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Tributo a Cesária Évora

Brito-Semedo, 18 Dez 11

 

- Fátima Bettencourt, Praia

 

Estamos mais uma vez órfãos. Pelo menos é assim que eu me sinto na morte dos nossos artistas e poetas. A Cise deixa um vazio sem tamanho que tentaremos preencher com a saudade e o respeito pela sua memória que inclui naturalmente a preservação da sua obra e o engrandecimento da nossa canção nacional que ela tão bem soube dignificar nos maiores palcos do mundo. A MORNA merece ser elevada à condição de património mundial, julgo que o Moacyr já está empenhado nisso, mas acho que esta é uma tarefa de todos os cabo-verdianos. Não há dúvida que se um dia viermos a conseguir esse desiderato, ninguém terá contribuido com um quinhão maior do que Cesária Évora, a menina simples de Mindelo, de voz doce e falar malicioso que agora nos deixa para sempre.

 

À laia de homenagem aqui deixo aos leitores uma crónica que escrevi há mais de 10 anos e vos chega hoje pela generosa intermediação do meu amigo Brito-Semedo.

 

 
Cesária Évora (São Vicente, 27.Agosto.1941 – 17.Dezembro.2011)

 

Exaltado e erguido em fúria é o que se pode dizer do estado explosivo de um amigo que encontrei e logo me fez parar para desabafar. Vendo a prioridade absoluta que o momento requeria, larguei tudo para escutar o motivo de tamanho destempero. Melhor não podia ter feito porque o homem, à beira de um ataque de nervos, transbordava de razão.

 

Contou-me ele que no dia da homenagem à Cise, promovida pelo Instituto Camões com o alto patrocínio do Presidente da República de Portugal, nesse exacto dia um jornalista do jornal Público resolveu lançar no seu jornal uma violenta entrevista ao Bana em que este desancava na Cise com a maior virulência e tudo isso corria o mundo nas estradas cibernéticas. Não fosse a distância e esse meu amigo, com certeza, teria chegado a vias de facto com o jornalista, até porque ninguém acredita que o Bana tenha o poder de manipular a imprensa portuguesa.

 

Chegados a este ponto, não aguentei e interrompi o exaltado cidadão: - mas não me dirás o que ganharia esse jornalista em denegrir a imagem duma mulher como a Cise que, lá onde chegou, é praticamente intocável?

 

- Pois é exactamente nisso que acabas de dizer é que está o busílis, “lá onde chegou” – disseste tu. Ao que parece corre um “diz-que-me-diz” em certos meios artísticos portugueses que se consideram mais dignos das honras que acaba de receber a nossa Cise. Daí a aliarem-se a uma certa imprensa foi um passo, sendo Bana apenas um instrumento.

 

Tudo isso não passa afinal de conjecturas, mas convenhamos que é uma leitura possível. Infelizmente a dor de cotovelo é mal que pode atacar qualquer um e nem todos os contagiados têm a grandeza de permanecer lúcidos.

 

Em contrapartida foi com muita alegria que recebi o Jornal de Letras, Artes e Ideias e pude constatar como gente insuspeita não hesita em dar à Cesária o que por direito lhe pertence. A jornalista portuguesa Maria Armandina Maia compara a nossa diva à Edith Piaf, Amália Rodrigues, Billie Holiday, and so, and so...

 

Afirma a mesma jornalista que “ela canta serena e segura, herdeira universal da voz dos poetas” e que impondo-se como centro épico duma diáspora que se afirma, com orgulho, ao resto do mundo, ela, a Cesária acaba sendo um dos elos que unem e unificam um povo. Rendida aos dotes da cantora, Armandina Maia chega ao ponto de erguê-la como “um símbolo vivo da esperança colectiva que ainda não nos abandonou, de nos encontrarmos todos, um dia, na esquina do sonho de um verdadeiro diálogo multicultural”.

 

Por todos os motivos e mais um, encho-me de orgulho ao ler tudo isso sobre a nossa famosa patrícia e consola-me saber que, afinal, este mundo louco ainda tem os dez justos que impedirão a sua destruição. Mal refeita do encantamento em que me deixou o Jornal de Letras, chega-me às mãos o número seguinte em que a par de várias fotografias da homenagem na qual Cesária Évora é agraciada com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, o jornalista comenta os momentos que antecedem a actuação com que a Cise brinda a numerosa assistência: “Ninguém poderá prever o que vai acontecer no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, quando Cesária Évora “tomar a palavra”, num cântico, mais do que um canto, que é um verdadeiro hino à unidade que bate no coração do espaço lusófono”.

 

E todavia, ela continua a mesma menina de Mindelo, a mulher simples de falar malicioso que se sente tão feliz recebendo os amigos na soleira da porta enquanto nos vai dando lições de vida e humildade. Aposto que se chegar a ler a famigerada entrevista do bana, vai soltar uma bela risada e murmurar: “êsse côsa ê sô dor d’cutvêl. El ta passá”.

 

 

 

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1 comentário

De Joana Freitas a 18.12.2011 às 23:05


Um texto interessante em que o Bana parece não ficar bem. Se é assim é bem feito. Mas também gosto muiito dele. Uma nota curiosa é a semelhança física entre a colunista e a Cesária, que até parecem irmãs gémeas.

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