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Crónicas A Manduco... (5)

Brito-Semedo, 8 Jul 10

Foto de Maria Catela, Jul. 2010

 

Instrução

 

Em um dos artigos precedentes dizíamos que arborizar a província é tão necessário e fecundo em resultados como educar a juventude.

 

Sim, educar e instruir, convém acentuar-se porque, se para a vida moral nos basta a educação, nas pugnas temerosas pela existência seremos vencidos e esmagados se não estivermos convenientemente aparelhados pela instrução.

 

Ela contém em si a educação, pois tem por objectivo, simultaneamente, a cultura da inteligência, do carácter e do robustecimento físico pelos desportos, pela ginástica, etc.

 

A instrução é, pois, a base mais sólida do Progresso, e da felicidade do homem sobre a terra. Dela é que vamos hoje ocupar-nos, e dos seus elementos indispensáveis: escolas e professores.

 

Quantas escolas há na província? 50 oficiais, 15 municipais e 2 paroquiais (S. Nicolau). Ao todo 67 para 160 mil habitantes.

 

Que tal são os professores? Excelentes criaturas. Adiante.

 

A instrução primária em Cabo Verde consiste em b,a ba,fugiu a burra... Ninguém pode contestar.

 

Há escolas. É inegável. Que ensinam? Tanto as elementares como as complementares ensinam a ler, escrever e contar. Isto, porém, são modos de dizer, porque, na realidade, aqui, ler é mastigar em crioulo, sem ruminar, sílabas, palavras e frases portuguesas.

 

De escrever e contar diremos idem.

 

Verdade, verdadinha, são raros os rapazes que saem das escolas primárias compreendendo bem o que lêem.

 

A quem cabem as responsabilidades? Ao Estado? Aos professores? Aos próprios rapazes?

 

A todos, e ainda ao meio social.

 

O Estado tem grande culpa, por se ter limitado a mandar adoptar nas escolas da província os livros aprovados para as da metrópole. Não há dúvida: o Estado, com ou sem razão, tem-se desinteressado, apesar do que rezam os Boletins.

 

Os professores... Há honrosas excepções, mas as excepções não fazem lei.

 

Os rapazes, inconscientes das nefastas consequências do analfabetismo, vivem satisfeitos com o desinteresse do governo, dos pais, patrões e professores.

 

Depois das escolas primárias, cujo número é insuficiente como se verifica (67 escolas para 160 mil pessoas), temos ascendendo a escola de Pilotagem, ora na Praia ora em S. Vicente, e finalmente o seminário-liceu em S. Nicolau.

 

Os leitores sabem perfeitamente que os cabo-verdianos nunca tiveram grande inclinação para a carreira eclesiástica, quanto mais agora que a lei da Separação das Igrejas do Estado[1] veio dar o golpe de misericórdia nas vocações – um modo de vida como qualquer outro.

 

Portanto, a nulidade daquele viveiro tornou-se evidente agora, mesmo aos mais cegos.

 

Para o saneamento moral da colónia faça-o o governo eliminar quanto antes, deixando, porém, o liceu nacional cuja reforma se impõe no sentido de serem valorizados e equiparados os seus diplomas aos dos centrais da metrópole.

 

Não queremos dizer que se deva proibir aos homens da sotaina o exercício do ensino. O seminário é que já não tem razão, se alguma vez a teve, de existir. Está politicamente redimida a nossa Pátria. Mas que enorme percentagem de analfabetos ainda a ensombra!

 

Empenhemo-nos, pois, todos, para que a luz se derrame aos quatro ventos da província e produza os seus deliciosos frutos de bênção: os pais mandando os filhos à escola, os professores ensinando com amor e dedicação, o governo criando mais escolas e pagando bem aos professores, e os rapazes aplicando-se com afinco, porque é triste, horrorosamente triste a noite caliginosa da ignorância.

 

Escrevendo o que acima fica, não pretendemos – escusado é dizê-lo – visar a pessoa alguma.

 

Todavia, se algum Ferrabrás pundonoroso se der por melindrado, desde já, e com toda a solenidade de estilo, o fazemos ciente de que, não disponho de outra arma além da caneta com que escrevemos, não aceitaremos repto algum senão... a manduco.

AFRO

 


[1] Afro refere-se à Lei da Separação do Estado e das Igrejas, promulgada pelo Governo Provisório a20 de Abril de 1911.

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