Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Minha ilha, minha prisão

Brito-Semedo, 2 Nov 11

  

Meu irmão ilhéu,

Este poema é teu

Minha ilha, meu paraíso imaginário, meu mundo

Minha ilha tão bela com o seu solo seco, imundo

Minha ilha sem ribeiros sem chuva sem Inverno

Minha ilha que me enclausura como num inferno

 

Minha ilha de fortes tentáculos tão imprevisíveis

Como sórdidos, também sabidos, imperceptíveis.

Ilha que segurou definitivamente o meu coração

Que não me doou uma alternativa ou compaixão

 

Ilha com as colinas e o seu Monte que é de Cara

Sua gente dedicada e resignada que nunca pára

O seu Porto que foi Grande e muito frequentado

Eu, meu corpo aqui meu espírito lá acorrentado.

 

Ilha com as praias de areia branca de rara beleza

Com seu céu azul e o mar límpido de anil e pureza

Das tamareiras e coqueiros mirrados por esse sol

Tropical, abrasador mas salutar, sem outro igual.

 

Minha ilha de terra vermelha que gera animação

De múltiplos sortilégios, de actividade de vulcão

Minha ilha que favorece bom convívio e evasão.

É assim a minha ilha, minha sempiterna prisão.

 

- Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

5 comentários

De Yara Lima Oliveira a 02.11.2011 às 13:30

Bom dia a todos!


Sou brasileira, baiana , nunca vi imagens de Cabo Verde e de lá só sabia o pouco que aprendi em Geografia. Agora encanta-me esse poema do querido amigo Valdemar, tão repleto de emoção e pintado com cores igualmente reais como os brcos de pesca na beira da praia;  com sons e murmúrios de chuva tão rara, apenas desejada; e com detalhes minunciosamente poéticos, quedo-me maravilhada, "je suis tombée". Sento neste banco em frente à esquina e parabenizo ao Brito Semedo pela bela publicação acompanhada do mapa da querida Ilha do Valdemar. Parabéns, amigo, seu poema é um grito de poesiaa, saudade e amor à sua terra. Um abraço
Yara 

De Brito-Semedo a 02.11.2011 às 22:44

Prezada Poetisa Baiana Yara Oliveira, É caso para se dizer que em boa hora o Amigo comum Valdemar Pereira lhe sugeriu encostar-se ao "Na Esquina". Sempre que puder, aprochegue-se " pois é muito bem-vinda ao grupo de Amigos da Esquina, que vai ficando cada vez mais selecto e alargado :-) Envio também daqui um abraço ao Valdemar e o meu apreço!

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 03.11.2011 às 09:21

Nesta " Esquina " ,( os bons tempos idos ) vao reaparecendo para nos fazer reviver ,aqueles bons momentos que jà nao existe ,que jà nao se constroi; mas se recordar é viver , alors ,revivemos com o que de melhor tivemos ,escrevendo ,relendo ,tudo o que do bom vai aperecendo nesta bibilioteca ,Na Esquina do Tempo . " VAL " o teu poema ,Minha Ilha Minha Prisao ,é simplesmente magnifico !. Um colega de escola !.

De Adriano Miranda Lima a 02.11.2011 às 14:29


O sentimento telúrico de Valdemar Pereira aqui derramado  nesta evocação poética da sua ilha natal perpassa, neste momento, todos nós, filhos de S. Vicente,  de forma particularmente tocante. Perpassa-os porque este momento é de luto carregado no coração mindelense pela perda de um dos mais insignes filhos da terra, o Dr. Antero de Barros. Valdemar Pereira é, também ele, um ilustre e genuíno filho da ilha de S. Vicente. Cada um com o seu próprio percurso de vida, é certo, mas no entanto sem haver nenhuma dissemelhança entre ambos, Valdemar e Antero,  quanto à identidade telúrica, tanto no que esta tem de interpelativo como de sonho desejado. As ruas da “morada”, o Monte, a Chã de Cemitério, o Madeiral,  a Palha Carga, o Monte Viana, o Lameirão, o Mato Inglês, e outros tantos pontos de referência identitária, são aflorações físicas de uma  realidade insular com as quais ambos estão  em completa empatia senão mesmo sentindo-se como elementos sincronicamente misturados na mesma  massa  existencial.  Aqueles lugares resolvem em absoluto o problema da busca da sua essência humana porque neles sentem o começo e simultaneamente o fim da peregrinação ontológica. Os “múltiplos sortilégios” a que se refere o Valdemar convocam as divindades que seguram a corrente que aprisiona o “seu corpo longe” e o “seu espírito lá acorrentado”. A mesma corrente aprisiona o desejo secreto manifestado por Antero de Barros de ser sepultado no cemitério da sua ilha, ao lado dos seus pais. Este poema é a expressão sofrida mas ao mesmo tempo aliviante de um coração que não teve outra “alternativa ou compaixão” senão ficar definitivamente seguro na sua ilha, apesar de caminhos venturosos percorridos noutros lugares do mundo.


 


 

De Sónia Jardim a 03.11.2011 às 21:41

Valdemar,
Que bom encontrá-lo aqui "Na Esquina do Tempo".
Antes de mais parabéns pelo seu lindo poema.
Um poema que me levou, inicialmente, por um caminho árido, em que me senti perdida, mas que culminou com a grata benção de alcançar um oásis.
Um turbilhão de sentimentos, mas uma prisão que é casa e não masmorra.
Braça forte,
Sónia

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

  • Livia Ramos Silva

    Meu tio irmao do meu pai tio Dino de monte. Saudad...

Powered by