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Bilinguismo.jpeg

VIII

 

Depôs que nô passá quês îa Canária,         

Q'otr'óra ês dá nôme de Furt'náde,    

Nó'ntrá tá navegá lá pa quês ága      

Quês térra onde mute maravia nôve  

Nosse navi de guêrra j'andá t'oiá:

Lá nô ribá c'um vintim favoréve

Pa nô t'mésse na quês térra mantmente.

 

IX

 

Nòs antrá na pôrte d'un d'aquês îa,

Q'tmá nôme d'aquêll guerrente'Sam Thiágue,

Sánte q'ajdá mute naçom spanhòl

Fazê n'aquês geste môr mute strágue

D'êi, q'ande soprá um vintim de Nôrte,

Nô torná t'má noss'camim socégáde

Na mêi d'aquêll mar, e assim nô bá d'xande

Quell'terra, onde nô ochá refrésque sabe.

 

Esta é uma tradução em Crioulo, na variante da ilha de Santo Antão, do Canto 5º, Estâncias VIII e IX, d’Os Lusíadas, datada de 1898, de autoria de um dos mais ilustres filhos dessa ilha, o Cónego António Manuel da Costa Teixeira (Santo Antão, 1867?-1919), que foi editor do Almanach Luso-Africano (S. Nicolau, 1895 e 1899) e da revista literária A Esperança (S. Nicolau, 1901). 

 

Um outro exemplo bem sucedido de Luís de Camões, agora na variante da ilha Brava, é o poema "Bárbara, Bonita Scrába", das Endechas de Camões à Bárbara Escrava, publicado em 1893, de autoria de Eugénio Tavares (Brava, 1867-1930), “o maior poeta cabo-verdiano de língua crioula” – agora musicado por “Djick”, Henrique de Oliveira, em versão inédita, que no-lo apresentou em Novembro passado:

 

Quêl bonita scrába,

Qui teném câtibo,

Pamô n’ dál nha bida,

Cá crê pan stâ bibo.

Tê hoje n'c ôlhâ rósa

Num môta berdinho,

Qui mé na nhá olho

Parcém más sabinho.

 

Nim ramo na campo,

Nim strella na ceu,

N' ta áchâ tam frumóz

Cumâ nha crê cheu.

Rôsto só di sel;

Olho madornádo,

Preto, stancadinho,

Má sem ser misiádo.

 

..................................

 

Arinho tam sábe,

Pintura de amôr,

Qui nebe jurál

M’ el ta trocá côr.

Mansura contente,

Má seria lá mé...

Ta parcê bem stranho,

Má brabo el cá é.

 

Cá estão dois modelos acabados de uma manifestação do bilinguismo, para os quais chamo a vossa atenção. Primeiro, para um perfeito domínio de utilização das duas línguas em presença e, segundo, para a plasticidade e a expressividade do então chamado “dialecto crioulo”, no contexto de uma situação de comunicação altamente sofisticada em língua portuguesa, como é o caso da poesia de Luís de Camões.

 

Antes de prosseguir, conviria talvez clarificar o conceito de bilinguismo aqui utilizado. Para isso, recorro ao linguista, mais à mão, Manuel Veiga, que explica que só se é verdadeiramente bilingue quando, “para além da língua materna, se domina, em qualquer contexto ou circunstância, uma outra língua, e com a mesma ou quase a mesma competência e eficácia que a língua primeira confere”.

 

A minha presença aqui hoje, para além da amizade que me dedica o autor, que agradeço e muito me honra, tem a ver com a possibilidade de prestar à apresentação d’A Construção do Bilinguismo uma leitura de perspectiva etnolinguística, pela dupla função de etnólogo, que trabalha as questões da identidade, e de Director Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP)[i], que tem como objectivos fundamentais a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da Língua Portuguesa.

 

Dito isto, gostaria de esclarecer que qualquer tomada de posição em defesa intransigente de qualquer das línguas – a Cabo-verdiana e a Portuguesa – é um serviço que se presta à valorização de cada uma delas, ao ensino e ao processo de construção de um bilinguismo efectivo em Cabo Verde.

 

Sobre esta questão, logo no pórtico do seu livro, Veiga apresenta a sua tese:

 

“Ninguém pode ignorar que tanto a língua portuguesa como a caboverdiana, embora de formas diferentes, corporizam a nossa história, enformam a nossa cultura e moldam o nosso modo de estar no mundo. A afirmação e a valorização dessas duas línguas, mais do que um dever cívico, é uma exigência cultural e uma necessidade ambiental”.

 

E é com base na concordância desta enunciação que procurarei fazer breves considerações sobre o desequilíbrio linguístico e cultural vs. busca de equilíbrio identitário.

 

O DESEQUILÍBRIO LINGUÍSTICO E CULTURAL

 

Com a chegada do branco e do negro às Ilhas de Cabo Verde, confrontando as duas culturas em presença no mesmo espaço limitado e de convivência, terá ocorrido em ambas as raças um duplo processo: por um lado, a desintegração e,por outro, a nova organização das suas identidades culturais.

 

Para além disso, todo esse ambiente terá proporcionado ao mestiço nascido do cruzamento das duas culturas, ainda sem uma identidade étnica definida, o confronto entre as diferenças culturais dos seus progenitores – a europeia do pai e a africana da mãe – e criar uma identidade cultural própria, a cultura crioula, que se caracteriza essencialmente por um sentimento de diferença, e que os teóricos classificam de “cultura compósita”.

 

Nesse processo de aculturação, ou de contacto de culturas, terão operado simultaneamente forças que terão actuado em direcções opostas, umas tendendo para a manutenção de particularismos, outras agindo no sentido da convergência e da afinidade.

 

A individualização cultural ou a identidade do homem cabo-verdiano, muito cedo definida, adveio desta sua mista realidade. Jorge Barbosa (1935) canta no poema "Povo" essa originalidade crioula:

 

Conflito numa alma só

de duas almas contrárias

buscando-se, amalgamando-se

numa secular fusão;

 

conflito num sangue só

do sangue forte africano

com o sangue aventureiro

dos homens da Expansão;

 

conflito num ser somente

de dois pólos em contacto

na insistente projecção

de muitas gerações...

 

 

O grande filólogo Rodrigo de Sá Nogueira (1957) defendeu que “a escalpelização dos vocábulos de uma língua [...] é uma fonte inesgotável de informações do maior alcance científico para o conhecimento da psicologia, da história, da etnografia, de vários fenómenos sociais básicos, do povo que fala essa língua". Na linha do Mestre, Baltasar Lopes (1957) considera que o crioulo de Cabo Verde é um “fenómeno cultural” fundamental da sua identidade. Contudo, por várias vezes, e em diferentes momentos políticos, as autoridades coloniais procuraram proibir o seu falar nas escolas.

 

Mais do que uma questão de dominação política, num contexto colonial, recorrentemente invocado, a razão de base para essa medida seria de ordem didactico-pedagógica, devido às inúmeras contaminações que se registavam ao falar o português, a língua veicular da instrução, resultante do contacto entre este e o crioulo.

 

Assim, neste contexto de desequilíbrio linguístico e cultural, não é de estranharque entre as várias medidas tomadas para banir o crioulo do sistema da educação, desde o Século XIX, esteja o "Regulamento Interno do Liceu Central D. Henrique", publicado em 1932, regulamento esse que estabelecia, no seu Artigo 3.º, a expressa proibição de se falar crioulo dentro do edifício do Liceu. E como estas questões não se resolvem por decretos, em 1957, o então reitor do Liceu de S. Vicente, o filólogo e escritorBaltasar Lopes, baseado na sua experiência de professor de português, testemunhava: “Verificamos que o crioulo já oferece hoje aos alunos imensas possibilidades expressionais. Eu já ouvi à saída de exercícios de Matemática e até de Filosofia os alunos a discutirem sobre o exercício em crioulo”.

 

BUSCA DE EQUILÍBRIO IDENTITÁRIO

 

Logo na introdução do seu livro, o linguista Manuel Veiga explica que o objectivo do seu trabalho consiste em “propor uma verdadeira paridade sociolinguística entre o Crioulo e o Português” e que se dá por satisfeito se “os ‘decisores’ da política linguística em Cabo Verde acharem razões para aprovarem e para agirem no sentido das propostas avançadas” (p. 13).

 

Estando actualmente o Autor exercendo a função de Ministro da Cultura, logo, no papel de ‘decisor” da política linguística do País, a questão da implementação das propostas de valorização do bilinguismo aqui formuladas saltou para o centro do debate. Assim, A Construção do Bilinguismo não poderia ter surgido em melhor altura para ajudar a clarificar algumas posições, rebater eventuais opiniões mal fundamentadas e apaziguar os ânimos dos mais puristas.

 

Entretanto, fica um outro aspecto da mesma questão, o ensino, a aprendizagem e o domínio da língua, que é como quem diz, uma nova pedagogia do ensino do Português em Cabo Verde, já a nível do actual Ensino Básico Integrado (EBI), para não falar a nível dos jardins-de-infância. Chamo à liça o Ministério da Educação, que deve ter um papel importante e activo nesta matéria, cuja finalidade deve ser, entre outras:

 

  • Fazer com que os alunos adquiram um conhecimento satisfatório da língua corrente e sejam capazes de falar correctamente a língua portuguesa;
  • Familiarizar os alunos com as diferentes utilizações da língua, de modo que sejam capazes de reagir a uma determinada situação, empregando os enunciados linguísticos que nela se integram;
  • Habituar os alunos a pensarem em português, impedindo que, inconscientemente, recorram à tradução do crioulo para o português, o que os levaria a erros sistemáticos de contaminação, os quais devem ser evitados;
  • Levar os alunos a verem a língua como um todo, em que a unidade funcional não é a palavra, mas o sintagma.

 

Temos hoje em dia a percepção de que a dificuldade no domínio da língua portuguesa é uma das causas do baixo nível a que chegou o ensino, o que se traduz no insucesso ou baixo rendimento escolar. Aguarda-se, pois, uma tomada de posição e uma definição de estratégias para o efeito. Existe vontade política para tal? Estamos em crer que sim! Haverá recursos financeiros disponíveis para isso? Talvez não! Penso, contudo, ter chegado a hora de uma tomada de posição clara de equilíbrio linguístico e cultural, de co-oficialização das duas línguas, que expressam a nossa identidade crioula.

 

CONCLUSÃO

 

Volto às palavras do linguista Manuel Veiga, desta vez para terminar:

 

“Ao português que já é língua oficial e de situações formais de comunicação, torna-se necessário alargar o seu ensino e conferir-lhe o estatuto de língua do quotidiano informal, em paridade com a Lcv. Quanto à Lcv que já é língua do quotidiano informal, há que reconhecer-lhe o estatuto oficial em paridade com a Lp, reforçar o seu uso formal e implementar o seu ensino, do primário ao universitário. (…) Tal política linguística é uma exigência da nossa história, da nossa cultura e da nossa identidade. (…) Por isso, fica aqui o nosso apelo aos governantes, aos políticos, aos professores, aos escritores e artistas, aos tradicionalistas e à população em geral: assumamos sem complexos o bilinguismo caboverdiano” (p. 129).

– M. Brito-Semedo

 

Título: A Construção do Bilinguismo

Autor: Manuel Veiga

Edição: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
Ano de edição: Praia, 2004

 


[i] Texto escrito em Janeiro de 2005.

 

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2 comentários

De João Branco a 21.02.2010 às 02:15

Excelente. Aliás, como ainda não tinha dito, faço-o agora: a tua entrada para o universo da blogosfera crioula vai, certamente, tornar este universo mais rico e esta partilha mais prazeirosa.

Abraço!

De Brito-Semedo a 21.02.2010 às 08:24

Caro JB,
Como mais velho nestas andanças, conto com o teu apoio com sugestões e críticas. Logo pela manhã, começo o meu dia com um bom trago de Café Margoso, made in SonCent.
Fká dret e bijin pa kes mnininha bnita lá de casa!

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