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Nocturno de Mindelo

Brito-Semedo, 15 Nov 11

 

- Fátima Bettencourt, Praia

 

Na minha meninice cheguei a alimentar alguns complexos ligados ao lugar que ocupava na sequência dos filhos. Situada entre dois irmãos, eu sabia que não me eram devidos nem o respeito de primogénita nem os privilégios de codé. Isso não só me incomodava como aguçava a minha atenção aos mais ínfimos detalhes do tratamento dedicado aos manos, o que, com o tempo me granjeou a fama de atrevida e rebelde. Consolava-me o facto de ser a única menina da casa, mal sabia eu quanto tal distinção seria penalizadora para mim, pelo menos no que tocava a tarefas domésticas.

 

A minha infância passada no campo não me dava tempo de alimentar traumas, pelo contrário, acabei conquistando certas regalias do reino masculino, tais como participar em provas de corridas de cavalos em que estes eram substituídos por paus de vassoura e apanhar ninhos de pardais, sendo certo que a clandestinidade que envolvia esta última actividade, mais me ajudava a impor uma igualdade que para os meninos machos da casa, era sempre discutível.

 

Rua de Lisboa, Foto MonteCara Soncent

 

Por tudo isso o meu susto não foi tão grande quando, muitos anos mais tarde, descobri que psicólogos e investigadores estavam debruçados sobre o chamado “fenómeno do filho segundo”.

 

Já me constara que filho único e gémeos eram objectos de estudos, mas filho segundo era novidade se bem que não surpresa, pois eu há muito desconfiava de qualquer coisa estranha em relação a essa faixa do meio. Dizem os especialistas que o tal segundo poderá eventualmente sentir-se mal amado, que não recebe todas as atenções a que se julga com direito, poderá eventualmente ter dificuldades em triunfar e por aí fora, uma série de possíveis limitações não decorrentes da carga genética, mas tão somente do lugar que lhe coube na ordem dos filhos. Parece incrível que um factor tão aleatório tenha o poder de marcar pela vida fora um indivíduo se ele não souber utilizá-lo a seu favor.

 

Durante anos tive grandes dúvidas sobre as conclusões de tais estudos, mais parecidas com invenções da psicologia que não pára de descobrir teias de aranha em recantos perfeitamente limpos. As minhas dúvidas só sumiram quando tive os meus próprios filhos e vi que os estudos afinal estavam certos.

 

Todos esses considerandos foram passando pela minha cabeça enquanto eu voava numa viagem tão rápida quanto inútil a Mindelo onde eu deveria fazer umas entrevistas que, atropeladas por imprevistos, se revelaram quase todas inviáveis deixando-me algum tempo livre para olhar a cidade, essa sim minha ocupação preferida ou passatempo se assim quiserem. Adoro andar por aquelas ruas e pracetas, falar com as pessoas, ver o tempo passar suavemente, até para atravessar a rua não há pressa, tudo muito calmo numa modorra que eu não sei se teria paciência para suportar por muito tempo.

 

Rua da Praia de Bote (Transversal), Foto Joaquim Saial

 

É certo que ainda não experimentei ficar um mês inteiro naquela valsa lenta, e assim sendo não posso fazer uma avaliação baseada apenas em teoria. Limitar-me-ei a conjecturas feitas com algum pessimismo, confesso. Que vejo eu ao olhar para a ilha parada? Exactamente uma filha segunda cujas qualidades não são vistas nem reconhecidas; uma filha segunda que dificilmente estará nas prioridades de quem quer que seja; uma filha segunda que não conseguiu superar o trauma de o ser para capitalizar o que tem de bom e só ela sabe que tem; uma filha segunda que vai morrendo de inanição enquanto se injecta mais sangue em quem está saturado de glóbulos vermelhos.

 

Dizia-me uma velha senhora da antiga elite mindelense que a cidade já não tem vida social. Triste e desanimada, a senhora de mais de novente anos vai morrer atravessada porque chegou-lhe desde há muito a certeza de que Mindelo é um caso irrecuperável.

 

Foram baldadas as minhas tentativas de levantar aquela moral abaixo do chão porque a minha amiga logo refutava com lógica demolidora: “Sabe porque os mindelenses falam tanto do passado? É porque é tudo quanto têm”. “Mas a cidade nunca foi tão bonita e acolhedora...” – dizia eu em desespero de causa, ao que ela, com a lúcida resposta na ponta da língua, me atingia em cheio com as suas palavras: “Não é por aí! O lugar mais lindo que eu já vi em toda a minha vida foi um cemitério, o que prova que beleza e calmaria podem muito bem significar morte”.

 

Enquanto eu conversava com a minha velha amiga e observava como se esforça para se manter digna e lúcida com cidade caminhando no mesmo passo, não pude deixar de pensar no conto de Baltasar Lopes, entre todos o meu preferido, “Nocturno de Dona Emília de Sousa”. Como a decadência foi minando a personagem de BL e como ela conseguiu manter a dignidade num jogo de faz-de-conta que ignorava a sala vazia de senhoras finas à hora do chá, a gravata desfiada de Estêvão, o caruncho na alma.

 

Deixei a minha amiga sentindo-me um pouco deprimida, porque uma coisa é vermos a realidade e outra bem diferente é ela nos ser apontada por terceiros. É assim que se vai o último resquício de ilusão de que a nossa percepçãp possa estar errada. Ao caminhar de novo pelas ruas assumi que a razão da minha tristeza talvez fosse outra. Afinal por alguma razão aquela sensação de proximidade de Nha Milita permanecia comigo. Era a própria cidade que eu associava a Dona Emília de Sousa da Casa de Chã de Abrantes.

 

 

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4 comentários

De Joaquim Saial a 15.11.2011 às 23:25

Bom texto, apenas com um reparo na segunda imagem. A foto é de Joaquim Saial, ou seja, desse mine li... Sei que foi mero descuido mas aqui fica a autoria exacta. Ainda por cima, sendo o sítio que é... o sítio mais especial dos sítios especiais do Mindelo, ali mesmo em frente à minha casa, nessa; saborosíssima Avenida da República que já foi de Portugal e agora é e bem de Cabo Verde (ou Rua de Praia).

Forte braça,
Djack d'Captania

De Brito-Semedo a 15.11.2011 às 23:45

Sorê, Bróda! O seu ao seu dono, Rssss!!! Esta foto sua está no lote das fotos do MonteCara Soncent publicados no FaceBook, daí o engano. Obrigado pela correcção! Braça!

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 16.11.2011 às 17:15

Nesta Esquina do Tempo aparece textos tao agradàveis tao suave de leitura ,que nos transporta fazendo-nos reviver por uns momentos ,aqueles bons tempos que me obriga a repetir esta frase - que jà nao voltam mais - Esta cronica de Fatima Bettencourt ajusta-se e confirma no que acabo de escrever. Um Criol na Frânça ;Morgadinho !..

De Joaquim Saial a 15.11.2011 às 23:29

E ali na esquina, o velho botequim do Faustino, hoje "Boca de Tubarão". Mais adiante, era o da Luz, Logo a seguir, a velha casa do Firrim, mas antes a Rua de Matijim, à direita o quintalão da Vascónia (Ferro & Cia.)...

Oi nha mãe, tonte sôdade...

Djack

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