Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

 

Ondina Ferreira, Praia

 

Antes de mais, felicitar o Autor por mais um livro. E desta feita, «Percursos & Destinos» que virá certamente enriquecer o panorama literário nacional. A edição que temos em mão já traz a boa notícia de que se trata de um livro galardoado com o prestigiado prémio Sonangol, 2010.

 

Posto isto, gostaria de entrar na narrativa para vos dizer o seguinte: ao terminar a leitura deste romance ficara-me na memória de leitora algumas passagens, que diria marcantes, e ao mesmo tempo estruturantes da própria obra.

 

Desde logo, a descoberta ao longo das páginas do romance, da forma interessante como o antropólogo “espreita” o ficcionista e, vice-versa, como o ficcionista muitas vezes, “cede lugar” ao analista/etnólogo.

 

Ora bem, exemplos desse entrosamento e dessa confluência de visões são recorrentes ao longo das páginas do romance. Diria mais: na minha perspectiva, a construção da narrativa fez-se experimentalmente com um quase banir de fronteiras, para dar lugar a um largo e interessado encontro entre o criativo e o ensaísta e em que subjaz um diálogo entre o antropólogo e o ficcionista. Aliás, as duas facetas do autor e/ou do narrador, enquanto seu representante. E isto surge – como já o disse – com alguma frequência, em Percursos & Destinos, de tal modo que, volto a repetir, na minha visão de leitora, os “Percursos” dos protagonistas e das outras personagens que propiciam a acção, e o contexto da narrativa, são bastas vezes, motivos de aproveitamento por parte do narrador, para uma análise histórica, antropológica, dos usos, das tradições, dos costumes e das superstições da terra.

 

Enquanto que os “Destinos” configuram a teia, o universo ficcional propriamente dito, da história de um amor em que a sorte, o fado, os astros regentes, enfim, um conjunto de condicionalismos esotéricos, ora em conjunção, ora em disjunção com as vicissitudes da vida não o consagraram. Numa palavra: não facilitaram a relação amorosa entre os protagonistas do drama.

 

Ora bem, o leitor entenderá que estas duas partes – os percursos e os destinos – concorrem quer de forma convergente quer de forma divergente para a configuração do tema maior do romance que acaba por ser o deste amor mal sucedido!

 

A intriga ficcional centra-se – e aqui levanto um pouco o “véu da história – centra-se, dizia eu, no encontro/desencontro de duas personagens: Bilunka e Djonsa.

 

À volta delas, o narrador gere e distribui uma cadeia de acontecimentos que tem como pano de fundo, a emigração e como cenário, ou espaço da intriga, uma das ilhas ou mesmo mais do que uma ilha deste Arquipélago em que nos encontramos; e que na obra, por vezes parece una, mas que ora adquire feição mais urbana que pode sugerir Mindelo, ou outra cidade; ora adquire feição rural/urbana que pode levar-nos à Vila Ribeira Brava, ou a evocar a orografia da ilha de Santo Antão e/ou mesmo a descrever, regiões de S. Nicolau.

 

De qualquer forma, trata-se fundamentalmente, de solo ilhéu e cabo-verdiano e do qual, geograficamente poderemos traçar, se quisermos, um mapa principal, de que aliás o próprio livro nos fornece os marcos e que traça também o itinerário das duas personagens principais, pois que são elas, os «Torna-viagem» da narrativa. E o itinerário é o seguinte: S. Nicolau, S.Vicente, Portugal, Holanda para Djonsa, e para Bilunka, o mesmo percurso, a terminar na Itália.

 

O certo é que se trata de uma emigração datada já historicamente, pois que Bilunka a protagonista feminina é a “italiana” no nosso sociolecto emigratório e a personagem Djonsa, o contraponto masculino, é o “holandês.” E é uma emigração com alguma especificidade que nos remete – em termos de pertença – para as ilhas de Barlavento.

 

Outro elemento a destacar, a focar em «Percursos & Destinos» aliás, como em qualquer texto literário é, sem dúvida, o narrador. E nesta ficção ele não é somenos, bem pelo contrário, aqui o narrador, como que num jogo de palco, assume-se com relevo, mas igualmente passa a palavra e dá voz a outros narradores, embora secundários, mas que não deixam de contribuir para a tecedura do todo do livro. O narrador-mor e os narradores secundários, desta narrativa – se assim os posso denominar – cada um a que a seu jeito e a seu modo, acabam por ser igualmente instâncias representativas dos aspectos vivenciais e existenciais da comunidade cabo-verdiana dentro e fora das ilhas.

 

Convinha na sequência desta leitura/análise, chegar a uma outra categoria do romance que é o tempo, o tempo narrativo. Verifica-se nesta obra, que ele se entrelaça ao tempo histórico, e que é pontuado por vários e diferentes períodos e, por diversos acontecimentos que marcaram e marcam ainda, a vida social e histórica das ilhas. Apercebemo-nos de uma espécie de simultaneidade de tempos (narrativo e histórico) justapostos, e em que tempo histórico adensa-se e chega a destacar-se em alguns capítulos, sobreponde-se, a espaços, no universo do romance.

 

E o resultado desta justaposição dos dois tempos é trazerem-se histórias para dentro da estória. Narram-se festas do Carnaval e as dos santos padroeiros ou populares muito festejados na terra. Contam-se as quase lendas dos homens do mar, as suas aventuras em viagens de cabotagem inter-ilhas. Recordam-se as tristes ocorrências da crise de 40, e ilustram-se os episódios vividos pelo emigrante em terras estrangeiras.

 

Estes são registos que «Percursos & Destinos» cataloga, inscreve, na linha daquilo que o poeta Corsino Fortes distinguiu na obra de João Lopes Filho, quando a anunciou vencedora do Prémio Sonangol (2010). Passo a transcrever:

 

«…a audácia do pormenor descritivo e a qualidade formal com que retratou o percurso da insularidade, os processos sociais e culturais de um determinado tempo histórico da vida do povo cabo-verdiano».

 

E com esta apreciação que não é minha mas que faço minha, chego ao fim da leitura de Percursos & Destinos, desejando igualmente a todos, uma boa leitura. (Notícia do lançamento do livro - TCV).

 

Título: Percursos & Destinos

Autor: João Lopes Filho

Editora: Sete Egos

Ano de Edição: 2011

____________

 

Ondina Ferreira é professora do ensino superior e escritora com várias publicações de ficção, ensaio literário e linguístico e artigos de opinião.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

2 comentários

De João Sá a 03.11.2011 às 03:33

Se este livro não for editado por cá eu vou ter que arranjar maneira de o fazer vir daí, tal a vontade de o ler que este post me deixou :)
Espero que o mesmo aconteça a todos os que o vejam em destaque Na Rede no SAPO Cabo Verde.

De Brito-Semedo a 04.11.2011 às 09:01

Prezado João Sá, Porque o merece, o "Na Esquina - Magazine Cultural" terá imenso prazer em fazer chegar o livro às suas mãos com uma dedicatória do autor. Abraço e votos de bom dia e bom fim-de-semana!

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

Powered by