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- Adriano Miranda Lima, Portugal

 

Em 2003, as minhas férias cabo-verdianas de 2 meses tinham sido programadas para terminarem a 20 de Novembro, sem nunca me ter passado pela cabeça dilatá-las de modo a aproveitar a quadra natalícia e o fim do ano. Mas colocado logo entre a espada e a parede por familiares incrédulos com a minha aparente amnésia por evento tão marcante na nossa terra, tive de ceder. Aliás, de boa vontade, redimindo-me, pois se havia algo que o meu espírito verdadeiramente ansiava era reviver o rebuliço da noite de São Silvestre “naquel tchom d’Soncent”. Conservava na memória os eflúvios da minha última noite de S. Silvestre, passada no Mindelo quarenta anos atrás, animação popular de que não voltei a ver réplica com semelhante espontaneidade e singularidade noutros lugares para onde a vida me levou, tão genuinamente ela exprimia a alma popular.

   

Ansiava ver e ouvir os meninos do “recordai”, como eu próprio fui, deixar os sentidos inundarem-se na estridência das sirenes dos navios da baía em dueto com o bater sincopado do pilão do cuscuz pela noite dentro, presenciar aquela mole humana em corrupio à volta da igreja, ver as “lisas” a afogar no mar o ano velho. Ah, para não falar naqueles grupinhos musicais a entoar as boas festas pelas ruas, inebriando-nos com esse magnífico hino que o Luís Morais aprimorou com o seu virtuosismo artístico. Enfim, um sem número de imagens, sonoridades e sensações que em catadupa disputam a vertigem de uma noite partilhada com igual intensidade por rico ou pobre, por adulto ou criança. Não há estrato social ou etário que não se contagie.

E qual foi o balanço final que o meu espírito guardou do que viu e sentiu?

 

Sem querer denunciar que a minha expectativa saiu completamente gorada, sou obrigado a confessar que não vi repetida aquela alegria esfuziante de outros tempos, a derramar-se nas ruas da morada e nos arredores. A explicação é, para mim, só uma. Novos costumes, modas e estilos de vida chegam hoje quase instantaneamente a todos os lugares do mundo, igualando padrões de comportamento, uniformizando hábitos sociais. A televisão tem nisso uma força desmedida, para não falar no poder das mais recentes tecnologias de comunicação, que num instante sintonizam pensamentos e afinam corações nos mais dispersos quadrantes geográficos. Os povos aos poucos vão assim perdendo hábitos e sentimentos peculiares que os distinguem.

 

De facto, os meninos do recordai não os vi tantos como no meu tempo de criança, nem mesmo tão afoitos na irreverente persistência com que batem às portas. Munido previamente de muitas moedas para o efeito, poucas foram as oportunidades de as distribuir. As ruas da cidade e os arredores pouco diferiam dos dias comuns, e não tardei a confirmar que a televisão, tal como nos dias normais, era seguramente a culpada de tudo. Focaliza a festa no interior dos lares, transfere para a intimidade doméstica aquilo que antes só tinha a rua ou o largo como palco dilecto, onde cabiam todas as emoções, onde explodiam todas as efusões.

 

Posso não ter auscultado bem os rumores dos subúrbios, mas, de facto, e também, não me apercebi do batuque dos pilões como antigamente. Mas isso pode ser justificado pelo facto de a farinha de milho se vender já bem peneirada. Para cúmulo do azar, as sirenes provenientes da baía foram abafadas pelo mega concerto que à meia-noite teve início nesse ano, instalada nas estruturas ainda esqueléticas de um prédio em construção. Nada contra o mega concerto, não senhor, mas... privou-me da audição das minhas saudosas sirenes. Resta dizer que o povo só saiu para a rua ao chamamento da meia-noite e, no caso, para acorrer ao mega concerto.

 

A verdade é que, logo a seguir, os sinais de vida foram aos poucos extinguindo-se, transferindo-se para o interior das festas particulares em hotéis, clubes, discotecas ou residências privadas. Depois da uma hora da madrugada, as ruas eram já o espelho de uma solidão insuportável para quem nelas queria plasmar emoções por longos anos acumuladas. E, então, dei comigo a cismar: tal como às sextas e sábados, o movimento aflui para a Praça Nova só à meia-noite e logo de seguida desvia-se para as discotecas.

 

Em suma, a alegria popular pareceu-me nos tempos actuais transformada num rio que corre em leito subterrâneo. Já não se transborda irrestritamente, inundando todos por igual, preferindo acomodar-se na privacidade de iniciativas particulares. Já não reproduz o cartaz espontâneo das mais emotivas explosões populares. Bem peregrinei a noite toda pelos bairros na tentativa de agarrar qualquer vestígio de um bater de pilão ou de meninos de recordai com a autenticidade de outros tempos.

 

Mas, felizmente, a vida reserva-nos às vezes agradáveis surpresas. Estava eu em casa, por volta das 19 horas e recebi um recado do meu cunhado para ir ter ao Bar do Sassá, bar que dispensa naturalmente qualquer apresentação. Perante a urgência do recado, apressei-me a ir ter àquele Bar. Estava ainda a uns duzentos metros de distância, quando me apercebi de um movimento inusitado no exterior do Bar e de sons de música que invadiam todo o ambiente circundante. Ali chegado, abri com dificuldade caminho entre as dezenas de pessoas presentes e deparei então com o meu cunhado que me explicou de imediato tudo o que estava a acontecer. O Bar do Sassá, na noite de S. Silvestre, tinha por tradição oferecer uma festinha aos seus clientes habituais, extensiva também aos transeuntes. E, pelo que eu vi, seria considerável a presença dos não clientes.

 

No interior do bar, mesas postas com iguarias várias, a acompanhar com cerveja ou refrigerante à discrição, bastando pedir. Cá fora, música interpretada pelo pianista Chico Serra e outros instrumentistas e uma vocalista. A nossa cantiga de boas festas era a rainha da noite, como não podia deixar de ser, magistralmente interpretada, em várias versões de letra, pela vocalista convidada. A mole humana, cá fora, não parava de crescer. Pessoas de todas as idades, sexos e condição social. Ainda me lembro de uma mulher do povo, já com o olhar a denunciar os copos bebidos, que de repente aplica uma forte palmada nas costas de um jovem, só porque este estava a tapar-lhe a visão do piano onde o Chico Serra debitava a sua arte. O jovem vira-se surpreendido, analisa a situação e faz de conta que nada lhe tinha acontecido. Para quê censurar o súbito desmando de uma mulherzinha rendida ao devaneio de uma noite de S. Silvestre?

 

E foi assim que o Bar do Sassá marcou a minha noite de S. Silvestre, o único evento que na verdade me ficou gravado na memória desse dia festivo. Desde então, em todas as festas de São Silvestre recordo sempre com saudades o Bar do Sassá e a sua muito calorosa clientela. Constou-me que o Bar deixou de existir, por qualquer razão que desconheço, mas tenho a certeza de que os seus convivas hão-de se reunir em qualquer lado do Mindelo, últimos abencerragens de uma magia da noite que Deus queira não se perca. 

 

Tomar, 29 de Dezembro de 2011

 

 

 

 

 

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1 comentário

De Joaquim Saial a 31.12.2011 às 15:10

Com a qualidade a que já nos habituou, o Adriano Lima dá mais um testemunho de uma das duas épocas anuais maiores da nossa ilha preferida (a outra é obviamente a do Carnaval). Este texto e o que publicou no meu PRAIA DE BOTE são dois trabalhos que se completam e que honram ambos os blogues, parceiros e amigos.

Continuidade para o PRAIA DE BOTE, para o NA ESQUINA DO TEMPO e para as colaborações adrianas são alguns dos desejos que desejamos desejar para o não desejado 2012 (ano gongom...)

Mantenha e braça
Djack (Joaquim Saial)

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    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

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    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

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    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

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