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Criada de dia, criada de serventia

Brito-Semedo, 7 Nov 11

 Foto de Carlos Loff Fonseca, gentilmente cedida pela esposa

 

Ess'ali na esquina é Maria dos Dores, a Bia.

Há anos, quando não havia água canalizada

Ela era jovem criada de servir, criada de dia

Carregava a água de Madeiral para morada.

 

Ela era tão garbosa, agradável, contentinha

Andou pela escola e outros predicados tinha.

Depois, a jovem pretinha cheirando a sabão

Com frescura no corpo, que nunca dizia não

 

Perdeu sua juventude, a honra e a inocência,

E para com ela, já ninguém tinha paciência.

Chegou a traiçoeira velhice, lançou as raízes

A miséria e a doença nas pernas com varizes.

 

A vitalidade da sua juventude desaparecia

Já não tinha forças para ser criada de dia.

Sem água canalizada a merda era enlatada

E na calada da noite por ela era despejada.

 

Como a Bia tinha de ganhar a subsistência

Para não pedir esmola e viver de assistência

Então, na esquina, contava as horas do dia:

às nove horas ia buscar a lata de serventia.

 

- Valdemar Pereira, Tours, França

 

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4 comentários

De Mário Vaz Almeida a 08.11.2011 às 11:01

Este blog é rico em informação cultural de toda a ordem, caro Brito-Semedo! Estarei atento!

De Yara Lima Oliveira a 08.11.2011 às 15:42



Serventia: um termo muito utilizado, registrou-me a memória. 


Quando pequena, ouvia em casa frases assim: "Isto  já não tem serventia" ou "não joque fora, ainda tem serventia". 

Simplesmente o ou aquilo que serve para alguma coisa.
Aplicado às criadas, lembro dos filmes com temática secular, da realeza palaciana e das serviçais que, como a Bia, eram encarregadas daquele serviço, digamos assim, urgente, importante e essencial, cujo valor nem sempre era reconhecido, a não ser pelas compadecidas e interessadas "sinhàzinas", filhas do dono de engenho que valiam-se da Criada de Dia para entregar bilhetes amorosos ao filho do  fazendeiro, inimigo do seu pai; também da princesa com caso de amor semelhante. 

O termo ficou e, os coronéis, e famílias mais abastadas também tinham a sua Criada de Dia e  de Serventia.


Valdemar, como sempre, colocou em versos algo que lhe move a emoção, que instiga a memória  e mexe com o coração:  os fatos, as pessoas, a música, o idioma, as cores, a morna, o mar; enfim, todo o panorama exterior de  "sua" Ilha. Um primoroso conjunto, de cunho social sem dúvida.

Fez-me lembrar a Maria do Brasil que ainda existe;  a mulher com rodilhas na cabeça,  subindo ladeiras, escadas ou caminhando léguas, mexendo o corpo para lá e para cá, equilibrando a lata d´água no agreste sertão; enquanto o povo, nas bandinhas dos bairros nobres do Rio de Janeiro canta ainda no carnaval: 

"Lata d´água na cabeça , 
lá vai Maria...
sobe o morro , não descansa; 
pela mão leva a criança, 
lá vai Maria."


Um abraço para Valdemar, para a Bia, para o Manuel Brito e para a Maria.

De Adriano Miranda Lima a 08.11.2011 às 16:06


 


 


  Este poema de Valdemar Pereira devolve-nos à  mundividência mais genuína do cosmo popular mindelense para ali resgatar  o que existe de sonho justo ínsito em bem entranhada pobreza. A aventura humana é toda ela igual nos  parâmetros essenciais que balizam a existência do ser, variando apenas o circunstancialismo social que a rodeia e a norteia e a ampara, por isso determinando-a. Razão teve  Ortega y Gasset para afirmar que o homem é a sua circunstância.


Todo o ser humano vem ao mundo intacto no seu direito de aspirar a uma vida normal, justa e decente, mesmo que ela restringinda a uma moldura  de pobreza  material. O sonho de toda a menininha pobre da nossa terra, ontem como hoje, é trabalhar consoante as suas possibilidades e conhecer um homem a que possa ligar-se para constituir família ou no mínimo gerar de forma responsável descendência para posterior amparo na velhice. Esse seria o sonho lídimo da Bia na sua labuta diária e infrene entre o Madeiral e as casas da morada, com as latas de água à cabeça. Conheci algumas dessas menininhas, a maior parte delas correspondendo ao fenótipo humano posto em relevo nesta bem conseguida expressão do imaginário poético de Valdemar Pereira.  Uma conheci  já mulher bem madura, a Maria Salema, desiludida e rendida ao destino de carregar as “latas de nove hora”. Algum sarcasmo e amargura que ela exteriorizava no seu comportamento, macerados no álcool, não eram mais que o rosário das suas penas e frustrações. (Continua)

De Adriano Miranda Lima a 08.11.2011 às 16:09


(Continuação)


 


O percurso da Bia é aqui poetizado com muita mestria mas sobretudo com a sensibilidade humana que é própria do autor. Se os versos denotam alguma discreta sátira mofina no modo de dizer, não deixam contudo de denunciar de forma bem patente o lado trágico e amargo da vida de pobre. Valdemar Pereira corre  por instantes a cortina que separa  o dia da noite para desvendar  a diferença de padrão, mesmo na fatalidade da sua miséria, entre o trabalho duro e limpo, ocorrido à luz do sol, e o trabalho penoso e sujo, oculto pela calada da noite. O autor revisita a triste sina das camadas sociais mais desprotegidas do povo das nossas ilhas, sobretudo a das mulheres, ao mesmo tempo que faz reemergir dos subterrâneos psicológicos a  indiferença, se não despreziva pelo menos cruelmente distanciadora,  com que a sociedade olhava para quem lhe despejava as imundícies secretas.


Todos  os que têm  memória e sentimento são  assaltados por uma profunda e retrospectiva mágoa ao lembrarem-se da Maria das Dores, da Maria salema e de todas as criaturas humanas que a crueldade da vida relegou para a sarjeta. Todos somos ou fomos culpados.


 

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