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Saúdo o Dia Nacional da Cultura, instituído a 27 de Maio de 2005 e comemorado oficialmente, desta vez na Ribeira Brava, ilha de S. Nicolau[1], pelo seu valor simbólico, e marcado pela realização do I Fórum Cultural Nacional, nos dias 18 a 21, sob o signo, “Furtuna di kada um, Rikeza di nos tudu”.

 

Espero que esse fórum tenha trazido subsídios importantes para a definição das políticas culturais do Governo e ido ao encontro dos anseios da população em geral. Apenas uma nota e um reparo sobre o slogan, subscrita por mais pessoas da área cultural, não a nível do seu conteúdo, claro, por expressar a riqueza da diversidade de cada uma das nossas ilhas, mas pela sua forma e veículo de expressão ser na variante de Santiago, quando poderia muito bem ser na de São Nicolau. Isso, numa altura em que o Governo fala da “importância de um consenso político em relação à oficialização do Crioulo”. Polémica à parte, envio daqui as minhas felicitações ao Ministério da Cultura pela iniciativa e fico a aguardar a divulgação das conclusões do fórum e, sobretudo, da sua implementação.

 

Destaco duas iniciativas governativas anunciadas na Praia, no Dia Nacional da Cultura: (i) que o 18 de Outubro seja doravante “Dia da Cultura e das Comunidades Emigradas”, sob a égide do mesmo patrono, com a argumentação de que "celebrar numa mesma data, a Cultura e a Emigração é indexar dois elementos matriciais da vida nacional cabo-verdiana”; e (ii) a criação de uma Fundação Eugénio Tavares. Ficou por saber o âmbito e os propósitos de tal fundação, visto que já existe uma outra com o mesmo nome, criada pela família do Poeta e activa desde 1995[2].

 

Pena que, na sessão comemorativa realizada no Palácio do Governo, em que se declamou um poema, não se tenha elegido o Patrono do Dia Nacional da Cultura ou de um dos outros nossos poetas maiores.

 

A música caboverdiana, outra manifestação cultural destacada nas celebrações, tem sido recentemente motivo de notícia nacional e internacional desde que, a 23 de Setembro, a diva Cesária Évora, aos 70 anos e com problemas graves de saúde, anunciou a sua retirada dos palcos mundiais. Na verdade, é a nossa música que, a par da nossa língua, que lhe serve de veículo e de suporte, melhor expressa a identidade deste povo crioulo e tem promovido a imagem de Cabo Verde no mundo.

 

Devido à proximidade da data e dada a importância do livro Música Migrante em Lisboa, pelo tema e, sobretudo, por ter sido uma das poucas, senão a primeira tese de doutoramento sobre música crioula, podemos ver este acto de lançamento de livro como inserido ainda nas celebrações do Dia Nacional da Cultura e um dos seus momentos de referência.

 

O livro ora dado à estampa, de autoria do sociólogo César Augusto Monteiro, já foi objecto de análise e avaliação científica por parte de um júri credenciado, pelo que interessa mais ao público aqui presente o levantamento, as considerações e o destaque dos aspectos considerados mais relevantes pelos seus apresentadores e primeiros leitores, do que propriamente os aspectos académicos do trabalho. Nisto, o amigo Carlos Filipe Gonçalves, o apresentador que me antecedeu, se, por um lado, me facilitou a tarefa, por outro, dificultou-a, deixando-me com muito pouca margem de manobra. Caso para dizer: - Óh, q'afrónta! Já-m nhanhá! Já-m psû nhondénga!

 

César Monteiro, seguindo o rigor científico, numa linguagem inteligível, num português claro, explica que, “confrontado com um contexto social diferente, o emigrante cabo-verdiano procura manter vivas as suas tradições, fortemente interiorizadas onde quer que se encontre em grupo, num processo de resistência cultural, incorporando ao mesmo tempo alguns elementos da sociedade de acolhimento, sem se alhear, de modo algum, das pressões da aculturação” (p. 79). Para avançar mais à frente que, “não se deve falar de uma música cabo-verdiana autêntica ou original, estática, como se estivesse parada no tempo (…) sem se ter em devida conta, no seu percurso histórico, a versatilidade, a criatividade e a cumulatividade do artista, em particular na diáspora, onde o cenário musical é híbrido e multifacetado” (p. 80).

 

Reconhece que a diáspora cabo-verdiana, através da performance musical, acabou por se constituir como o principal veículo de transporte da cultura de Cabo Verde para fora do seu território. E debita os conjuntos musicais surgidos, indicando a contribuição de cada um deles: o “Voz de Cabo Verde”, criado em Roterdão, “que viria modernizar a música cabo-verdiana por via da modernização de instrumentos eléctricos e da impregnação de novas sonoridades”; o Cabo Verde Show”, em Paris, “que introduziu o cola dance e o cola zouk”; o “Livity”, em Roterdão; e o “Mendes Brother’s”, nos Estados Unidos da América.

 

Reconstituindo o percurso da penetração da música de Cabo Verde na antiga metrópole, César Monteiro leva-nos a viajar no tempo, começando em 1934, acompanhando um grupo liderado pelo violista e compositor Luís Rendall e cantaderas da Boa Vista, de que fazia parte Maria Bárbara, que se desloca à cidade do Porto para participar da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa. Em 1940, é a vez do violista e compositor B. Léza, acompanhado de um grupo de prestigiados tocadores de instrumentos de corda, participar em Lisboa da Exposição do Mundo Português, onde acabou por permanecer por algum tempo por razões de saúde. Seguindo a linha do tempo, em 1947, Fernando Quejas chega a Lisboa e vai actuar na Emissora Nacional, onde permanece por 25 anos e tem uma influência decisiva na divulgação da morna junto do público português. Em 1962, a convite do Ministro do Ultramar Adriano Moreira, desloca-se a Portugal o “Grupo Folclórico de Cabo Verde”, que percorre quase todo o país em espectáculos e participa no Programa da Emissora Nacional.

 

Desbravado o terreno, chegam a Portugal novas figuras musicais e a música caboverdiana vai penetrando na sociedade portuguesa, até que, em 1972, Bana se fixa em Lisboa, tornando-se num elemento decisivo na divulgação da música caboverdiana, através da discografia e da abertura do restaurante e discoteca Monte Cara. Bana, em colaboração com Luís Morais, reedita o conjunto ”Voz de Cabo Verde” e recruta das Ilhas novos músicos, mas é nos anos 80, com a entrada em cena de Cesária Évora, que a música caboverdiana ganha maior fôlego, rumo à internacionalização.

 

É, pois, sobre a música caboverdiana que se faz na Área da Grande Lisboa que o sociólogo César Monteiro centra o seu estudo, fazendo uma caracterização e uma análise quantitativa e qualitativa de todos os actores nela envolvidos, nas dimensões socioeducativa e socioprofissional, sobre um corpus de 102 informantes. O livro Música Migrante em Lisboa ocupa-se de “Trajectos e Práticas de Músicos Cabo-verdianos” e acaba por ser a história da formação do campo musical caboverdiano em Portugal, feito com todos os instrumentos científicos modernos, constituindo-se, por isso, uma obra de referência.

 

Concluo com uma citação do prefaciador da obra, o Professor Doutor Fernando Luís Machado: “De Cabo Verde pode dizer-se que tem uma diáspora do tamanho do país e uma música maior que a diáspora”.

 

- M. Brito-Semedo

 

Título: Música Migrante em Lisboa

- Trajectos e Práticas de Músicos Cabo-verdianos

Autor: César Augusto Monteiro

Editora: Mundos Sociais

Ano de Edição: Lisboa, 2011


[1] Depois da Brava, S. Vicente e Santiago, nos anos anteriores.

[2] O Jornal “A Nação” de 27 de Outubro precisa esta informação anunciando a criação dum Instituto Eugénio Tavares.

  

 

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2 comentários

De João Sá a 27.10.2011 às 06:32

Bom dia :)
O blog está em destaque na homepage dos Blogs do SAPO Cabo Verde  (http://blogs.sapo.cv/).

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 27.10.2011 às 09:39

Neste livro (Mùsica Migrante em Lisboa ) lê-se muitas passagens com inaceitaveis ligeirezas . Quando se escreve ,sobretudo para ser publicado ,devemos respeitar todo o trabalho do artista seja qual fôr a sua àrea,os sacrificios ,nao so intelectual como também a sua propria sensibilidade,que êle pos na sua obra. Nao posso aceitar que o autor do livro confirma que ; cito, o conjunto( Voz de Cabo Verde foi reeditado . ) Este Conjunto foi fundado em Holanda -Roterdao ,em 1966 por cinco elementos : Francisco Vicente Gomes " Franck Cavaquinho "; Antonio Ramos " Toy d'Bibia " ; Jean Da Lomba ;Luis Morais e Joaquim Soares Almeida "Morgadinho ". Nao devemos esquecer que foi o primeiro conjunto cabo-verdiano a divulgar a mùsica cabo-verdiana no estrangeiro e que desta forma, merece um pouco mais respeito .O Conjunto Voz de Cabo Verde ,é um patrimònio de todos os cabo-verdianos que vivem dentro ou fora de Cabo Verde.O que aconteceu foi uma falta de respeito ,por pessoas que desconhecem valores culturais ,sem a minima noçao e o sentido desta palavra!.. CULTURAL ,aproveitando-se para os seus interesses pessoais ,au detriment ,da cultura do nosso pais. Voz de Cabo Verde ,nao foi reeditado ,Voz de Cabo Verde foi ; DANIFICADO !...Um Criol na Frânça ;Morgadinho !..

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