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Em Dueto com a Música de Bau

Brito-Semedo, 30 Set 11

Noite de Mindelo.jpeg

 

 

REGRESSO

 

Esta noite é dum silêncio puro e irreal

Como prenunciando uma tormenta.

Até as ondas calaram seu murmúrio

Quando o vulto místico da Eurídice,

Anjo que se libertou duma estrela,

Deixou a praia solitária e triste

E veio às ruas desertas de vida

Guardar a alma dos poetas antigos.

Ensaio a toada do meu sentimento

E minha voz soa como o vagido

Da flor que se abre à luz da vida,

Quando um som de violino surge do nada

E invade o ar doce e morno da noite,

Derramando a voz convulsiva de suas cordas,

Em gemido de suave agonia

Ou súplica de extrema paixão.

Submissa, a noite fica em carne viva

E agarro então o coração da música e grito:

– Ó alma virtuosa, espera um instante,

Deixa-me subir ao terraço da infância

Para Regressar ao velho lençol de linho

Onde me enrolei a ouvir o vento

E a namorar o rosto terno da lua!

– Deixa-me aliviar a mágoa

Pelos silêncios a que não dei voz

E pelas vozes que não me responderam!

Mas a serenata prossegue sem me ouvir,

Inundando-me com o seu feitiço,

E minha alma já voa com a Eurídice

Para os confins do tempo sem retorno.

– Ó mágico violino, bálsamo da vida,

Poupa tuas lágrimas e tuas penas

Que a dor é já só um eco remoto

A morrer em tuas finas cordas!

Súbito desponta a aurora e tudo se apaga

Em estranho paradoxo entre a luz e a vida,

E vejo por fim que o Regresso é à alvura dos sonhos

No encantamento de uma música sublime

Em delícia voluptuosa de uma inocência pura. 

                 

Mindelo, Setembro de 2003

 

Adriano Miranda Lima

 

Auto-Exegese ou Explicação do Poema

 

Bau.jpeg

Bau, Foto Valda's Fotolog Page
 

Vi o Bau (Rufino Almeida) pela primeira vez numa cálida noite de Setembro de 2003, quando ele actuava num palco montado defronte ao MindelHotel. Tanto o apreciei a solo com o seu violino que a interpretação do tema musical “Regresso” inspirou-me uma reacção poética a que dei o nome de “Em Dueto com a Música de Bau”.

 

Ao ouvir a música que escorria das cordas do “mágico violino”, libertada pelas mãos do artista, senti-me de Regresso aos meus tempos de menino e moço. Mas eis a ambivalência e também o paradoxo. O homem que retrocedia no tempo fazia-o com a introspecção do amadurecimento actual, possuído da nostálgica sensação de que houve um amor que ficou por cumprir nos verdes anos da sua juventude. Uma “Eurídice”… ou simplesmente uma ilusão plasmada em identidades reais como o Monte Cara, a Matiota ou a Praça Nova? Os anacronismos sentimentais que alimentam a nossa saudade podem assumir as formas mais variadas, mas o seu fundo motivacional é o mesmo. O problema é que a própria idealização desconstrói os nossos mitos no momento em que nos confrontamos com a realidade nua e crua. E é por isso que raramente encontramos o que idealizamos.

 

E como não encontrei esse amor nem numa “praia solitária e triste” nem nas “ruas desertas de vida”, tentei desencantá-lo no “rosto terno da lua”, enrolado num “velho lençol de linho”, inebriado pela música de um violino cujo coração logo se tornara gémeo do meu. E então concluí mais uma vez que os amores que explodem incontidamente num coração juvenil são geralmente ilusórios como um fogo-fátuo ou efémeros como uma estrela cadente, como todas as abstracções que nos seduzem mas ficam reféns de si mesmas. Daí que, indo aos confins da minha memória mais longínqua, onde reside uma saudade em que se amalgamam porções de mistério, remorso e encantamento, reduzi o tempo numa única dimensão, prendendo-o ao momento presente, ao reconhecer que o amor antigo permanecia incólume no meu imaginário poético, refúgio dos sonhos e ideais. Esse amor era afinal, ou sempre foi, a minha ilha natal na sua plenitude telúrica e humana, resguardo inviolável de tudo o que a memória e o coração sublimaram ao longo de uma ausência de 40 anos.

 

Portanto, naquela noite, fui parceiro silencioso de um dueto com o Bau, o meu espírito tocado pela graça do tema musical “Regresso”, de extraordinária beleza e soberba interpretação.

 

Bem-haja, Bau!

 

Tomar, Setembro de 2011

 

Adriano Miranda Lima, Portugal

 

 

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2 comentários

De Valdemar Pereira a 30.09.2011 às 16:46

Teria imenso gosto em assinar o texto de excepcional qualidade que ficou aqui exposto pelo meu amigo Adriano. Mas diria - com muita humildade - quem era o autor e que a minha assinatura era prova de admiração e de concordância. Assim, não seria considerado um plàgio e eu ficava de consciência tranquila.
Conhecia o Bau atravez dos seus CD até o dia que o vi em carne e osso quando aqui apareceu dirigindo os mùsicos da Cesària. Isso foi em Março de 1993 na sala "La Pléiade", de La Riche, cidade limitrofe de Tours. As sua actuações, com os três instrumentos que domina, foram saudadas com sinceros aplausos de um pùblico conhecedor.
Outro momento memoràvel foi na estreia local do filme espanhol "Habla con ella" onde, a determinada altura, se ouviu a sua valsa Jailza. 

 

De Sónia Jardim a 02.10.2011 às 20:59

Hoje, aqui sentada neste jardim, enquanto ouço as gargalhadas de crianças felizes que ainda desfrutam da pureza com que nascemos, leio "Em dueto com a música de Bau".
A minha leitura é apenas interrompida pelo chamamento do meu filho que, de apenas quatro anos, entusiasticamente grita: "mãe, um avião da terra, olha mãe".
Levanto os meus olhos... um avião dos TACV.
Como eu compreendo as palavras "Esse amor era afinal, ou sempre foi a minha ilha natal na sua plenitude telúrica e humana" (...)
E uma criança de apenas quatro anos vibra com os sons de Bau, vibra com tudo o que diz respeito à sua "terra", Cabo Verde, como ele diz, embora seja um alfacinha (lisboeta): "Mãe, gosto tanto de Lagedos, de andar descalço em Santo Antão, adoro a praia de Escurralete, adoro dançar".
Realmente, com quatro anos, e na pureza dos sentimentos, identificamos, ainda com mais facilidade, o amor "pela Ilha", um amor que também o acompanhará com toda a certeza.
Ainda não tive a oportunidade de conhecer o Bau pessoalmente, o que espero que venha a acontecer muito em breve.
Obrigada ao Adriano por ter tocado no meu espírito, tal como Bau, parceiro silencioso de um dueto.
Mantenhas,
SJ 

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