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O Sonho – Memórias dum Doido (4)

Brito-Semedo, 24 Jun 10

 

 Foto do Google, Autor Desconhecido

 

VII

 

Era mais bela! O seio palpitando.

Negros olhos, as pálpebras abrindo...

Formas nuas no leito resvalando...

(Castro Alves)

 

E prosseguia o sonho.

 

Era num pequeno camarim, que mais se diria o templo da Virgindade, tal era o encanto, o mimo, a casta sedução que tudo ali respirava, desde o riquíssimo leito de marfim destacando a sua alvura mate do fundo escuro das paredes forradas de cetim azul com flores e abelhas doiradas, até aos rendilhados cristais com faiscações de oiro, esmeraldas e rubis, e os mil nadas encantadores e deslumbrantes, ricos ou graciosos que ornam o toucador duma donzela formosa, rica e amimada.

 

Uma lâmpada de alabastro espalhava ténue claridade rósea pelo ambiente desse delicioso aposento, em que flutuava o perfume da violeta. A aurora dentro dum ninho! E essa misteriosa claridade tinha um não quê de mística pureza e velados deslumbramentos, que fariam cismar um ateu na possibilidade de se fabricar o céu na terra.

 

Era o aposento virginal da Branca, a princesa, a fada do meu sonho.

 

E ela estava ali, reclinada sobre o leito de marfim, semi-nua, bela, divina!... Parecia uma estátua ornamental do mesmo leito, e da mesma preciosa matéria, se a sua palidez marmórea se não destacasse mais vigorosamente sobre a deslumbrante alvura das roupagens, e o movimento dos seios arredondados, róseos, lisos, apenas velados por transparente gaze, a respiração ansiada e os ligeiros sobressaltos dum sonho misterioso, não acusassem a vida.

 

Ela dormia, na posição voluptuosa duma náiade estendida sobre um lago, de peito ao alto, velada pelos raios do luar.

 

Serviam-lhe de mimoso travesseiro os roliços e alvos braços entrelaçados por sobre o colo, e as formosas mãozinhas desapareciam enterradas nas ondas de oiro do farto cabelo. Banhava-lhe o rosto um pálido fulgor de opala, como se os lindos olhos entreabertos deixassem escoar uma luz misteriosa: e sob os ombros nus e opulentos, e na transparência das alvas roupas acusavam-se formas, pontuavam sombras de irritante voluptuosidade.

 

Sonhava, provavelmente, sorrindo, entreabertos os lábios húmidos e purpurinos como a pedirem uma chuva de beijos.

 

E eu vi-me, ajoelhado junto ao seu leito, ofegante, devorando a uma e uma com os olhos as perfeições daquele corpo gentilíssimo, até que meus lábios, como atraídos pela respiração e pelo eflúvio magnético do sorriso de Branca, se poisaram convulsos nos seus lábios virginais.

 

Ela acordou soltando um débil grito, em seguida estendeu os braços entrelaçando-me o colo, senti que me sufocava o calor perfumado do seu seio, e... tive deslumbramento, a que se seguiram trevas... E houve nova mutação no meu sonho, ou, para melhor dizer, paralisação.

 

VIII

 

E o teu sorrir me faz chorar, criança!...

(Costa Goodolhim)

 

Era outra vez noite, e eu vagava nas trevas.

 

Quanto tempo decorrera desde a cena precedente? Não sei, tudo pertence ao vago e caprichoso do sonho.

 

Só sei que andava como um sonâmbulo. Sons de orquestra distante me atraíam.

 

De repente, vejo-me subindo outra vez as escadarias do palácio de Branca, esplendidamente iluminadas, e apinhadas de camponeses de ambos os sexos, vestidos garridamente, os quais me entregavam ramos e saudavam na passagem como noivo da princesa; depois retiravam-se, e quando acabei de subir, como um burro carregado de flores, achei-me sozinho, no alto dum terraço que ainda distava uns cem passos da fachada principal do palácio, tal era a extensão e riqueza deste.

 

Coisa singular!... Eu, noivo duma princesa, trajava ainda a mesma sórdida libré da pobreza, e nem o luto mudara!

 

Haveria filosofia no meu sonho?...

 

Como disse, parei.

 

Então, como se fosse um sinal, apagaram-se todas as luzes exteriores, e só ficou o interior do palácio vivamente iluminado.

 

Lá dentro havia festa, música e risos, e nos enquadramentos luminosos projectados pelas janelas abertas, perpassavam sombras valsando.

 

Havia só três janelas escuras e contíguas. Eram os aposentos de Branca.

 

De repente vi, ou adivinhei, que assomava a uma delas o vulto da minha princesa, e julguei ouvir a sua voz adorada.

 

– Vem! dizia-me ela.

 

E não pôde mover-me!... Estava sozinho, no meio das trevas, como alheio a mim mesmo, cismando... se é que cismava, pois não me lembra sequer se vivia...

 

– Vem! repetiu a voz de Branca, desta vez como um queixume.

 

A mesma imobilidade!

 

A meus pés, banhando os alicerces do palácio e os últimos degraus da sua larga e soberba escadaria, o mar, se é que era mar, desenrolava as suas ondas murmurosas com um som de vago lamento. As estrelas, resvalando a luz trémula pelas fachadas do palácio recamadas de preciosas pedrarias, punham reverberações fantásticas no espelho escuro das águas, e ao longe passava uma barca, talvez uma gôndola veneziana, iluminada. A noite estava serena, e flutuavam vagas harmonias naquela atmosfera tranquila e maravilhosamente bela.

 

– Vem!... vem!... gemeu a voz de Branca.

 

E eu pensava, se é que isto era pensar...

 

"Pois quê?... A felicidade foi acaso feita para mim?... Ser amado... ser feliz... Que loucura!..."

 

O que é mais singular é que eu, ouvindo os gemidos de Branca, percebendo vagamente que ela estava perdida para mim, que uma fatalidade qualquer ma arrebatava, contudo não sofria senão como duma dor já passada, uma impressão igual à que se sente quando se carrega o dedo numa cicatriz antiga... Sofrer era meu destino, e eu tinha já sofrido tanto!...

 

A noite tornara-se cada vez mais densa e opaca. Trevas espessas toldavam o céu, e abaixo de mim o lago perdera as suas cintilações cambiantes e patenteava-se numa estagnação negra, com vagos reflexos plúmbeos. Emudecera a orquestra, apagaram-se as luzes do palácio, e o vulto encantador de Branca havia muito que se desvanecera da janela e quase da minha memória também.

 

E eu cismava nas trevas...

 

Decorreram as horas... e eu permanecia ali como petrificado, com os olhos estupidamente fitos, ora na fachada do sumptuoso palácio, onde não brilhava nenhuma luz, ora nos horizontes tenebrosos, onde já não fulgia nem uma estrela.

 

Depois veio a aurora e despontou sol, subindo radiante, numa hilaridade luminosa que enchia o espaço.

 

Então abriram-se de par em par as portas do palácio, e uma alegre comitiva irrompeu no terraço.

 

À frente vinha Branca, pálida como um lírio, dando braço a um galhardo oficial, não me lembra se de terra ou de mar.

 

E toda aquela gente passou por diante de mim, sorrindo, alegre, felicíssima, e sem me ver.

 

Branca, porém, vira-me; o seu véu de noiva roçou-me pela face, queimando-a, e, por um momento, parecera-me que seus olhos marejados de lágrimas me fitavam com expressão de indefinível compaixão, ao passo que dos lábios adorados julguei ouvir-lhe num gemido o meu nome:

 

– Júlio! adeus...

 

– Adeus, sonho da minha vida! Murmurei eu.

 

Adeus! – Que palavra tão maviosa e triste!... E que outra se pode compara com ela, senão a Saudade?!...

 

Adeus!... Que despedaçar de fibras sonoras na última vibração uníssona de dois corações que se partem!...

 

Oh! sim, eu fui amado por aquele anjo!...

 

Ai! se era o anjo... dum sonho!...

 

E passaram...

 

Somente ficou o meigo olhar de Branca, descendo-me dos olhos ao coração, e diluindo em ondas de infinita amargura o gelo que o sufocava.

 

E como eu volvesse os olhos para a janela de Branca, daquele quarto virginal onde eu tivera um deslumbramento, vi nela a mãe da princesa.

 

Aquela mulher sorria-me...

 

Então senti no peito alguma coisa que se me regelava de novo ao contacto do frio diabólico daquele riso, e...

 

Despertei.

 

Mais alguns minutos daquele horrível pesadelo, e creio que teria morrido!...

 

Oh! as mães que vendem as filhas!... Estas, sim! Odeio-as!...

 

Sim! Branca eras tu... porque se tu não fosses, teria perseguido a doce ilusão do meu sonho e eu seria feliz... ao menos uma vez na vida... sonhando!

 

Mas não te incrimino, pobre Cosette... Não...! não te quero mal... Pelo contrário, sinto imensa compaixão quando hoje, passando pela tua casa, te vejo à porta a frigir peixe, suja e rota, com os vestidos pingados de azeite, num decote desmazelado, sorrindo prazenteira e serviçal, deixando devassar o seio pelo olhar lascivo dos vadios...

 

E tens ainda a coragem de rir!?...

 

Como és feliz, ó infeliz!

FIM

 

 

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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