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Patrimónios

Brito-Semedo, 10 Out 11

Lagedos, Foto Sónia Jardim, 2004

 

Património I... As matriarcas, as mulheres...

 

A minha mãe

 

O caminho para o Norte, devido à grande distância, era quase todo percorrido de noite. A minha mãe, juntamente com a minha avó e empregados, transpunham uma rocha com um grande precipício; hoje, quando se lembra, arrepia-se toda. Com eles seguiam muitos burros e cada escorregadela podia representar a morte, mas, para a minha mãe, era fantástico. Três a quatro horas a andar a pé, comendo queijo fresco e outras merendas que minha avó preparava. Quando chegavam ao Norte, bem cansados, os rendeiros ofereciam aos seus patrões cuscuz, papas de milho, leite fresquinho e carne de porco assada. Podia não ser grande coisa, mas sabia a manjar dos deuses. De manhã, as crianças corriam no meio do capim assustando as codornizes e gatos bravos. A neblina húmida que acariciava o topo daquelas montanhas deixava antever as imagens difusas de todas aquelas pessoas que se cumprimentavam gritando: “Louvado Seja Nosso Senhor” e, do outro lado da montanha, a resposta “Para sempre Seja Louvado”.

 

Depois, nascia o sol, contemplavam a sua luz vermelha lá do alto das rochas, com o barulho ensurdecedor das ondas batendo nas fragas. Como os rendeiros só viam os patrões por essa altura, preparavam sempre umas festinhas pela fresca da tarde com animados bailaricos. Enfim, como eu gosto que a minha mãe partilhe estas recordações comigo e consigo que agora está a ler.

 

A minha avó

 

Continuei a andar, a frescura daquele oásis mantivera-se totalmente inalterado. Bananeiras, árvores de maracujá, papaieiras, mangueiras, limoeiros, laranjeiras, muitas plantas, planta do tabaco, plantas que qualquer hebraísta consideraria como verdadeiros tesouros, verdadeiras tisanas, e muita cana-de-açúcar.

 

Felizmente, a seca nunca chegara àquele magnífico lugar e, realmente, isso demonstrava um verdadeiro esforço de quem o preservara.

 

A minha avó sempre foi uma lutadora, e isso ninguém pode negar.

 

Cesária Évora

 

Para ti, Cesária, musa dos encantamentos, deixo as doutas palavras do Doutor. Leão Lopes (década de 80) e acrescento: Cesária é Vida e Sentimento.

 

“Não era uma noite promissora, mas Cesária fê-la transbordar de promessas. Cesária a mulher que canta o que sofre e diz o que sente. Anunciaram Cesária. Do fundo da sala, entre a confusão de mesas e de muitos olhares 'incomodados' surge a mulher, na afirmação de si, descalça como sempre, para espanto daqueles que não sabem que Cesária não suporta espartilhamentos, sequer de sapatos. Cesária é B. Léza em vida e o poeta em prolongamento”!

 

Em conclusão, afirmo que as mulheres caboverdianas são grandes na grandiosidade. Chefes de família, trabalhadoras, destemidas, aventureiras.

 

Grandiosas como o vulcão do Fogo que, com os seus 2.829m de altura, imponentemente bate o Vesúvio.

 

As três mulheres Nobel da Paz

 

 

A Presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, primeira mulher eleita chefe de Estado no continente africano, e a também liberiana Leymah Gbowee foram reconhecidas pelos esforços na mobilização das mulheres do seu país contra a guerra civil. A terceira mulher, e não menos importante, a iemenita Tawakkul Karman viu reconhecido o seu papel na luta pelos direitos das mulheres e pelo activismo a favor da democracia.

 

Três mulheres que lutam, sem violência, pela conquista da Paz.

 

Em cento e onze anos, apenas doze mulheres tinham recebido o Nobel da Paz e, por curiosidade, a última a receber foi também uma africana, a militante ecologista queniana Wangari Maathai. Bem hajam as mulheres.

 

Sem qualquer pretensão feminista, este é o meu tributo às mulheres deste mundo, um património extremamente importante, sem qualquer tipo de desprimor para com os homens que também se têm empenhado no caminho da Paz e Ajuda.

 

Património II... A história, as estórias, as memórias, a memória de uma família, de um povo, da Humanidade, as tradições, aquela música,
aquele texto, aquele quadro, aquele candeeiro a petróleo, aquele chá, aquela plantinha, aquela saborosa receita, aquele edifício, aquele estabelecimento comercial ... a cultura.

 

As memórias

 

Com a minha avó recordei o Dr. Baltasar Lopes da Silva, o grande escritor caboverdiano, casado com uma prima direita da minha avó, Teresa Delgado Coelho, mana Teresa. Baltasar Lopes da Silva, com Jorge Barbosa e Manuel Lopes, foi, em 1936, um dos fundadores da revista Claridade e, como tal, um dos fundadores da moderna literatura caboverdiana, nascida com a publicação da sua obra “Chiquinho”, o primeiro romance escrito em Cabo Verde. Nasceu na Ilha de São Nicolau, em 1907, foi romancista, poeta, filólogo e ensaísta, sendo licenciado em Direito e Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Foi ainda um reconhecido advogado, reitor do Liceu de São Vicente durante vários anos e Doutor Honoris Causa pela Universidade de
Lisboa.

 

Aquele estabelecimento comercial

 

De regresso a São Vicente parei no emblemático Café Lisboa. Lá dentro, reinava a alegria ao som de uma coladeira. Paredes confidentes, repletas de fotografias com muitas personalidades do Mundo. Cadeiras que, carinhosamente, acolhiam vidas que se cruzavam e deixavam marcas indeléveis, mas que permaneciam no tempo, um tempo intemporal. Segredos partilhados ao sabor de um groguinho, cafés que antecediam a chegada e a partida da lua. Vidas adocicadas, alimentadas pela partilha do material e do imaterial.

 

Aquela plantinha

 

Parámos os carros junto à Cova, uma enorme cratera de um vulcão ricamente cultivada com batata, cenouras, alho, cana de açúcar, milho e muitas plantas que nasciam sem ter sido plantadas, como a planta do tabaco. O guia arrancou uma plantinha e deu-me para cheirar: pura hortelã, mas uma hortelã lindíssima, decorada com flores amarelas. O seu nome, cravo, Cravo de Lisboa.

 

Aquele almoço

 

O almoço foi servido fora de casa, numa mesa comprida, à sombra do alpendre. Um almoço ainda mais apetitoso do que o costume, se isso fosse possível, confeccionado ao ar livre na zona lateral da casa, em grandes panelões, aquecidos no carvão.

 

Património é tudo o que de bom temos no coração e partilhamos, perpetuando essas partilhas no tempo.

 

Sónia Jardim, Portugal

 

 

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2 comentários

De Adriano Miranda Lima a 11.10.2011 às 21:17


Como estou há já uns dias no Algarve, fora do lar e longe dos meus apetrechos habituais, tem-me faltado ocasião e meios para os meus contactos mais regulares. Mas abro agora o "Na Esquina do Tempo" e tenho a graça de ver S. Antão de novo evocado neste espaço, pela mão da Sónia jardim. As memórias desfilam  e no espírito de todos acende-se "aquele candeeiro a petróleo",  "aquele chá" fumega aromaticamente no bule e "aquela plantinha" é um verdadeiro regalo para o olfato, enfim tudo o resto de que aqui se fala é de facto um património que não podemos deixar apagar. E que convém relembrar e celebrar de vez em quando para podermos continuar a ser nós póprios. Se digo isto é porque eu e outros nos insurgimos tempos atrás contra a desmiolada decisão de demolir a casa que pertenceu ao Dr. Adriano Duarte Silva e contra o abandono a que estão votados outros testemunhos do passado em S. Vicente. E tudo isto acontece porque quem hoje governa não tem a visão multidisciplinar das consequências de cada decisão que toma, esquecendo-se muitas vezes  que um povo que destrói inconscientemente as marcas do seu passado perde a noção do rumo para o futuro.
A fotografia mostra-nos uma imagem de lagedos que fará inveja ao Éden, quase não dando para acreditar que umas ilhas ressequidas possam guardar no seu seio quadros de uma beleza natural tão esfuziante. E depois a viagem "a caminho do Norte" empolga o leitor tanto pela estética da prosa descritiva como pela magia das sucessivas revelações no decurso da jornada.
Fico sem saber quem é quem na fotografia, mas suponho que a bela senhora será a avó da Sónia.
Em boa hora abri este Blogue.

De Sónia Jardim a 15.10.2011 às 22:07

Que belas e verdadeiras palavras.

Efectivamente, é muito triste e revoltante assistir ao abandono e destruição de testemunhos do passado, neste caso em São Vicente, um mal que infelizmente apoderou-se de muitos sítios.

O Dr. Adriano Duarte Silva e seu irmão Daniel eram primos da minha bisavó Mariana Delgado Jardim e a minha tia-avó Maria Jardim Cabral era grande amiga de Daniel Duarte Silva, tendo trabalhado na Companhia Portuguesa de Pescas e Navegação, onde ele era Administrador.

A minha mãe recorda com saudade as festas a que ela foi na casa do Dr. Adriano, em São Vicente.

Relativamente à fotografia, "a bela senhora" é realmente a minha avó e a pequenota é a minha mãe.

Fico lisonjeada por ter considerado que em boa hora abriu o blogue e espero que continuemos a trocar ideias e informações sobre esta nossa terra Cabo Verde

Braça e Mantenhas,
Sónia

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