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Mindel d'Nha Mninénsa

Brito-Semedo, 17 Fev 10

 

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Mindelo, Rua 5 de Julho. Foto Hélder Doca, Agosto.2013

 

Depois de vários anos, voltei em Dezembro de 2006 a S. Vicente. A viagem à minha terra foi motivo para uma outra, há muito adiada, mas ocasionalmente sonhada, a do regresso ao Mindelo da minha infância. Os meus passos levaram-me a Chã de Cemitério e a minha memória, aos lugares da minha meninência.

 

Abalei da Morada (o centro da cidade) mais precisamente, do Aparthotel Avenida, situado na Rua 5 de Julho, a Rua do Telégrafo ou a Antiga Rua Inglesa, deixando para trás a Praça Nova, com o propósito de visitar uma “menina do meu tempo” em Monte Sossego, na Rua 1, tendo planeado passar antes pelo atelier do amigo e também rapaz desse tempo, Tchalé Figuera.

 

De caminho entrei na velha Alfândega de D. Pedro V, hoje Centro Cultural do Mindelo, para espreitar a livraria, apreciar as exposições de artesanato – uma de instrumentos musicais, outra de bonecas de pano e ainda uma outra de bordados – e visitar as lojinhas, à procura de alguma recordação interessante.

  

Saí pela Avenida Marginal e desemboquei no velho Cais da Alfândega onde, nas noites de S. Silvestre, ia com a minha avó, a Mãi Liza, ouvir o apito na Baía à meia-noite, enquanto os mais adultos se atiravam ao mar para receber o Ano Novo, banhados e purificados do Ano Velho.

 

Espreitei a Praça dos Aviadores, construída para assinalar a travessia do Atlântico por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, passei para a calçada da Biblioteca Municipal, avancei em direcção aos velhos quintalões da companhia carvoeira, que voltou a dar lugar à Praça D. Luiz, e caminhei, “straight”[1] pela Rua da Praia.

 

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 Praça Estrela, Vista da Capitania Velha

 

As casas de inglês (Millers & Cory), os botequins e a estação de serviço da Shell ficaram para trás e postei-me de costas à frente da Casa de Ti Djô Figuera, ship-chandler, a olhar para a velha Capitania (uma réplica da Torre de Belém), a estátua de Diogo Afonso, o navegador e descobridor da ilha, os pescadores a jogar cartas ou a consertar as redes, a Baía do Porto Grande e o Monte Cara.

 

O Tchalê recebe-me de tronco nu a trabalhar em grandes telas a preto e branco, acompanhado de música clássica em alto som. Fala-me com entusiasmo da nova exposição que estava a preparar e oferece-me uma gravura.

 

Decidi dar uma olhadela ao antigo Quintal da Vascônia/Ferro & C.ª onde íamos comprar as nossas latas de “água-doce” para beber (a outra, a salobra, era comprada nas Águas do Madeiral para a serventia da casa) e entrar no Pelourinho de Peixe, sempre limpinho e bem organizado – Olí atum ma djéu!... Bocê bem comprá pêxe!... Bem vindide![2]

  

Não resisti a dar uma espreitadela ao velho Matadouro Municipal e ao velho Caizinho de despejo, que ainda hoje invoco como metáfora quando fico danado com alguém: – “Vai dar um pulo no Caizinho!”.

 

Lembrei-me ainda do canalinho do Caizinho que conduzia ao portão do Miller’s, para lá do qual havia uma pequena praia com alguns botes da Companhia e uma ponte-cais de madeira onde uma vez quase morri afogado.  Aconteceu que os meus companheiros me atiraram à água, não lhes tendo ocorrido que eu não soubesse nadar! Engoli alguns “pirolitos” antes de me içarem, mas apanhei um grande susto.

 

Quando cheguei a casa, a notícia do meu “afogamento” já me tinha precedido. Ainda assarapantado com o que me tinha acontecido, apanhei de lato[3] pela minha desobediência, porque podia ter morrido, dizia a Mãi Liza ainda assustada.  É que, por várias vezes, ela tinha-me proibido de ir com os amigos à Cova de Inglesa ou ao Quintal de Miller’s tomar banho de mar. E o resultado estava aí, à vista! Continuo até hoje, passado muitos anos, pouco à vontade com os mistérios e os segredos do mar.

 

Cruzada a Salina, a nossa Praça Estrela de “corridas-a-pau”, jogos de botão e “guerras-de-cavalo”, contorno à direita e subo o Monte Craca pela Rua do Matadouro Velho. Paro para cumprimentar a D. Elvira, a viúva do Sr. Ernesto Medina, observo a casa em que viveu B. Léza (oficina do Sr. Cláudio Freitas), onde uma placa regista o facto, e entro em casa da Nha Gusta do Djô do Chico para “dar uma falinha”. Outra vez na rua, contorno à esquerda bordejando a Mercearia de Nha Maria d' Aguste. Passo a casa da Nha Rosára e sigo em frente.

 

Acerco-me da minha Escola Primária e observo o largo das minhas brincadeiras, que hoje de largo só tem o nome (John Miller) – a ENACOL[4] instalou-se nele com uma estação de serviço, ocupando-o todo – lugar onde ia apanhar pardais, fazer recados e pequenas compras na Mercearia Lizardo, do Nhô Ventura, e na Padaria do Sr. Jonas Wahnon e andar de bicicleta alugada ao Cabóda, ao Bzugue e ao Djunga de Transval, em fracções de dez minutos a dez tostões.

 

Evoco a minha professora da primeira e segunda classes, de quem gostava muito, a Menina Lourdes Matos (Serradas), e recordo a Nha Auta, mulher franzina que coxeava, nossa vizinha e encarregada da escola, pregando-nos descomposturas devido às nossas correrias e atropelos ao regressarmos dos recreios com os pés sujos de terra castanha do jogo da bola e da corrida-pau, a fazer barulho no soalho.

 

O coração acelera-se-me, pois estou a chegar à minha velha casa, a terceira de uma fiada de quatro casinhas baixas (já foram cinco!) de uma porta e uma janela, situadas mesmo em frente à Fábrica Favorita, conhecida como Padaria de Matos. As casas têm as marcas da passagem do tempo e do abandono e a nossa, de tão degradada, tem blocos no lugar da porta (ela é tão pequenina, meu Deus!... Reduziu-se o seu tamanho em relação à minha memória).

 

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 Monte Sossego, Rua 1

 

Fecho os olhos e recuo no tempo. Vejo-me criança a cuidar da minha irmã e, também, da venda de guloseimas; ouço a minha mãe Xanda a cantar “... Ê ca lua, ê ca ‘strela / Ê ca pérola di mar / Ê ca feitiço ê ca sôdade / Ê madrugada na bôs ôdjos / ê sô bôs ôdjos Xandinha” [5]; sinto o cheiro intenso do café-xicória acabado de fazer.

 

O olfacto prende-me ao passado e evoco lembranças e emoções, ao mesmo tempo que descubro outros cheiros e outras estórias. Parece que a Mãi Liza chama por mim lá de dentro, para ir tomar o meu restinho de café pela sua caneca de esmalte.

 

Tu és o Lalela de Nha Liza?! Oiço alguém perguntar. Desperto e volto à realidade.

 

Sim, o Lalela de Xanda de Nha Liza! E bocê, quem é?

 

 – Adé, eu sou o Funhû, de Nhô ‘Nton Bertôl! Não me reconheces?!

 

 Trocados os abraços, seguimos juntos para Monte Sossego a conversar sobre o tempo d’ nha mninénsa.

 


[1] Direito, em linha recta. 

[2] Olha atum e serra!...Venha comprar peixe!... Bem pesado! 

[3] Cinto. 

[4] Empresa Nacional de Combustíveis e Lubrificantes.

[5] “Esses teus olhos Xandinha”, in “Xandinha”, morna de Dante Mariano (letra) e Amândio Cabral (música).

 

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    Amigo de Mindelo, sabe "o que é ser inventor"? Enc...

  • Sandro

    Amei esse "BAÚ" só tem preciosidade! 

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    Musicas muito bonitas, acho muito legal musicas ap...

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