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Honesta Volúpia de Avental e Gravata

Brito-Semedo, 19 Fev 10

 

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O menú desta minha conversa à volta de texturas, aromas, cores, sabores e o prazer da comida (confecção e degustação) – ou não me chamaria eu Manuel, o VI da ordem da D. Cesaltina, e taurino – seguirá a ordem da ementa do livro Cozinha da Avó: (i) Entradas e Acompanhamentos, (ii) Pratos Principais, (iii) Sobremesas e Digestivos.

 

Será pois, de gravata, e depois de pôr o avental, que entro neste mundo da honesta volúpia. Isto, sem “comida-de-caminho”, mas depois de tomar um gole de água fresca para refrescar a garganta seca.

 

ENTRADAS E ACOMPANHAMENTOS

 

A alteração de comportamento do sexo masculino nos finais do século XX levou ao surgimento, em finais de 90, da gíria  “metrossexual” (junção de metropolitano e heterossexual), para designar um homem heterossexual urbano excessivamente preocupado com a aparência, gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos, acessórios e roupas de marca.

 

Os metrossexuais são conhecidos por não viverem sem a sua marca predilecta de hidratante para a pele, apreciarem um bom vinho, sonharem com o último modelo de carro desportivo e gostarem de comprar peças de design. Estes seres vaidosos estão geralmente bem colocados profissionalmente.

 

Mas, esqueçam a designação "metrossexual", pois o que está a dar é a “gastrossexual”, uma nova gíria surgida nos inícios de 2000, para se referir aos homens apaixonados pela comida, pelo prazer que dela retiram, não tanto pela sua degustação, mas pela confecção.

 

Uma empresa especializada em comercializar alimentos e temperos asiáticos encomendou uma pesquisa na Inglaterra sobre o comportamento masculino na cozinha. Segundo o estudo, realizado em 2008 e pago pela PurAsia, 48% dos entrevistados disseram que pessoas que sabem cozinhar tornam-se mais atraentes para um possível parceiro e 23% dos homens britânicos entre os 18 e os 34 anos dizem cozinhar para impressionar os amigos e pretendentes.

 

A novidade é que, estes homens lá fora, agora trajados com aventais e à volta dos tachos e das panelas, servem-se das suas habilidades gastronómicas para seduzirem, nas suas próprias casas, embevecidas damas.

 

Aqui há cerca de dois anos, depois de servir uma garoupa no forno à minha mulher, ela confidenciou-me: – Esperei tanto tempo (quase vinte anos!) para ter o prazer de cozinhares para mim!.

 

De se lamentar é aquela da minha amiga de infância a quem perguntei há quanto tempo um homem não cozinhava para ela. Ao que me respondeu: – Pergunta-me antes é se alguma vez um homem cozinhou para mim!

 

Está bom de ver que conquistar pelo corpo atlético, musculado e a pele sedosa, já era (esta é a minha vingança!).

 

Será que o homem cabo-verdiano, imitador nato e cada vez mais globalizado, está a acompanhar Cabo Verde no seu estatuto de (PDM) País de Desenvolvimento Médio, enfrentando uma nova fase, à qual cozinhar é a sua parte mais desafiadora? Deixo a pergunta de molho, ou melhor, a marinar em vinha-d’alhos, para voltar a ela mais à frente.

 

PRATOS PRINCIPAIS

 

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Os sentidos, não menos o do paladar, são o mote da vida do homem crioulo. Isto é-lhe intrínseco e está presente em todo o ciclo da sua vida, acompanhando-o em todas as suas manifestações culturais, do nascimento à morte. Indo das festividades do nascimento, do guarda-cabeça, do baptizado e do casamento, aos ritos fúnebres. Sempre celebrando a alegria e a festa da vida e também o choro e a tristeza da morte, tudo à roda de grandes panelas.

 

No amor, citam-se provérbios populares: “o peixe morre pela boca” e “o homem conquista-se (agarra-se) pelo estômago” – provérbios esses que devem ser adaptados aos sinais dos tempos e à equidade de género:  “o homem e a mulher conquistam-se (agarram-se) pela boca” – referindo-se a um outro tipo de prazer mais sofisticado, a volúpia das papilas gustativas.

 

É neste e noutros particulares que entra o Cozinha da Avó, da D. Cesaltina, já que este livro não pretende ser um repositório de receitas para as refeições de todos os dias, mas uma ajuda para quem quiser celebrar uma refeição com o ritual do tempo e o prazer de comer. Do livro elejo uma receita de um prato de peixe, “Garoupa à Cabo Verde” (pág. 30).

 

Desde o final do século XX vem sendo criticado o estilo de vida stressante do homem moderno que o leva ao consumo de refeições fast food (comida rápida), que podem ser preparadas e servidas em um intervalo pequeno de tempo. Em contraposição, surgiu em Itália, em 1986, um movimento chamado slow food (comida lenta), com o objetivo de promover a cultura da comida e do vinho, e que actualmente também defende a biodiversidade alimentar e da agricultura no mundo inteiro.

 

Na verdade, a nossa comida feita de forma tradicional, com tempo, em fogão ou caldeirão de ferro, cozido à lenha em lume brando, que lhe dá um sabor muito mais apurado, enquadra-se nesta última categoria de slow food – tudo lentamente, devagar, devagarzinho!

 

Enquadram-se neste grupo os nossos almoços de fins-de-semana, que começam a ser confeccionados de manhã muito cedo, são servidos tardiamente e arrastam-se por muitas horas, muitas vezes até à noite, ou os almoços de casamentos tradicionais onde chegam a ser servidos sete pratos!

 

Com uma noção avançada e mais adequada da distinção entre cozinha e sala de jantar, cito a fórmula da receita cuidadosamente preparada: “a enviar para a mesa” ou “pronto a servir”.

 

Terminado o serviço do cozinheiro, entram em cena os convivas. Primeiro come-se com os olhos, a seguir com o olfacto e só depois com as papilas gustativas. – Hum!... Sábe, sabin d’munde! É de comer e chorar por mais! Procura-se dintinguir as especiarias e os condimentos, avalia-se a textura e a cozedura e comparam-se os sabores.

 

Perco-me nesses prazeres e evoco as memórias gustativas da minha infância (o passado persegue-me!) – os filhoses e os pastéis de milho da Nhá Júlia; os croquetes e os pastéis de bacalhau da Nhá Nizinha do Cruzeiro; a cachupa com cabeça de albacora e o arroz pintado com peixe de cebolada da Mãi Liza; a carne de porco assada e os guisados da Mãi Xanda; o pudim de queijo e o licor de menta da Dade, a Nha Piedadinha...

 

SOBREMESAS E DIGESTIVOS

 

A conversa corre solta mas, passemos aos doces e aos licores tradicionais, feitos alquimicamente, sem a pressa do século XXI.

 

Seguem os conselhos, as dicas e as sugestões da D. Cesaltina:

 

Para que a salada fique viçosa durante muito tempo, tempere-a apenas na hora de servir, pois o sal faz com que as folhas dos legumes murchem.

 

Si kumida fika salgadu, botal-l uns gota di limon i po-l ferbe mas alguns minutu. Ta bira dretu.

 

Aproveite o caldo de cozedura dos legumes para fazer sopas ou molhos mais saborosos e nutritivos.

 

Ah, antes de concluir, volto à pergunta deixada de molho ou a marinar em vinha-d’alhos:

 

Estaremos nós, homens cabo-verdianos, a acompanhar Cabo Verde no seu estatuto de PDM, enfrentando uma nova fase, à qual cozinhar é a sua parte mais desafiadora?

 

Homens, não se esqueçam: gastrosexual é que está a dar! As mulheres que o digam!

 

Termino servindo um “beijinho doce” (suspiro) à D. Cesaltina, a autora do Cozinha da Avó. A vós outros, convivas, deixo-vos com água na boca para, assim, adquirirem o livro!

 

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Título: Cozinha da Avó, Livro 2

Autor: Josefina “Cesaltina” Benchimol Duarte

Edição: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro

Ano de edição: Praia, 2009

 

Nota: Apresentação da Cozinha da Avó, Livro 1

 

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1 comentário

De Luis Alves a 15.07.2014 às 15:05

Texto muito feliz, bem escrito e com todos os ingredientes...
Parabéns, um abraço
Luis

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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