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A dimensão política polémica da figura do Professor Doutor Adriano Moreira (n. a 6 de Setembro de 1922), antigo Ministro do Ultramar de Oliveira Salazar (1933-1974), ofuscou a dimensão académica da atribuição do título de Doutor Honoris Causa pela novel Universidade do Mindelo, com a infeliz coincidência de ter sido marcada para o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

 

Num país onde ainda não existe uma Academia estabelecida nem praxes académicas correspondentes (togas, simbolismos, espaços próprios), a Universidade do Mindelo, uma universidade criada há menos de um ano, portanto, com os seus órgãos de governo a serem instalados ou em consolidação, com uma grande percentagem de docentes apenas com o grau de licenciatura e praticamente sem doutores – o próprio Reitor, Eng.º Mecânico Albertino Graça, recebeu este grau em Ciências Sociais por estes dias – atribui o "Primeiro Honoris Causa do País".

 

Caso para se dizer que o acontecimento é mais uma brincadeira de Carnaval do que outra coisa! Por outro lado, o Professor Doutor Adriano Moreira, enquanto académico, não precisava dessa (des)"honra" que, ao fim e ao cabo, é mais importante para quem a atribui. É de questionar, ainda, o facto de o Ministério do Ensino Superior, Ciência e Inovação se ter feito representar no acto com ninguém menos do que o seu próprio Ministro, Doutor António Correia e Silva, que assim sancionou a iniciativa.

 

(Notícia saída no Jornal da Noite na TCV).

 

Para contrapor à corrente oportunista à volta da figura do Professor Doutor Adriano Moreira, cujo projecto colonial um outro português, Professor Doutor Alfredo Margarido (Lisboa, 1928-2010), combateu na época, o "Na Esquina do Tempo" publica um texto biográfico deste, de autoria de Luiz Silva: Alfredo Margarido: O Lusófono Necessário para a Lusofonia.

 

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 – Luiz Silva, Paris

 

Um grande número dos leitores de Alfredo Margarido, inclusive africanos, pensam que se trata de um escritor caboverdiano ou angolano, devido à dimensão da África não só nos seus estudos e ensaios, mas também do seu apoio à luta de libertação dos povos das antigas colónias portuguesas deste continente. Houve quem me tivesse dito que até pensava que o Margarido fosse negro. Na verdade, Margarido viveu a África, por dentro e por fora, numa fraternal solidariedade com os africanos das colónias portuguesas, em Lisboa, na Casa dos Estudantes do Império e mais tarde em São Tomé, Angola, Moçambique, Cabo Verde e nas diásporas lusófonas.

 

A literatura, dizia Margarido, teria sido o único espaço para o debate “entrelinhas” de ideias e propostas no sistema salazarista. Assim, a sua obra, o seu pensamento político começa por passar pela literatura iniciada em Portugal nos anos cinquenta do século passado antes de encontrar todas as liberdades em França, passando da literatura dos países africanos de língua portuguesa à historia e política coloniais, economia, sindicalismo, escravatura, resistência anti-colonial, sempre com um rigor crítico que nem sempre agrada aos próprios africanos. E é nesse aspecto que ele se diferencia pela sua ousadia e independência da maior parte dos críticos literários do período colonial, sem medo de desagradar aos censores, aos fiéis do sistema colonial e do partido único, para ir ao fundo dos problemas dos países colonizados.

 

A influência de um grande intelectual francês como Jean Paul Sartre, a quem ele dedicou um ensaio em Portugal, foi importante nas suas escolhas políticas. Alfredo Margarido pertence a uma geração do após Guerra que apostou na luta anti-fascista e que mais tarde se estendeu, nem sempre com facilidades, à luta anti-colonial. Foi dessa aprendizagem com anti-fascistas portugueses e africanos, como Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto e de Cruzeiro Seixas (artista plástico português a residir em Angola), que iniciou o seu combate a favor da autodeterminação dos povos africanos. Mas, enquanto que o grupo africano partia para a Europa nos anos cinquenta à procura de armas teóricas para melhor avançar para a luta política e armada, ele fazia o percurso inverso, partindo para a África, com vivência demorada em São Tomé e Príncipe e Angola, de onde será expulso pela administração colonial, por denunciar o luso-tropicalismo e os efeitos colaterais de uma absurda colonização que não aceitava a igualdade racial e nem a descolonização.

 

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Margarido teve um papel importante na Casa dos Estudantes do Império, que seria fechada em 1965 devido à atribuição de um prémio literário ao escritor angolano Luandino Vieira. Organizou várias antologias de poesia dos países africanos e ganhou mesmo um prémio literário em 1962 por um ensaio dedicado ao poeta angolano Agostinho Neto. Também, sem assumir qualquer responsabilidade, apoiou o ensaio de Onésimo Silveira “Consciencialização na Literatura Caboverdiana”, um ensaio ainda polémico; e a ele se deve a maior divulgação em França e no mundo do poema nacionalista “O Capitão Ambrósio”, da autoria de Gabriel Mariano, que trouxe clandestinamente de Portugal. Em Paris, a partir de 1964, continuou ligado à literatura dos países de língua portuguesa, tendo publicado uma antologia na livraria Presença Africana, dirigida pelo senegalês Alioune Diop, livraria essa que foi o refúgio de todos os homens políticos africanos, principalmente das colónias portuguesas, como Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral e outros. Influenciou muitos jovens escritores das colónias portugueses ao nível da poesia , do ensaio e das artes plásticas, numa perspectiva da luta de libertação, o que marcou a revolução cultural nos respectivos países depois das Independências.

 

Desde os anos cinquenta, Alfredo Margarido aparece na imprensa caboverdiana através do Boletim de Cabo Verde, dirigido sabiamente pelo advogado Bento Levy, onde comenta as obras dos poetas e romancistas Claridosos que mais tarde foram incluídos no seu livro “Estudos sobre literaturas das Nações Africanas de Lingua Portuguesa”. Para o grande escritor caboverdiano António Aurélio Gonçalves, Alfredo Margarido era um crítico muito exigente mas que possuía um lugar especial na crítica da literatura dos países de língua portuguesa.

 

Conhecemo-nos nos meses que seguiram ao movimento dos estudantes de Maio de 1968 onde teve intervenções nos debates e reuniões que marcaram o movimento. O historiador Marc Ferro, de quem foi um grande colaborador, considerou-o como uma das figuras mais importantes dos debates universitários durante aquele período revolucionário de Maio de 1968. Comecei por frequentar a sua casa ao lado da Praça de Saint Michel, onde recebia estudantes das colónias portuguesas e muitos amigos portugueses, de que destaco o nosso Branquinho Pequeno, sempre de bom humor e aberto a todas as discussões. Depois residiu na Rua de Saint Hilaire, em seguida na rue Fagon em Paris V e ulteriormente na rua de l’Essai onde permaneceu até regressar definitivamente a Portugal, mas vivendo sempre perto do Quartier Latin que tanto marcou a sua vida universitária e política.


Teve também um papel importante ainda nos princípios dos anos setenta na introdução do ensino das literaturas dos países de língua portuguesa na Faculdade de Paris VIII – Vincennes a convite do Professor José Terra, do Departamento de Português. A introdução desta matéria nos estudos universitários ajudou muito os estudantes a descobrirem a verdadeira história dos respectivos países. Margarido incentivava os seus alunos caboverdianos, guineenses, angolanos, moçambicanos a fazerem teses e mestrados, como foi o meu caso, a lançarem-se no movimento associativo e a debater os problemas coloniais, pondo a sua biblioteca à disposição de todos. Em 1973 é convidado por Jean Copans a colaborar num célebre volume sobre a crítica da antropologia e do imperialismo, editado em 1975 pelas edições François Maspero, que põe em questão o papel da antropologia ao serviço do colonialismo português e do imperialismo. Ele demonstra que a antropologia nem sempre esteve ao lado dos combatentes da liberdade e acusa alguns antropólogos portugueses de terem fornecido as armas teóricas para a guerra colonial. E denuncia em especial o luso-tropicalismo, ou seja a falsa antropologia do brasileiro Gilberto Freire, que fazia do Brasil o modelo de integração racial quando foi o último país da América do Sul a abolir a escravatura. Aliás, teve desde 1957 um associado na crítica contra o antropólogo brasileiro Gilberto Freira na pessoa do poeta e romancista caboverdiano Baltasar Lopes da Silva, que escreveu “Cabo Verde, visto por Gilberto Freire”. O antropólogo brasileiro em visita às colónias portuguesas, a convite do Governo de Salazar, teria tecido alguns dislates sobre a cultura caboverdiana. Mais tarde, a partir de 1975, acompanhei-o no Centro de Recherches Africaines da Sorbonne, onde esteve associado a Michel Devisse, Yves Persan, Jean Boulègue em cursos sobre a história da África e de onde saíram alguns historiadores africanos, inclusive das antigas colónias portuguesas e mesmo de Portugal.

 

Os acontecimentos do 25 de Abril, que pôs termo ao regime de Salazar e abriu as portas à Independência das colónias, não o surpreenderam. Não, como muita gente pretende, que ele estivesse informado da intervenção do Movimento das Forças Armadas por um almirante estar casado com uma irmã dele, mas sim como resultado das suas próprias análises políticas. Era da opinião de que nenhum regime colonialista por mais forte que fosse a nível militar tinha conseguido triunfar contra os movimentos de libertação e que o regime cedo ou tarde iria também cair, como já tinha acontecido com os franceses ou os americanos no Vietname. Outro aspecto importante e que prova a sua fidelidade aos ideais da liberdade : manteve-se distante em relação aos governos estabelecidos nas antigas colónias portuguesas a partir do momento que se criaram os partidos únicos segundo o modelo leninista, embora as várias solicitações e convites dos governos que tão bem conhecera durante a luta de libertação.

 

Margarido reconhecia a influência da França no seu percurso literário e universitário. Dizia que a França o tinha transformado, afastando-o assim da literatura. Aqui conheceu novas disciplinas, teve excelentes professores e amigos, que foram determinantes na sua carreira universitária, como os historiadores Elikia M’bokolo, Jean Dévisse, Claude Meulassous, Jean Boulègue, Jean Pierre Chrétien, Marc Ferro, Henry Persan, Catherine Coquery-Virdrovich, e antropólogos como Jean Copans e Roger Bastide e outros.

 

Dizia sempre que a Independência não resolvia tudo e que teríamos de estar preparados para outros problemas: se como anti-fascista e anti-colonialista se venceu um combate contra o salazarismo e o colonialismo não estava convencido da libertação imediata da herança colonial ou do suicídio das classes como preconizara Amílcar Cabral durante a luta nas matas da Guiné Bissau. E a história deu-lhe razão. Admirador confesso da obra de Fernão Mendes Pinto, escreve em 1994 “As surpresas da flora no tempo dos descobrimentos”, a demonstrar que não foram somente as riquezas do subsolo e da escravatura que enriqueceram a Europa, mas também os conhecimentos técnicos trazidos das viagens e a descoberta de novas civilizações que modernizaram a Europa. Também a botânica e a culinária europeia receberam novas plantas que os marinheiros trouxeram da sua aventura pelo mundo e que revolucionaram a gastronomia, como a mandioca, a batata, o ananás, o cajueiro, feijões, tabaco, milho, o cacau das Américas, a malagueta do Senegal, a banana do Congo, a cola da África, a canela, o coqueiro, a noz moscada, o cravo, as mangas, o chá da Ásia, todas essas plantas trazidas no bojo dos navios portugueses que transformaram o Mundo e serão a maior contribuição das descobertas marítimas portuguesas para a humanidade.

 

Uma outra preocupação de Alfredo Margarido foi a de estreitar as relações entre Portugal e o mundo lusófono. Na emigração, viu novas relações de solidariedade entre os emigrantes lusófonos e tirou as lições necessárias para uma nova lusofonia. Frequentava os bidonvilles da região parisiense, onde viviam emigrantes de todas as origens e, desses contactos fraternos, tirou o célebre ensaio “Elogio do bidonville” (ver Latitudes n°5) em que demonstra a solidariedade e a riqueza espiritual dos portugueses e outras comunidades que ali viviam. Enquanto que muitos sociólogos somente viam a miséria material dos emigrantes nos bidonvilles, ele descobria uma grande riqueza espiritual nos emigrantes, solidários e unidos na luta pela emancipação económica e espiritual. Para que Portugal fosse pluricontinental no plano cultural e espiritual, teria de romper com o passado colonial que foi horrendo nas suas colónias e criar novas dinâmicas sociais, económicas e culturais e estabelecer relações de respeito e fraternidade com os povos dos outros continentes que sempre exigiram dignidade e respeito. E quando após a Independência de Cabo Verde os emigrantes caboverdianos, que tanto tinham investido em Portugal na construção urbana, viram serem-lhes negado a renovação dos passaportes portugueses pelo facto de não poderem provar a origem portuguesa ou, melhor, por serem pretos (o que provocou desempregos e mesmo expulsões destes dos países da União Europeia), Margarido entrou de novo na luta, condenando o Governo Português e as suas embaixadas e consulados.

 

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No ano de 2000 publica “A lusofonia e os lusófonos : novos mitos portugueses”, com uma critica actual à lusofonia proposta pela CPLP. Sem uma nova visão das relações entre os lusófonos, que aliás não deve excluir as diásporas lusófonas da Europa, África e Américas, a lusofonia não passa duma balela, como dizia o escritor caboverdiano Luiz romano. Em França, várias associações caboverdianas e portuguesas, como a Solidariedade Caboverdiana e ACAP 77, organizaram diversas manifestações culturais, entre as quais o Festival da Canção Lusófona que lançou vários artistas caboverdianos como Teófilo Chantre, Dulce Matias, John Andrade, etc. E foi do encontro nesses festivais que saiu o projecto da revista Latitudes em que ele colaborou ao lado de outros como Daniel Lacerda, José de Barros, Dominique Stoenesco, revista essa que ainda continua a sair trimestralmente. A CPLP não pode fazer simplesmente a lusofonia dos chefes de Estado: a lusofonia tem que ser, como propõe Margarido, uma lusofonia dos povos que não ignora as diásporas dos países de língua oficial portuguesa.

 

Alfredo Margarido era uma pessoa assídua, assim como o mano Branquinho Pequeno, em todas as actividades culturais da Associação dos Caboverdianos em França - Solidariedade Caboverdiana, para a qual convidava os amigos de passagem por Paris. Foi por isso que o convidei a escrever o prefácio ao “Folclore Caboverdiano” de Pedro Monteiro Cardoso que foi um alumbramento pela importância na revisão da história cultural e politica de Cabo Verde, iniciada nos fins do século XIX . Ficou assim demonstrada que a luta para os direitos cívicos e a literatura caboverdiana não começaram em 1936 com a revista Claridade e nem em 1956 com a criação do PAIGC por Amílcar Cabral. Neste prefácio ele estuda os nativistas como Luis Loff de Vasconcelos, Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Monteiro Cardoso, o movimento pan-africanista em que participaram muitos caboverdianos nos princípios do século XX, a importância da emigração caboverdiana na América do Norte e a influência desta não somente a nível económico em Cabo Verde, mas também no plano social e cultural e que serve de tema a Baltasar Lopes da Silva no célebre romance Chiquinho. A cultura caboverdiana e, em especial, a sua literatura enriqueceu-se com esse prefácio que permitiu que se fizesse um recuo de mais cinquenta anos no estudo da literatura e da vida política e social caboverdiana. Um poema dedicado a Karl Marx em 1913 e o uso da greve, nesse mesmo ano, nas Companhias Inglesas, resultante da experiência americana dos emigrantes caboverdianos, demonstram a existência, já nos princípios do século XX, de uma consciência social da classe trabalhadora em São Vicente.

 

É de assinalar a sua comunicação na Cidade Universitária de Paris na homenagem a Baltasar Lopes, em Maio de 1989, e o excelente artigo publicado na revista Lusotopie, em 1994, chamado “Pour une histoire des geo-politiques culturelles du Cap Vert”» em que, mais uma vez, explica a originalidade de Cabo Verde, tanto no plano étnico como cultural no espaço africano. Também em Cabo Verde, de 1982 a 1990, colaborou com muita constância no jornal católico Terra Nova com artigos profundos que permitiram a muitos patrícios repensarem Cabo Verde e libertarem-se do pensamento único imposto pelo PAIGC.

 

Mas a música e as artes plásticas não ficaram de lado: Margarido publicou vários artigos sobre os pintores Victor Teixeira (Angola) e Tchalé Figueira (Cabo Verde). Também na revista Latitudes publicou diversas notas sobre a música caboverdiana e em especial um estudo sobre o CD “Ex-ilhas” (14 poemas de Luiz Silva e musicados por Jovino dos Santos).

 

Ele reconhecia que o seu exílio, associado à sua vivência com as comunidades emigradas, alargou profundamente a sua visão de Portugal e do mundo. Perdeu a cor e foi tão normal que as pessoas que o liam pensassem que fosse negro e africano de Cabo Verde ou Angola. Foi, pela sua vivência, o verdadeiro lusófono necessário, o modelo a seguir, para a realização da lusofonia não baseada na cor, mas sim em novas No ano de 2000 publica “A lusofonia e os lusófonos : novos mitos portugueses”, com uma critica actual à lusofonia proposta pela CPLP. Sem uma nova visão das relações entre os lusófonos, que aliás não deve excluir as diásporas lusófonas da Europa, África e Américas, a lusofonia não passa duma balela, como dizia o escritor caboverdiano Luiz romano. Em França, várias associações caboverdianas e portuguesas, como a Solidariedade Caboverdiana e ACAP 77, organizaram diversas manifestações culturais, entre as quais o Festival da Canção Lusófona que lançou vários artistas caboverdianos como Teófilo Chantre, Dulce Matias, John Andrade, etc. E foi do encontro nesses festivais que saiu o projecto da revista Latitudes em que ele colaborou ao lado de outros como Daniel Lacerda, José de Barros, Dominique Stoenesco, revista essa que ainda continua a sair trimestralmente. A CPLP não pode fazer simplesmente a lusofonia dos chefes de Estado: a lusofonia tem que ser, como propõe Margarido, uma lusofonia dos povos que não ignora as diásporas dos países de língua oficial portuguesa.

 

Alfredo Margarido era uma pessoa assídua, assim como o mano Branquinho Pequeno, em todas as actividades culturais da Associação dos Caboverdianos em França - Solidariedade Caboverdiana, para a qual convidava os amigos de passagem por Paris. Foi por isso que o convidei a escrever o prefácio ao “Folclore Caboverdiano” de Pedro Monteiro Cardoso que foi um alumbramento pela importância na revisão da história cultural e politica de Cabo Verde, iniciada nos fins do século XIX . Ficou assim demonstrada que a luta para os direitos cívicos e a literatura caboverdiana não começaram em 1936 com a revista Claridade e nem em 1956 com a criação do PAIGC por Amílcar Cabral. Neste prefácio ele estuda os nativistas como Luis Loff de Vasconcelos, Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Monteiro Cardoso, o movimento pan-africanista em que participaram muitos caboverdianos nos princípios do século XX, a importância da emigração caboverdiana na América do Norte e a influência desta não somente a nível económico em Cabo Verde, mas também no plano social e cultural e que serve de tema a Baltasar Lopes da Silva no célebre romance Chiquinho. A cultura caboverdiana e, em especial, a sua literatura enriqueceu-se com esse prefácio que permitiu que se fizesse um recuo de mais cinquenta anos no estudo da literatura e da vida política e social caboverdiana. Um poema dedicado a Karl Marx em 1913 e o uso da greve, nesse mesmo ano, nas Companhias Inglesas, resultante da experiência americana dos emigrantes caboverdianos, demonstram a existência, já nos princípios do século XX, de uma consciência social da classe trabalhadora em São Vicente.

 

É de assinalar a sua comunicação na Cidade Universitária de Paris na homenagem a Baltasar Lopes, em Maio de 1989, e o excelente artigo publicado na revista Lusotopie, em 1994, chamado “Pour une histoire des geo-politiques culturelles du Cap Vert”» em que, mais uma vez, explica a originalidade de Cabo Verde, tanto no plano étnico como cultural no espaço africano. Também em Cabo Verde, de 1982 a 1990, colaborou com muita constância no jornal católico Terra Nova com artigos profundos que permitiram a muitos patrícios repensarem Cabo Verde e libertarem-se do pensamento único imposto pelo PAIGC.

 

Mas a música e as artes plásticas não ficaram de lado: Margarido publicou vários artigos sobre os pintores Victor Teixeira (Angola) e Tchalé Figueira (Cabo Verde). Também na revista Latitudes publicou diversas notas sobre a música caboverdiana e em especial um estudo sobre o CD “Ex-ilhas” (14 poemas de Luiz Silva e musicados por Jovino dos Santos).

 

Ele reconhecia que o seu exílio, associado à sua vivência com as comunidades emigradas, alargou profundamente a sua visão de Portugal e do mundo. Perdeu a cor e foi tão normal que as pessoas que o liam pensassem que fosse negro e africano de Cabo Verde ou Angola. Foi, pela sua vivência, o verdadeiro lusófono necessário, o modelo a seguir, para a realização da lusofonia não baseada na cor, mas sim em novas relações históricas a serem criadas entre os povos, tal como ele próprio viveu no seio dos emigrantes que se exprimem oficialmente na língua portuguesa.

 

A sua tese de doutoramento sobre a literatura caboverdiana na Universidade de Sorbonne, que à última hora decidiu não entregar, explicava com pormenores essa viagem à literatura caboverdiana com os caboverdianos de várias gerações com quem conviveu de perto nas comunidades caboverdianas em Portugal, em São Tomé e Príncipe, em Angola e França, partilhando reflexões sobre Cabo Verde e em especial sobre a sua literatura, cultura e mesmo sobre a unidade Cabo Verde-Guiné, desde os pan-africanistas aos escritores mais modernos. No cinquentenário da revista Claridade apresentou uma comunicação histórica que merece referência em estudos literários sobre Cabo Verde.

 

Alfredo Margarido foi condecorado pelo Governo de Cabo Verde em 2002 com a Medalha de primeira classe do Vulcão. A sua morte foi sentida em todo o mundo de língua oficial portuguesa e nas diásporas desses países. Morreu de pé sempre a lutar pelas suas ideias e sempre cheio de projectos. Ele merece que o seu nome seja dado a ruas e praças em todo o mundo de língua oficial portuguesa.


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 Foto gentilmente cedida por Luiz Silva
 

Paris, 10/12/2011

 

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6 comentários

De isabel lobo a 10.12.2011 às 20:52

Pois, colocando os factos no seu lugar, compartilho a indignação de a UM conferir este grau sem tempo de exercício nem claustro para tal, carnavalizando algo tão importante como o primeiro honoris causa em Cabo Verde. Além do mais devo referir o facto de o doutoramento que foi divulgado em todos os meios de comunicação como sendo da UM ser efectivamente da Universidade do Oriente de Cuba, para entregar o certificado a Reitora dessa Universidade deslocou-se prepositadamente ao Mindelo, facto que não foi referido em nenhum meio. O então IESIG apenas acolheu o doutoramento em termos logísticos e uma vez que tinha convénio com a Universidade do Oriente. 

De Brito-Semedo a 10.12.2011 às 21:40

Cara Amiga e Colega,
Isto aumenta ainda mais a minha indignação, para além do facto de a UM anunciar que ministra 4 mestrados em Psicologia quando isso é feito nessa mesma modalidade pela Universidade da Beira Interior (Portugal). O mais grave ainda é que a UM não tem nem consegue doutores nacionais disponíveis de outras instituições para integrar os Júris de Defesa das Dissertações a serem defendidas já na próxima segunda-feira!

De isabel lobo a 11.12.2011 às 11:38

Brito

aqui nos encontramos numa encruzilhada nestes caminhos do ensino superior. um abraço. isabel lobo

De José Lopes a 11.12.2011 às 11:26


Não estou aqui para alimentar a polémica sobre Adriano Moreira.


Estou aqui simplesmente para prestar homenagem a um português que não conheci directamente, mas através do meu amigo Luiz Silva. Alfredo Margarito. Pode ser considerado um herói nacional e merecedor a título póstumo de um doutoramento Honoris Causa, título que é conferido às pessoas que obraram em prol de um a causa ou por uma Universidade. Participei com o Alfredo Margarito e o Luiz Silva no combate para a democracia em Cabo Verde. Antes estes dois combatente obraram pela independência de Cabo Verde e podem ser considerados heróis desta causa.


Quanto ao Doutor Adriano Moreira estava convencido que ele pertencia à ala liberal do regime de Salazar, que promoveu reformas no duro sistema colonial aboliu o código do indigenato, pelo que toda esta polémica permitiu-me ficar com uma ideia mais global sobre o personagem. Em Portugal, posso dizer que goza do prestígio grande tanto na vida política como nas universidades, sendo um personagem distinguido em váriasuniversidade no país. Desconhecia totalmente, e fiquei surpreendido com a notícia, que foi ele que mandou reabrir a prisão de Tarrafal e instalar a Pide em Cabo Verde, que a ser verdade não abona a seu favor e este assunto deve ser esclarecido cabalmente. Agora são os altos dignitários do regime do Paicv a desmentirem àqueles que estão a denunciar este facto e inclusivamente a desvalorizar os factos, para além do silêncio dos combatentes da Guiné e de um ‘retour au bercail portugais’ de um nacionalista, Onésimo Silveira. Amílcar Cabral está a dar mil voltas na sua tumba? Em quê é que ficamos? Eu não sou contra homenagear personalidades estrangeiras, pois assumo cidadão do mundo, mas existe uma situação particular em Cabo Verde que a gente costuma dizer que, santos de casa não fazem milagres. Há injustiças gritantes. Desde que uma pessoa é classificada Persona Non Grata deixa de existir. Porque raio não homenagearam correctamente o Dr Antero de Barros, ainda não se reabilitaram convenientemente o Dr Baltazar e Roque Gonçalves e tanto outros heróis mindelenses que dedicaram tudo a Cabo Verde, mas não foram à luta.


Não se pode esquecer, Oh Grande Ironia, que situações tão graves como as atribuídas à Pide aconteceram nesta cadeia sob a batuta dos algozes a mando do paicv, depois do 25 de Abril, em que alguns patriotas caboverdianos estiveram nesta cadeia, onde cenas pancadarias e crimes contra a humanidade aconteceram, pelo simples facto de não aceitarem a unidade da Guiné cabo Verde e a hegemonia do Paigc em Cabo Verde. Eu sei que o Luiz esteve sempre contra os desmandos perpetrados na terra pela pide e os que ocorreram depois da independência, inclusivamente o levantamento aquando do caso Reforma Agrária. A prisão do Tarrafal enferma portanto, duas realidades terríveis associadas a duas ditaduras, uma de direita e outra de esquerda. Não pode haver dois pesos duas e medidas, nem memória curta. Esta é a minha opinião sincera sobre a matéria


 

De Adriano Miranda Lima a 11.12.2011 às 18:09


 
 
Associo-me a todos quantos estranharam a atribuição do título de Doutor Honoris Causa ao Professor Doutor Adriano Moreira. Não certamente pelas mesmas razões.
As minhas razões prendem-se essencialmente, e quase só, com a opinião expressa pelo Manuel Brito Semedo sobre a total ausência de dignidade universitária que necessariamente revestiu o acto em si, uma vez que a UM não dispõe de mínimas condições exigíveis a um encargo desta natureza. Nem historial académico, nem adereços simbólicos, nem sequer doutores com reputação interna e muito menos internacional.
Acho que quem acabou por sair salpicado do acto trapalhão foi o próprio homenageado, que, como académico, não merecia tal despautério, ainda que certamente tudo disfarçasse com um benévolo sorriso de compreensão, que ele é um homem de enorme curriculo e muitas andanças no mundo universitário. Académico de obra feita. Tenho imenso apreço e admiração por Adriano Moreira como académico e intelectual, cujas exteriorizações do seu pensamento leio sempre com agrado e proveito.
Quanto à questão política envolvente, sempre tive o Adriano Moreira como quem soube divergir do pensamento de Salazar, contrariando-o frontalmente no que, para o então Ministro do Ultramar, significava e exigia reforma e mudança de paradigmas. Sobre isto, o comentador José Fortes Lopes disse o suficiente e fico, portanto, por aqui.
O certo e sabido é que Adriano Moreira pediu demissão do cargo a Salazar quando percebeu que em pontos essenciais da sua política não conseguiria a desejada convergência. É importante não esquecer que naquele tempo não era qualquer um que ousava contrariar o empederdimento ideológico de Salazar.
De resto, relembro a frase de Ortega y Gasset: o homem é a sua circunstância. E é precisamente em circunstâncias bem diferentes, já em plena liberdade democrática, que Adriano Moreira soube mostrar-se em todo o esplendor do seu pensamento político e humanístico, embora pertencente a um partido político que não é da minha afeição pessoal.
Mas, para além da vida política interna, Adriano Moreira deposita o seu olhar na cena política internacional, sobre a qual reflecte e opina, mostrando que a directriz do seu pensamento ideológico passa pela justiça e pela felicidade entre os povos. Não é por acaso que sempre foi e é um grande amigo de Cabo Verde, cuja prova mais real foi a presença do Primeiro Ministro na homenagem.

De Adriano Miranda Lima a 11.12.2011 às 18:36


 
 
Em boa hora foi cometido ao meu amigo de infância e intelectual de mérito, Luiz Silva, o encargo de escrever sobre Alfredo Margarido. Fazendo uso de palavras minhas com que expremi ao Luiz a minha opinião, deixo-as aqui transcritas:
"O teu texto é bastante profuso e descritivo, contendo factos relevantes para a evocação do grande homem e intelectual que foi o teu amigo. O conteúdo está simplesmente excelente, com uma narrativa e articulação textual muito bem conseguidas. Tanto que, acabado de ler o texto, senti-me impelido a levantar-me para aplaudir o Margarido, mas também o seu amigo Luiz Silva, o primeiro pela sua grandeza intelectual e humanística, o segundo pela autenticidade da amizade que dedicou em vida ao amigo e que, em circunstância póstuma, lhe rende desta forma uma tão rica como sentida homenagem. Pois quem lê o texto sente a verdade e a sinceridade de mãos dadas na pena do narrador, ao mesmo tempo que vê dar à estampa factos de uma grande riqueza memorialística, de manifesta utilidade intelectual para quantos queiram disso tirar proveito ou tomar como paradigma.
Vou guardar ciosamente este texto porque é um documento preciosíssimo, rico de factos e informações, de conceitos e reflexões pessoais. Tiveste o condão de me tornar amigo e admirador do Margarido, pessoa que eu pouco ou nada conhecia. Que a sua alma esteja a fruir a paz e a harmonia celestiais, reflexo do que em vida fomentou e partilhou com todos os seus irmãos, incentivando o culto da identidade dos povos e da liberdade do ser, quaisquer que fossem a suas etnias ou culturas."
Saindo agora das palavras transcritas. Percebo bem a intenção de associar os textos-notícias relacionados com Adriano Moreira e Alfredo Margarido. Dois percursos de vida diferentes, duas filosofias ideológicas que divergiram na substância e possivelmente no alcance dos seus sonhos e anseios como seres humanos. No entanto, se tivermos em conta a natureza do pensamento que Adriano Moreira vem exprimindo em liberdade democrática, se exorcizarmos alguma poalha fantasmagórica que ainda paire sobre a sua alma pelas responsabilidades assumidas no passado, ouso pensar que um dia estas duas figuras espirituuais não se vão ignorar de todo na outra dimensão da existência. Haverá certamente diálogo e bom entendimento.
Contudo, eu que, com esta idade, já me conheço bem, confesso que nessa outra existência preferirei a companhia do Alfredo Margarido. Ao menos para passar a conhecer melhor o que não foi possível em vida.

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