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Num fim de tarde de domingo

Brito-Semedo, 4 Dez 11

 

- Jorge Joe Martins, Portugal

 

Num fim de tarde de domingo, final de Novembro, numa Lisboa que, fria de temperatura, é quente de emoções.

 

Com pouco para fazer, rumámos, em boa companhia, à Amadora, para ouvir um pouco de música.


Música de CV, descomprometida, num ambiente quente, daqueles que nos aquece a alma e nos reconforta, nessa saudade imensa que teima em ficar como o musgo preso às fragas.

 

Snack Bar Trópico, propriedade de um exímio, mas anónimo executante de violão, que tem o prazer de nos receber, rodeado de alguns dos maiores executantes das formas tradicionais da música de CV e brindar-nos com um fim de dia inesquecível.


Armando Tito, um dos últimos que teima em manter viva a forma tradicional de executar o violão de Cabo Verde; o Djudjuti Alves, no cavaquinho, que ora nos sacode num frenético funaná ou coladera, ou nos penteia a saudade, no doce embalar duma Morna; o Adérito, de uma segurança e fidelidade à matriz da execução do violão cabo-verdiano, são os artistas da Casa, que acompanham uma das grandes vozes masculinas de CV, o Mário Rui.


Mas isso não foi tudo. Entre uns torresmos, um Cartuxa tinto e uma cachupa guisada com ovo estrelado, aparecem quase que vindos do nada, Rolando Semedo, enorme executante, por quem nutro grande amizade e respeito e alguns pontos de vista comuns,sobre o panorama musical de CV, o Zé António, que não precisa de apresentações e, essa Estrela que, começa a aparecer um pouco por alguns palcos onde se apresentam os interpretes de CV, um jovem de 22 anos, o Stephan.

 

Um tanto envergonhado, humilde no trato, que julgo ser uma característica familiar.


Já era assim com o avô, o Grande Mestre Baptista, exímio construtor de instrumentos de cordas em Mindelo, que conheci muito bem, visto ser ele o afinador do piano lá de casa, que eu em criança, observava, meio encantado e, de quem guardo religiosamente um Violão da sua oficina, mas sem o engenho e a arte de o poder acariciar com a delicadeza merecida.


Continuou, nessa senda o Filho do Mestre Baptista, o Baúu que só se faz notar quando, e quase em forma de catarse, faz vibrar as almas que habitam os instrumento de que se rodeou, desde criança.

Stephan é isso tudo. A delicadeza do avô e o talento herdado do pai, bem como os traços de carácter, numa explosão de talento puro, que ao lhe ser solicitado que nos faça o favor de interpretar uma música, nos pede desculpas se acaso o não faça com a qualidade que ele acha que se lhe exige.

 

E foi assim que, durante quatro horas, me deixei levar, transportado nas asas de mil sonhos, pelas ruas da minha cidade, da minha adolescência e da minha eterna saudade - Mindelo e Cabo Verde – que afogo os domingos, num Snack Bar algures na Amadora, por entre os meus.

 

Foto Jorge Martins. Amadora, no Snack-Bar Trópico

Esse, é um outro Cabo Verde, que habita longe das luzes. Ainda bem que assim é.

 

Lisboa, 2011-11-21

 

 

 

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8 comentários

De Aguinaldo Vera-Cruz a 04.12.2011 às 13:38

Li a crónica do meu amigo Djô e como ele sabe, que não gosto de deixar passar nada em claro, aqui venho chamar a atenção para o seguinte: uma crónica que começa e fala de musica ilustrada por uma foto sem musica !  :D
Grande abraço, Djô !! 

De Jorge Joe Martins a 04.12.2011 às 13:59

Caro Guy,

Agradeço o coment e o reparo, mas o importante foi passar o ambiente porque uma imagem de músicos por ser estática, talvez não transmitisse o clima, só entendido pelos que, como tu, conhecem e sentem no sangue o pulsar da Morabeza...

Um abraço

De João Carlos a 04.12.2011 às 15:15

Se numa dessas tardes "crioulas", alguém tiver a ideia de fazer uma sessão de declamação de poesia, recomendo que dêem a vez, ou a voz, ao autor deste artigo, o meu Tio Zoy, um dos melhores declamadores que já tive oportunidade de ouvir. 


Filho de um laureado poeta, que conheci, li, mas não "ouvi", senhor de um olho clínico e aguçado, perpetuado pelas pérolas que "arranca" das suas objectivas, e de "mão leve" na pena, Jorge Martins, o meu Tio Zoy, é também um exímio declamador (se é que esta palavra existe).


No meio de tanta gente que sabe cantar, sentem-se por favor, para ouvir quem sabe "falar".


Uncle Zoy, um caloroso abraço, daqui deste frio londrino.


Beijo Grande


Ti Joannes

De J J Martins a 05.12.2011 às 11:17

Tio Joanes,

Já vieste arranjar um 31, aqui ao Tio Zoy. Um abraço com saudades de te ver e de te dar um abraço.
Sempre que encontro o Denha, pergunto por vocês todos.

Mantenhas

De ZITO AZEVEDO a 04.12.2011 às 19:43


Olá, Joe...Um grande obrigado pelo quadro quase poético da nossa terra, da nossa gente,  da nossa musica (à nossa moda), da nossa saudade...
Que a Mora beza esteja contigo e com todos nós...
Ziro Azevedo

De Jorge Joe Martins a 04.12.2011 às 20:36

Zito, obrigado pela tua Morabeza... e experimenta ir ao Trópico, num fim de tarde de domingo e de certeza, irás voar em sonhos e revisitar as tuas memórias e saudades, da Nossa Terra.

Bjs para a Maiuca e aquele abraço fraterno.

J.J. Martins

De Adriano Miranda Lima a 04.12.2011 às 23:17

Bravo, Joe! Sem sair de Lisboa, melhor cicerone não teríamos para nos reconduzir às ruelas e botequins do Mindelo, com os seus sons e os seus cheiros, o seu chamamento e o seu feitiço, mas sobretudo com aquela música saudosa que escorre em cada esquina. Ficamos a conhecer nomes  que já se consagraram e outros que despontam no panorama musical, com promessa de enriquecerem ainda mais um filão que não obedece a nenhum tempo ou lugar, de Lisboa a rua da Canecadinha, de Roterdão a Monte Sossego. 
Fico é curioso de te ouvir declamar um dia destes, conforme a denúncia desafiante da tua querida sobrinha.

De J J Martins a 05.12.2011 às 11:14

Bom dia Adriano,

Obrigado pelas palavras amigas e simpáticas.
Quanto a ouvir-me declamar, julgo que dificilmente, pois, fruto da amizade que o meu sobrinho putativo João Carlos, nutre por mim, o leva a ter essa amabilidade, na apreciação.

Um abraço e, espero que nos encontremos um destes dia. O virtual, não preenche a necessidade de um cara a cara.

Mantenhas aos teus.

Jorge (Joe) Martins

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