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Um Anjo Apareceu

Brito-Semedo, 3 Out 11

Vista Cidade da Praia, Zona da Praínha
 

Fátima Bettencourt, Praia

 

Não acredito que o computador seja a imagem de marca do século XXI, para mim muito mais dominado pelo automóvel. E digo isso não só por convicção própria nascida da observação directa, mas ainda apoiada no cronista/humorista brasileiro Carlos Eduardo Novaes que explica, de forma hilariante, o porquê desse amor desmedido, dessa corrida desenfreada de homens e mulheres atrás dos carros (e às vezes dentro deles) como sublinha Novaes.

 

O carro, e principalmente o segundo carro é como o ar condicionado, o computador, a televisão, a máquina de lavar, símbolo de status. Todavia, segundo o citado cronista, ninguém mantém o mesmo sentimento pela sua máquina de lavar. Ninguém anda pelas ruas dirigindo um plasma ou um frigorífico pois, por motivos óbvios, não pode sair por aí dando nas vistas dentro deles. Por outro lado, carro só deixa de representar status quando enguiça. Aí sim, são outros quinhentos.

A primeira e deprimente constatação é que os preconceitos persistem quando é a mulher que está ao volante. Qual o homem que não se volta com um sorriso condescendente para ver o carro dela ir-se abaixo, a manobra canhestra, a arrumação a um metro do passeio, a roda furada, o macaco que não funciona e ela naquela posição que em nada favorece a elegância...

 

É impressionante como uma zona deserta à beira-mar, de repente se enche de gente no instante exacto em que uma dama aflita descobre que tem um pneu no chão. No chão estão todos, bem estendidos, mas há um mais no chão do que os outros, precisamente esse que por um imponderável acaso rodou sobre um gargalo de garrafa, prego ou pedra pontiaguda que parece escolhida a dedo para as nossas calçadas, algumas tão pré-quinhentistas que historiadores entusiasmados poderão considerá-los provas determinantes da presença humana nestas ilhas, antes das descobertas. Fala-se até em místicos que consideram as nossas calçadas locais de penitência destinados a remir os pecados dos próprios carros e respectivos condutores. Não por acaso, nos acidentes, os motoristas sempre proclamam inocência. Ora voltando à gentil e aflita dama por nós referida, por sinal minha amiga do peito, eu posso garantir que ela não tem culpa nenhuma dos percalços da máquina em que se desloca, muito menos será responsável pelo estado do piso por onde roda na esperança tão singela quanto legítima de se refrescar no mar. Ela rodava, mas agora que tem um pneu furado, apenas estaciona.

 

A pequena multidão que a envolve, tem origem ainda por estabelecer, já que não é possível alinhar em nenhuma das hipóteses que perpassam a cabeça da minha amiga: 1) caíram das copas das árvores próximas; 2) surgiram da areia; 3) emergiram do oceano. Talvez esta última poder-se-ia considerar, não fosse o facto incontornável de estarem completamente secos. Afinal nada disso importa agora que já ali estão, surgidos do nada, e só aguardam que ela tome alguma providência. Espectantes, entreolham-se apenas: Nem precisam falar alto para se ouvir o barulho do que cochicham entre si: “o problema é dela”; “quem mandou meter-se em desembaraçada?”; “não temos pressa e vamos esperar sentados para ver o que ela faz”.

 

A minha amiga, em cima do salto mais baixo que tem, assim ao nível duma chinela havaiana, reune todo o seu charme e dignidade, abre o porta-bagagem, tira o macaco e dirige-se ao mirone mais próximo: “então amigo, vai-me dar uma ajudinha?” O interpelado olha para a direita, olha para a esquerda na esperança de que fosse outro o visado, ninguém se mexe e ele então dá dois passos cambaleantes e só não cai porque se ampara no carro. “Sorte malvada! O homem está bêbado!” – resmunga a minha amiga.

 

Ela rápida o dispensa com um amigável “esqueça”. E já sem muitas subtilezas interpela directamente o grupo: “Mas qual de vocês vai-me ajudar?”. Todos disfarçam, olham para o céu, para as árvores de onde pareciam ter vindo, depois para o chão, uns resmungam que nunca pegaram naquela coisa e um mais espevitado alvitra que o melhor mesmo é mandar parar um carro pois aquele macaco não serve. Assim aconteceu e com a contribuição de todos lá se trocou a famigerada roda.

 

No fim não faltou um menino, conhecimento de rua da minha amiga, que se prestou a passar uma flanela na poeira que entretanto se acumulara. Esse toque final vindo daquele menino com quem a minha amiga trocara às vezes pequenos favores, merecia uma recompensa. Começou então a procurar nos bolsos, mas logo lembrou-se que ia a caminho de um mergulho, operação que nesta nossa capital exclui valores como dinheiro, relógio ou telemóvel, sob pena de os perder para sempre.

 

Aí com o melhor dos sorrisos a minha amiga desculpou-se prometendo que ficaria para a próxima. O garoto então empertigou-se e cheio de dignidade respondeu: “Nau! Oji mi ê qui ta juda nha.”

 

Não preciso nem falar do estado de graça em que encontrei a minha amiga depois disto. Contou-me a cena com a emoção boiando num lago de lágrimas contidas por insustentáveis comportas. Aquele menino não teve quem o ensinasse, aprendeu sozinho nas ruas que a dignidade não precisa de um tecto para ser exercida. Ela se abriga num tecto íntimo e secreto de cada um, não ocupa espaço e aquece nas noites frias e nas madrugadas de vãos de escada, por muito tempo ainda o único abrigo desses meninos.

_______

Fátima Bettencourt, natural de Porto Novo, Ilha de Santo Antão, Cabo Verde. Diplomada e Magistério Primário, estagiou em Comunicação Educacional na Universidade Nova de Lisboa e na Escola Superior de Educação de Setúbal (Portugal). Foi professora do Ensino Primário em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola, e professora do Ensino Preparatório em Cabo Verde.

 

Desempenhou, entre outros cargos, o de directora do Departamento de Informação e

Relações Exteriores da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) e o de técnica de produção radiofónica na Rádio Educativa (Cabo Verde).

 

Contista e cronista, Fátima Bettencourt é Prémio Eugénio Tavares da Crónica Jornalística 2005, atribuído pela Associação de Escritores Caboverdianos.

 

Tem colaborações dispersas por periódicos nacionais e estrangeiros e os seus trabalhos figuram também em manuais pedagógicos. Reside na Cidade da Praia.

 

 

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1 comentário

De zito azevedo a 04.10.2011 às 13:22

Belíssimo texto...É isso, aí, D. Fátima: dignidade, não se aprende: tem-se ou não se tem!
Zito Azevedo

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