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Amanhã vai ser mais um Natal

Brito-Semedo, 23 Dez 11

 

Foto 2011, gentileza do fotógrafo Tó Gomes

 

A falta é deplorável, nos estremece

quando ela persiste, nos envelhece

e a morte bom desfecho nos parece.

 

Tudo sucedeu dias-há, foi outrora

e nenhuma coisa esqueci embora

não sei porque só aparece agora.

 

***

 

Nha Maria, triste, com voz entupida

com cara de pessoa muito sentida

diz ao marido com uma voz dorida:

 

Hoje, nem um pinguim d'àgua pura

para molhar o fundo dessa caldeira

qonta mais um coisinha de gordura.

 

Nos olhos do marido só amargura

pois tais dias não eram de fartura

só tinham a necessidade e agrura.

 

Nhô Mano encheu-se de coragem,

hesitou mas garatujou mensagem

que o seu filho daria à passagem.

 

Um amigo é para justo momento

e pensou que dele viria um alento

embora fosse usurário e avarento.

 

Uns vinte e cinco mil réis queria

o bastante para a família um dia

mas nem isso o miserável cedia.

 

A casa que fora aprazível cenário

um paraíso, um éden imaginário

estava como melancólico velório.

 

Sem criança irrequieta sorrindo

sem parente sempre bem vindo

ou ainda vizinhos indo e vindo.

 

O galo que cantava festivamente

anunciando o dia, o sol nascente

foi sacrificado impiedosamnete... 

 

Até mesmo os bonitos passarinhos

que, suspensos no altos dos ninhos

alegravam o tempo e os caminhos

 

Bateram as asas, desapareceram;

os que ali viviam se ausentaram

e mesmo as almas desvaneceram.

 

Com o tempo o modo estremeceu

a gente de outra conduta pereceu

bichos e plantação, tudo faneceu.

 

O milho, a lenha, a fava, o feijão

Praça, Salina, Festas de S. João

Matiota, Baía foram e já não são.

 

Prezado conterrâneo, meu irmão

imploro que me dês o teu perdão

pois cada um de nós tem sua razão

 

Amanhã vai passar mais um Natal

que não será como os outros igual

para minha família nem ceia frugal.

 

Valdemar Pereira, Tours, França

 

 

 

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3 comentários

De Yara Lima Oliveira a 23.12.2011 às 20:17


Prezado Manoel Brito Semedo


Há algum tempo tenho pousado nessa esquina para comentar as postagens do amigo Valdemar Pereira. Mas hoje, especialmente desejo expressar ao Manoel Brito Semedo a minha satisfação em sentar aí nesse banco, em frente ao prédio do relógio e parabenizar a você e à toda equipe, pelo bom gosto do blog, pela corrente formada por seus colaboradores, que distribuem cada um do seu jeito e forma, bons artigos, poemas, imagens, etc. enriquecendo a Esquina do Tempo.Um Natal de PAZ e LUZ , desejo daqui da Bahia, do Brasil, 
Yara.


***


Para Valdemar Pereira, o meu parabéns, com o coração apertadinho depois de ler esse poema-saga  tão bem escrito. 
Ele (o poema) saiu de Tour, atravessou o imenso  degradé azul do oceano para chegar à Ilha do  poeta; e,  pegou ao mesmo tempo, um braço de mar para chegar até Salvador, Bahia.  Encantou-me. 
O esquecimento é inimigo do cofre de lembranças, Valdemar. No final da viagem são as recordações que transbordam em lágrimas, no Mar.
Um "braça pa tude gente", de Feira de Santana- Bahia- BRASIL
Yara

De Brito-Semedo a 23.12.2011 às 20:30

Um abraço destas ilhas do meio do mar e votos de um Feliz Natal!
São pessoas sensíveis como a Yara que me incentivam cada dia nesta partilha da coisa cultural cabo-verdiana, ao mesmo tempo que é uma evocação e uma homenagem à Ilha do Porto Grande! Na verdade, os colaboradores do "Na Esquina" são generosos e estão sempre disponível nessa partilha. A cada um deles, um bem haja! Que o ano de 2012 seja de felicidade para todos!

De Adriano Miranda Lima a 24.12.2011 às 15:13


Texto poético em que o  Valdemar faz a nossa memória recuar a épocas de amarga pobreza e sofrida desolação. Texto que contém um recado implícito e com determinado endereço (como ele sabe que sei), mas que no conjunto dos versos rimadamente encadeados denuncia o reverso triste da mensagem natalícia, melhor dizendo, a face desnudada da anti-mensagem, com que, infelizmente, se confronta uma imensidão de criaturas humanas. Para mais, nestes tempos em que os princípios cristãos de  solidariedade e fraternidade são postos em causa por filosofias mercantilistas que derrogam a essência humana,  eis que o conteúdo do texto do Valdemar parece infelizmente carregado de uma trágica actualidade.
Que regresse o Menino Jesus onde quer que ele esteja. 

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