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Morreu o Professor Antero de Barros

Brito-Semedo, 31 Out 11

 

 

 

Antero João de Barros

 

S. Vicente, 22. Março. 1922 - 31.Outubro.2011

  

 

Antero João de Barros, nascido numa família modesta do Monte, em São Vicente, filho do grande desportista Nhô Fula e pai do cantor das lutas de libertação, Nhô Balta, faleceu ontem em Lisboa vítima de doença prolongada.  Self made man com um percurso dos mais raros na vida de um caboverdiano, fez os estudos liceais em São Vicente e mais tarde, graças ao apoio de Baltasar Lopes, licenciou-se em Germânicas pela Faculdade Clássica de Lisboa. Professor, por excelência, porque foi professor primário, liceal e universitário, tendo assim alunos em todas as classes sociais em São Vicente. Exerceu também as funções de reitor do Liceu Gil Eanes, onde marcou as gerações dos anos cinquenta e sessenta com os seus cursos de geografia e pelo seu relacionamento familiar com os alunos. Para o afastar de São Vicente foi nomeado Chefe dos Serviços de Educação na Praia e em seguida transferido para Angola, onde permaneceu até à Independência. Regressou a Cabo Verde a convite do seu antigo aluno Carlos Reis, então Ministro da Educação. Por razões de saúde teve que sair de Cabo Verde para tratamento nos Estados Unidos e recentemente em Portugal, onde veio a falecer.

 

Desportista nato, associado ao futebol, ao golf e ao criket, foi Presidente da Federação de Futebol de São Vicente, fundador do Club de Golf de São Vicente e Presidente do Comité Olímpico Caboverdiano. Foi um grande activista desportivo, organizando grandes torneios de golf, de criket e de futebol a um alto nivel, que ficaram na história de Cabo Verde. Ninguém pode esquecer os torneios de golf e criket contra os ingleses ou ainda a participação da equipa de São Vicente nos torneios de futebol no Senegal, Guiné Bissau, Gâmbia. Admirador de Adérito Sena, cujo nome foi dado ao Stadium da Fontinha, mas também do pai Nhô Fula, o maior wicket-keeper de todos os tempos e figura mítica como grande pescador de tubarões, sem esquecer da sua equipa de golf onde o fair play, a amizade, contavam imensamente. Desse grupo, agora fica somente o irmão Eduardo Fula, com mais de noventa anos, mas que ainda revela a classe de um maiores desportistas do seu tempo.

 

Recentemente numa entrevista ao jornal A Semana, Antero Barros declarou que preferia morrer para não assistir à venda do club de Golf de São Vicente aos estrangeiros por pessoas que nada têm a ver com a história do desporto em São Vicente. Aliás, deve sair em breve uma reportagem sobre o seu longo percurso desportivo realizado por uma patrícia a residir na Alemanha.

Publicou dois livros: um sobre a história do golf em São Vicente e outro sobre a história do criket também em São Vicente, ilustrados com fotografias dos grandes jogadores de golf e cricket do seu tempo. Colaborou no n.° 30 da revista Latitudes, em Paris, em homenagem a Baltasar Lopes.

 

Foi homenageado por várias associações de emigrantes em Portugal, França (Paris) e Providence (Usa), graças à consideração e estima dos seus antigos alunos, pois tinha alunos em todos os estratos da sociedade caboverdiana. Disse-me várias vezes que gostaria de dar a sua última aula em São Vicente, onde desejava morrer e ser enterrado ao lado dos pais, Nha Filipa e Nhô Fula, a quem ele chamava John.

 

Herói no verdadeiro sentido do termo, a figura de Antero Barros alinha-se ao lado de grandes figuras da Nação como Senador Vera Cruz, Adriano Duarte Silva, Baltasar Lopes e Amílcar Cabral. Ele merece as honras nacionais e a Câmara de São Vicente ou o Governo deveriam organizar a Antero Barros um enterro nacional como aconteceu com Baltasar Lopes e Aristides Pereira.

 

Caboverdianamente,

 

Luiz Silva

Paris, 1/11/2011

 

 

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7 comentários

De Joaquim Saial a 31.10.2011 às 21:43

Mais uma grande figura de cabo-verdiano que nos deixa, mais um gileanista que se vai. Morre o homem, fica a obra. Longa vida à sua memória.

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 01.11.2011 às 13:04

Com o desaparecimento do Professor Antêro Barros ,é mais um grande cabo-verdiano que nos deixa ,é mais um mindelênse que desaparece ,deixando-nos a sua obra ,nao so como professor ,mas também como desportista .Os meus sentidos pêsames ,ao seu filho ,-meu amigo- (Nhô Balta ),bem como à toda familia . Morgadinho !..

De Valdemar Pereira a 01.11.2011 às 12:35

Cabo Verde perde um dos seus mais ilustres filhos. Dr. Antero Barros deixa a sua marca indelével por todo o lado onde passou.
Que a terra lhe seja leve.

De ssAmendes a 01.11.2011 às 13:06

Descansa em Paz Professor...

Seria da mais elementar justiça que as autoriadades de Cabo Verde lhe concedessem o seu desejo: - O de ser sepultado no    "Chã  de Cemitero", junto de seus pais...É pedir pouco... para o muito que deu a Cabo Verde.


 

De Adriano Miranda Lima a 01.11.2011 às 16:06


Todo o cabo-verdiano (sobretudo do Mindelo) que tem memória e coração é invadido neste momento por um enorme vazio perante a perda deste nosso ilustre conterrâneo. Há um texto em que o homenageei, felizmente que ainda em vida, em 2007, e que hoje pedi ao proprietário do "Esquina" desse de novo à estampa aqui neste espaço. Nesse texto digo tudo o que penso do Homem e do Professor. Da vida particular do Homem pouco conhecia e dela nada partilhei na minha juventude em Cabo Verde, mas a sua presença física nas aulas fazia-me lembrar o meu pai, que estava na terralonge a tratar da vida, pois emanava do  porte e da conduta do Professor uma aura de verdadeira paternidade espiritual. Ao mesmo tempo que nos exigia um elevado nível de empenho e dedicação ao estudo, transmitia-nos  confiança e sentíamo-lo como alguém que em momento de desaire escolar nos estenderia uma mão salvadora. O Professor foi o melhor que tive em todos os tempos, tanto que pela vida fora nunca esqueci o seu método de ensino, a sua palavra económica e rigorosa,  a sua criatividade pedagógica e a disciplina que aplicava a si próprio e instilava nos alunos. Enfim, sempre senti uma grande admiração pelo Dr. Antero de Barros e ele é das figuras humanas que me acompanharão sempre pela vida fora. Mesmo estando já do outro lado da existência, sei que ele será obrigatoriamente convocado sempre que eu recordar o passado ou reflectir sobre a problemática da educação e do ensino.

Além disso, a figura humana do Dr. Antero de Barros inscreve-se de forma indelével no meu imaginário de ilhéu de S. Vicente. Ele corporizava o que a ilha teve de grandioso e promissor no seu passado. Ele é exemplo do cidadão que se fez praticamente pelo seu próprio esforço e se guindou a um alto patamar de cidadania profícua em todos os sentidos. Antero de Barros merece cerimónias fúnebres oficiais e de âmbito nacional. Oxalá os responsáveis interpretem bem o sentimento que neste momento percorre não só os antigos alunos mas toda a população da sua ilha natal.
Bem-haja Luiz Silva pela rapidez e oportunidade do teu belo e justo texto evocativo.

 


De Adriano Miranda Lima a 01.11.2011 às 18:25


O gileanista Joaquim Saial pretende que a "Fundação Antigo Liceu Gil Eanes" se torne um espaço de encontro e reconstrução das memórias daquele histórico estabelecimento de ensino. Ora, o Prof. Antero de Barros foi uma figura importante da história do Gil Eanes, e, ao deixar o nosso convívio, sirva o infausto acontecimento do seu passamento para congregar a atenção e a reacção dos gileanistas ao repto lançado pelo Saial. Digamos assim que a trajectória do prof. Antero de Barros poderá ser o traço de união entre os gileanistas reticentes ou que se predispõem a dar o seu contributo. Oxalá apareçam muitos gileanistas, ao menos na hora da morte.

De Adriano Miranda Lima a 02.11.2011 às 11:41


Eu sempre esperei que a perda do nosso "Mestre" trouxesse a este e outros espaços da blogosfera mais participantes, para depositarem ao menos uma palavrinha de pesar e condolência. Mas não, os comentadores que vieram são os mesmos de sempre, desta vez até registando-se algumas ausências. Os que vieram são, por sinal, os mesmos que têm dado a cara em outras ocasiões em que se cerrou fileiras em defesa da nossa memória e dos nossos princípos.

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