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Feiticeira que tudo sabe

Brito-Semedo, 14 Nov 11

 

Foto Tó Gomes

 

Tu, feiticeira que tudo sabe, que incita e faz

fala-me do que não vejo e que em mim jaz

dormindo no mais profundo da minha alma.

Tenho uma dor incomensurável, uma chama

que as fases do tempo que passa não pára,

faz-me curtir, não altera e lenitivo não traz

 

Não sei se é uma fraqueza ou realidade feliz

se uma infelicidade alegre ou alegria infeliz

se uma manifestação de carácter inexorável

se é pressentimento ou um presságio amável.

 

Não aguenta preponderância do firmamento

dói quando se é condenado ao afastamento
ignora as excelências de muita outra beleza

preferindo os desgostos próprios da tristeza.

 

Nem o sol clemente nem chuva mais fecunda
nem coração mais puro ou mais apaixonado

têm a panaceia para enfermidade hedionda

que se apodera da alma de forasteiro ruído


Não pode haver coisa mais danada e impura

que se junta, germina e pela vida fora dura.

Feiticeira, deixa a tua poção que nunca cura

mistura as plantas em remédio que perdura.

Dizem-me que é doença lusa de toda a idade

sem sinónimo em outro léxico: é a Saudade.

 

- Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

 

 

 

 

 

 

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8 comentários

De Adriano Miranda Lima a 14.11.2011 às 22:22


 Saúdo mais esta visita do nosso poeta Valdemar Pereira, que dobra a “Esquina do Tempo” ostentando uma flor de aroma intemporal, a poesia, tanto mais imune ao tempo quando tematiza sobre um sentimento que é tributário de uma das nossas mais vincadas características psicossomáticas – A SAUDADE. Ela habita o fundo da alma e por isso a “feiticeira” não a pode curar  com o recurso às suas habituais  mezinhas, pois é o poeta que reconhece  que: “deixa a tua  poção que nunca cura/mistura as plantas em remédio que perdura”.


De resto, o poeta não espera propriamente uma cura, porque sabe que o mal é irremissível, entranhado no coração de todo aquele viaja para longe e se aparta da terra e dos que ama. O poeta, convencido do seu mal incurável,  apenas reclama uma palavra balsâmica da feiticeira, um afago, uma carícia à sua alma atormentada: “fala-me do que não vejo e que em mim jaz/dormindo no mais profundo da minha alma.


Bem pode falar o Valdemar, com toda a propriedade, sobre a Saudade, porque a sentiu, e sente, profundamente na alma, como muitos conterrâneos que, como ele, deixaram o berço natal para demandar outras terras em busca de uma vida melhor.


 


(Continua)

De Adriano Miranda Lima a 14.11.2011 às 22:24


(Continuação)


No fim, conclui: “dizem-me que é doença lusa de toda a idade/sem sinónimo em outro léxico: é a Saudade”, no que, entre outras afinidades, permite identificar a sua poesia, pelo menos a expressão estética aqui vertida, com a tradição literária dos pré-claridosos, na linha de um Eugénio Tavares ou de um Januário Leite. Mais, ao considerar “lusa a doença”, que o é, de facto, na sua matriz genética, Valdemar vai mais longe quando denuncia uma feição psico-ideológica em que está menos presente o pendor nativista do que uma universalidade que igualiza o português e o cabo-verdiano como companheiros históricos da vocação diaspórica. A verdade é que, tal como escrevi há tempos,  “tanto o fado como a morna vão ao fundo da alma para soltar a dor do coração sofrido ou deixar escoar tristemente a saudade. Ambos são expressão de um lamento que bem pode ter nascido na solidão do convés de um navio naquelas noites olorosas em que a lua espalha o seu brilho de prata sobre a superfície quieta do mar”.


 


 


 


 

De Adriano Miranda Lima a 14.11.2011 às 22:35

Lamento que o meu comentário tenha sido inserido com mau aspecto formal: letras de tamanho diferente, palavras com negrito e outras não. O texto foi escrito em word e depois copiado no espaço do comentário, cuidado a que me habituei para não correr o risco de perder o texto no acto da inserção, como já me aconteceu. O que está no comentário não corresponde minimamente ao aspecto formal do texto escrito em word.
Por outro lado, quando o texto é mais extenso do que o permitido pelo Blogue, ele é dividido em duas partes e assim inserido, mas com o inconveniente de a continuação do texto preceder a parte inicial, na ordem de inserção.
Penso que bom seria que o Brito Semedo procurasse corrigir estas duas dificuldades. Primeiro, evitar a distorção do aspecto formal do texto que é copiado no espaço; segundo, permitir a inserção de textos mais extensos. Talvez seja  possível estas duas harmonizações, porque há blogues e jornais online onde  não se verificam os problemas que eu referi.

De Teresa Alves a 15.11.2011 às 10:06


Caro Adriano,


A questão da (des)formatação do texto deve-se ao próprio Word. Isto porque se trata de uma aplicação que funciona em html. Quando copiamos algo do Word para um comentário (como para o edição de um post) estamos a levar mais do que apenas o texto. Estamos a levar a formatação em html que o Word lhe atribui.


Se faz mesmo questão de utilizar o word, poderá tentar que todo o texto esteja formatado (no word) como "Parágrafo Normal" a fim de se encontrar todo com a mesma formatação. Poderá, alternativamente, testar a utilização de um editor de texto simples, como o Bloco de notas.


Relativamente ao tamanho dos comentários, o limite de caracteres são 4296. A nossa experiência indica-nos que este é um limite aceitável e que quando é necessário dizer mais é muito porovável que o autor escreva um post.


No entanto, não parece ter sido isso o sucedido já que o seu comentário ao qual estou a responder tem apenas 991 caracteres, tendo os outros 1181 e 1015 caracteres. Assim, a totalidade dos seus 3 comentários é de 3187 caracteres o que significa que caberíam todos no mesmo (e convenhamos que é suficiente para o debate que os comentários aos artigos pretendem fomentar).


O Adriano deverá então pergunta-se (ou perguntar-nos) se os comentários permitem todos esses caracteres, porque foi obrigado a dividir o seu ante a mensagem de que teria ultrapassado o limite?


A resposta é simples: pelo mesmo motivo do exposto acima no que toca à utilização do Word para redigir o texto. Porque o mecanismo que conta os caracteres, conta todos os caracteres colados e embora nós vejamos apenas o texto, existe o tal html de formatação que vem de forma invisivel do word. 


Tal como indico acima, sugiro que tente utilizar o Bloco de Notas (aplicação gratuita do Windows acessivel em: Iniciar/Todos os Programas/Acessórios) já que evitará os transtornos do html "escondido".


Espero ter consigo responder às questões colocadas e, caso subsistam dúvidas, não hesite em colocá-cas, aqui ou por email (indicado no meu perfil).


:)

De Adriano Miranda Lima a 15.11.2011 às 12:58

Agradeço ao Brito Semedo os úteis esclarecimentos que me prestou e que, certamente, interessarão também a quem queira participar no "Esquina do Tempo" e se depare com os mesmo problemas. De facto, como bem explica, surpreendia-me que o tamanho do texto estivesse aquém do número de caracteres estabelecido e, no entanto, o Blogue dizer-me o contrário.
 Pois bem, a solução é o WordPad, que não tenho por hábito utilizar, mas que já cá canta.
 Bem, isto da minha dúvida  não passou de um fait-divers, pois o que importa é comentar o poema do Valdemar Pereira. Espero que apareça mais gente a comentar, porque é a única maneira de fazermos jus ao repto lançado aqui pelo Brito Semedo há umas duas semanas.

De Adriano Miranda Lima a 15.11.2011 às 19:56



Pablo Neruda, no seu poema "Saudade", diz: "Saudade é amar um passado que ainda não passou/É recusar um presente que nos machuca /É não ver o futuro que nos convida..."

Valdemar Pereia neste seu poema diz "Tenho uma dor incomensuràvel, uma chama/ que as fases do tempo que passa não pára" .

Então, ocorre-me transcrever uma breve passagem do livro "O TEATRO É UMA PAIXÃO, A VIDA É UMA EMOÇÃO", a saber: .."meter-me clandestinamente num navio e aventurar-me rumo ao desconhecido, aceitando todas as contingências possíveis. Mas a decisão estava tomada e, fosse o que Deus quisesse, ela era irreversível. E contudo já sentia no coração o travo amargo da nostalgia, eu que, apesar do amor entranhado à minha terra natal, à minha família e à minha gente, não me sentia no dever de pertencer a nenhum lugar mas a todos os lugares ao mesmo tempo".
Foi nesse momento que a saudade começou a despontar no coração de Valdemar, chama que se ateou e encontrou lenha para se manter viva o tempo todo, pela vida fora. Se para Neruda, a saudade é amar um passado que não passou e que por isso permanece cego ao presente e ao futuro, e se para Valdemar ela é uma chama que não apaga por mais que passe o tempo, podemos então pensar que ambos tocam a mesma corda do sentimento humano, mas que não será propriamente o passado, enquanto tempo vivido e delimitado por uma determinada fase da vida, o objecto da saudade indirimível. Sê-lo-á apenas como ponto de partida para todos os sonhos e expectativas, que são contínuos e inexauríveis no ser humano, e tanto assim é que há sempre um passado de marco temporal sucessivamente distanciador que nos segue ao longo da vida. Portanto, diria que no fundo o que todos sentimos é uma saudade unificada, da vida que se viveu, se vive ou se aspira viver, independentemente da idade e suas contingências.

De Valdemar Pereira a 15.11.2011 às 20:27



Não pensem que sou insensível às intervenções que aparecem, nomeadamente do Adriano que espezinha as publicações e enriquece as obras de que lê com doutos e apaixonantes comentários. Vezes sem conta aqui tenho vindo trazer uma palavra de apreço aos poucos corajosos que dão a cara para dizer o que pensam, tentando abrir um diálogo que nunca passa de monólogo ou sinfonia a uma voz. Infelizmente !
Vezes sem conta apareço e sempre deparo com dificuldades técnicas que comem o texto sem deixar traços de digestão rápida. Mais uma vez venho tentar a minha sorte esperando que desta vez aparece o meu OBRIGADO ao moço que agora traz trecho do livro "O Teatro é uma Paixão, a Vida é uma Emoção" onde alusão é feita ao tema de hoje, não em versos mas em prosa.
Se, por satisfação minha, "Feiticeira que tudo sabe" saiu hoje por gentileza do Manuel Brito Semedo, a quem renovo os meus agradecimentos, vai também o meu reconhecimento ao Adriano.
Um braça rije.

De Valdemar Pereira a 15.11.2011 às 20:59


Brincando, brincando, é que o macaco ...



Meu Caríssimo Amigo Adriano: - Fico completamente sem fala com o teu comentário sobre esta dissertação sobre Saudade. Nunca pensei que uma "brincadeira" ia merecer os elogios que recebo com imenso orgulho e, se não te conhecesse, pensaria ser uma brincadeira como costuma fazer o "amigo Cleonice".
Se o meu escrito merecer alguma atenção de leitores, mesmo anónimos, fico feliz mas - garanto-te - numa me posicionarei para os lugares de que falas.
Obrigado pelas tuas palavras e pela coragem de as deixar neste lugar de muitos passantes.
Outro obrigado ao Brito Semedo que disponibilzou o seu blog cultural.

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