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Madrugadas

Brito-Semedo, 2 Nov 11

 

Fátima Bettencourt, Praia

 

A madrugada que habitualmente se vislumbra no intervalo entre um bar e uma boate, quase sempre nos oferece um panorama deprimente, pontilhado de bêbados e prostitutas a quem foi negado o doce momento de ser menina. Nada tem a ver com aquela outra madrugada de beleza e mistério da baía de Mindelo vista duma varanda sobre o mar.

 

Ninguém pode estranhar que a baía do Porto Grande esteja entre as mais belas do mundo. Estranho seria se as entidades competentes nela não tivesse reparado. Todavia eu ainda duvido que tais entidades, do alto do seu saber e conhecimento de todos os recantos do planeta, tenham apreendido toda a magia que se desprende do Monte Cara, repousando serena sobre o colchão das águas quietas, tudo sob a luminosidade penumbrosa duma lua cheia pairando como um enorme balão e confundindo-se por vezes com os candeeiros da maginal. Nenhum desses respeitantes varou uma madrugada para sentir o pulsar da noite por baixo daquela lua suspensa do nada.

  Foto Gira

 

Sim, porque muito se engana quem pensa que é visão estática de cenário. Não é, não. Uma surda, porém intensa actividade desenvolve-se sobre as calmas águas, botezinhos minúsculos com motores fora de borda evoluem entre um iate e outro e não pressuposto que seja em práticas desportivas. O que levam e trazem aqueles botes em incursões misteriosas pela madrugada a dentro? Jamais saberemos. O que todos sabem é que a baía sempre albergou clandestinidades e contrabandos mesmo debaixo das barbas das autoridades, desde os tempos áureos do contrabando de aguardente em que homens sem medo varavam noites e mares em botes a remos para desembarcar grandes carregamentos em praias escusas, altas horas da noite. Os guardas, esses, coitados! Viviam entre a cruz e a caldeirinha. Os mais zelosos que conseguiam apanhar uma leva de contrabandistas, corriam o risco de serem linchados pela população.

 

Da minha varanda sobre o mar, vou alternando a beleza no céu e o desenrasca no mar, a serenidade da lua e a perícia dos homens nos minúsculos botes de motor fora de borda e cogito que provavelmente, será sempre assim naquele lugar, uma eterna luta entre a lei e a contravenção – um desafio permanente em que só muda o material contrabandeado. E aquela lua gorda e bonacheira a todos abrange no mesmo olhar cúmplice enquanto guarda para sempre os seus segredos.

  ________

 

Fátima Bettencourt, natural de Porto Novo, Ilha de Santo Antão, Cabo Verde. Diplomada em Magistério Primário, estagiou em Comunicação Educacional na Universidade Nova de Lisboa e na Escola Superior de Educação de Setúbal (Portugal). Foi professora do Ensino Primário em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola, e professora do Ensino Preparatório em Cabo Verde.

 

Desempenhou, entre outros cargos, o de directora do Departamento de Informação e Relações Exteriores da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) e o de técnica de produção radiofónica na Rádio Educativa (Cabo Verde).

 

Contista e cronista, Fátima Bettencourt é Prémio Eugénio Tavares da Crónica Jornalística 2005, atribuído pela Associação de Escritores Caboverdianos.

 

Tem colaborações dispersas por periódicos nacionais e estrangeiros e os seus trabalhos figuram também em manuais pedagógicos. Reside na Cidade da Praia.

 

 

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