios de comunicação para divulgar acontecimentos que falam da história da nossa cidade e do nosso Porto Grande.

De jose azdevedo a 22.09.2011 às 10:14


Eu, ainda miúdo, vivi alguns anos dessa "fartura" em S,Vicente...Lembro-me que meu pai, que era ourives e relojoeiro, ía, por vezes, a bordo de navios suiços e fazia trocas impensáveis, do género de uma caneca de café em grão, já torrado, por um relógio (novo...)...Tmbem recordo, com saudade, a manteiga inglesa, os pikles em mostarda, chocolates, custard
powder, enfim, um autentico "gourmet"...Obrigado pela memoria!
Zito Azevedo

De Valdemar Pereira a 23.09.2011 às 11:00


Lembranças que nunca mais vamos esquecer, Zito .
Acho pena ninguém se interessar por essas coisas que, de um modo ou de outro, fizeram a História da Ilha do Porto Grande.
Povo que não tem História é povo pobre e Povo que destrói a sua História e assassino.
O tempo urge e temos de contar isto antes de irmos para a cidade dos Pés Juntos.

De M.E.C. a 23.09.2011 às 17:11

São histórias como esta que vão construindo a História deste território. São elas que explicam a estrutura da sociedade de hoje. Uma sugestão: traduzir em nota de rodapé as expressões crioulas menos óbvias, pois alguns leitores não são caboverdianos - como eu! Cumprimentos ao dono do blog e aos autores destas contribuições.

De Brito-Semedo a 23.09.2011 às 20:47

M. C., Obrigado pela sua observação e do ponto de vista de quem não é da terra. Tem toda a razão no que respeita ao uso de expressões em crioulo. Esquecemo-nos disso, mas isso só confirma que o "Na Esquina" não é só dos caboverdianos, mas todos os que têm o Português como sua língua, Rsss. Estaremos atentos a isso nos próximos posts. Votos de um bom fim-de-semana!

De jose azevedo a 24.09.2011 às 10:23

Amigo Valdemar,
Como diria um brasileiro "é isso aí,,,"
Eu sempre digo que o futuro de cada um de nós começa a construir-se no passado, pois é um percurso de aprendizagem constante e progressiva..E  devo dizer que, daqueles tempos, eu tenho a sensação de guardar uma espécie de memória gustativa, se é que ela existe, tal como, não raro, tenho acessos de memória olfativa, umas mais agradáveis do que outros, devo dizer...
Mas estou consigo: não devemos substimar ou esquecer o nosso passado,
aínda que não tenha sido um mar de rosas...De resto, são as contrariedades, as mínguas, as dores que caldeiam a nossa caparcidade de resistenmcia às intempéries da vida, na luta perene em busca do nosso "graal" particular.
Zito Azevedo

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