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"Tambor", de Daniel Medina

Brito-Semedo, 31 Mar 10

 

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1. A minha relação antiga de amizade com o Irmão, como ele faz questão de me tratar, nascida na nossa adolescência (dele) e juventude (minha), à volta da prensa de tipos móveis, composição de textos, papel de prova e tintas de impressão, vem dos finais de 1960, inícios de 1970, na Editora Nazarena, em Mindelo, onde ambos trabalhávamos. Esta amizade só viria a ser retomada na Praia, em 2005/06, reforçada que foi a nossa camaradagem na docência, com aulas, alunos e dificuldades comuns, no antigo Instituto Superior de Educação e na Universidade Jean Piaget.      

 

Eu devia esta ao Daniel Medina, depois de ele fazer a apresentação do “livro da minha vida”, em finais de 2006, e de eu ter falhado à apresentação do seu livro de poemas, Pela Geografia do Prazer, em 2009. E eu sabia que, no dia em que isto acontecesse, estaria acompanhado da amiga comum destas mesmas andanças, a Fátima Fernandes, que já lhe tinha feito, aliás, a apresentação pública desse último livro.

 

2. Poemas em Março não é um caso tão estranho como rosas em Janeiro, da conversa do Rei D. Dinis com a Rainha Santa Isabel, aprendida no nosso livro de instrução primária. Março é um mês grávido de efemérides. Tem o Dia Internacional da Mulher (08); o Dia da Criança Africana (16); o Dia do Pai (19), o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Árvore ou o Dia Mundial da Floresta e o Dia Internacional contra a Discriminação Racial (21); o Dia Mundial da Água (22); e tem ainda o Dia Mundial do Teatro e o Dia da Mulher Cabo-verdiana (27). Uff! Tantas!

 

Este livro Tambor tem uma dupla dedicatória: a Corsino Fortes, “um mago da escrita poética transcendental” e às Mulheres, que são “o mágico Tambor que alimenta e que musica”.      

 

A Bíblia traduz mago por homem sábio ou alguém que possui conhecimentos e habilidades superiores. Nesse sentido, dizer que um músico é um mago do teclado, é dizer que toca com perfeição um instrumento musical. E dizer que o autor d’ A Cabeça Calva de Deus é um mago da escrita poética transcende, é o mesmo que dizer que Corsino Fortes escreve com perfeição uma poesia que ultrapassa os limites da experiência comum e aspira ao absoluto.      

 

Sendo Corsino Fortes, o Poeta de símbolos e de sons, um dos pais da nova poesia cabo-verdiana, com a introdução de uma “nova gramática poética” – a expressão é de Mesquitela Lima – com a publicação, em 1974, de Pão & Fonema, faz todo o sentido fazer-lhe um reconhecimento público e uma homenagem no dia de hoje, o Dia do Pai. Sendo também o Poeta Corsino Fortes um gentlemen, eventualmente o homem do mais fino trato que conheço, ele fica muito bem nesta fotografia e “bendito entre as mulheres”, pois as sabe homenagear e prestigiar. Permita-me que lhe diga, Senhora Presidente do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), o Poeta Corsino Fortes não precisa ser homem do Laço Branco, pois sempre foi, todo ele, de branco!      

 

As Mulheres, “o mágico Tambor que alimenta e que musica”, o sujeito e o objecto de toda a poesia deste livro, são a segunda dedicatória de Daniel Medina.      

 

3. “As Ressonâncias Poéticas d’A Cabeça Calva de Deus” ou “A Percussão Antropofágica de Daniel Medina” são os títulos que me ocorreram chamar a estas ideias que alinhavei para falar sobre o livro Tambor deste meu amigo.      

 

Segundo os valores da sociedade ocidental, a antropofagia, ou o canibalismo, é repugnante e imoral. Do ponto de vista legal, quando não se trata de uma situação limite, enquadra-se como crime de mutilação e profanação de cadáver e um grave desrespeito pela dignidade da pessoa humana. Por esta razão, nunca quis ver o filme “Hannibal”, lançado nos EUA em 2001, embora protagonizado pelo excelente actor Anthony Hopkins (vencedor de um Oscar pela sua actuação).      

 

Define-se antropofagia como o acto de consumir uma parte, várias partes ou a totalidade de um ser humano. Na maioria dos casos, consistia num tipo de ritual religioso, mágico, como uma forma de prestar o seu respeito ao inimigo vencido e o desejo de adquirir as suas características de excelência. É neste último sentido que falo da “percussão antropofágica de Daniel Medina”.      

 

Quanto à ideia d’ “As ressonâncias poéticas d’ A Cabeça Calva de Deus”, a obra poética de Corsino Fortes, que se resume na trilogia Pão & Fonema (1974), Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substâncias, editada em 2001, ressoa na poesia de Daniel Medina.      

 

Daniel Medina enuncia na contracapa que “este pequeno livro exalta o enorme poder das mulheres”. Permito-me aqui abrir um parêntesis para partilhar uma pequena estória. Como todos devem saber, o acto religioso das igrejas protestantes, o culto, é constituído por uma primeira parte de louvor, composta de cântico e oração, que prepara os crentes para a parte seguinte, que é a de leitura e pregação da Palavra. Pois bem, numa dessas igrejas em S. Vicente, um Pastor introduzia a sua pregação sempre com esta frase: “Vamos ter agora a nossa mensagem pequena-grande. Pequena na sua extensão e grande no seu conteúdo!” Caso para se dizer, pequeno-grande livro do Daniel Medina! Pequeno no seu tamanho, tem apenas 57 páginas, e grande no seu conteúdo, porque exalta o enorme poder das mulheres!

  

4. A estrutura deste livro de poemas tem uma lógica muito clara. O título, que parece indexar para o segundo livro da trilogia de Corsino Fortes – Tambor de som / Que floresce / A cabeça calva de Deus – é, afinal, uma metáfora que percorre toda a sua poética, para além da disposição gráfica e do aspecto visual, da sonoridade e da semântica. A abrir, um conjunto de cinco versos dão o mote, servindo como desafio para a composição poética que se segue – A Mulher e a Terra / Possuem o Homem / [...] / E com sonoridades mil preenchem os espaços. / São o Tambor desta Vida.      

 

Seguem-se dois poemas – Criou-se Terra e Mulher. / As sementes vieram / depois / para se catapultarem / do seu eudeusado ventre / [...] / A fêmea / no seu continuar mensageiro / de manter o rosto do Homem, / rasgado de futuros – que fazem de introdução a um conjunto de vinte e dois outros, todos enumerados. A abrir este ciclo, sim, porque do ciclo da vida e da criação ou da recriação se trata: Há tambores / ainda hoje / Na cabeça do homem / Das vértebras da Terra ecoando. E o Poeta prossegue no poema 4 – O tambor repicava / Sob os seus ébrios pés / [...] / Num desordenado trote / Com a terra ainda / Possuindo o Homem – poema 7 – Dos olhos das bruxas / Corvos nasciam / Vertendo sémen / Sobre a terra rasgada / Pela mão do homem / Sob o rufar do tambor – Do tambor gemente / No sexo que despontava das ilhargas / Das amarras – poema 8.      

 

A obsessão dos tambores e dos sons prossegue, em ritmo cada vez mais frenético – O pau sondava o tambor / O tambor seduzia o pau [...] no apelo para a dança / O pau vergava sob a ânsia / Do tambor / A fêmea era a Terra – poema 11 – até atingir o auge e fechar o ciclo – Na garganta do dragoeiro / Sugando o sangue das notas / Do tambor / que se esvai / que se renova / Catapultante / emergente no institnto de ser Mãe e / Poema (21); – E o bordão tombava / Sobre as feridas da Terra / E ela se Abria para abraçar / O corpo que nele se havia / Frutificado – poema 22.      

 

Caros amigos, fico por aqui na minha leitura, permitindo e incentivando que façam as vossas próprias leituras e outras descobertas. Termino com um voto sincero e um apelo: – Que as Mulheres, neste mês grávido, dancem ao ritmo do Tambor e que os Homens as acompanhem em festa, “tchabetando” – batendo palmas!      

 

– Manuel Brito-Semedo

 

Título: Tambor  

Autor: Daniel Medina  

Edição: Autor  

Ano de edição: 2010

 

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Uma Homenagem a Guilherme Dantas

Brito-Semedo, 28 Mar 10

 Foto de Gerson Brito-Semedo, 2005

 

É isto apenas um golpe de vista sobre o perfil intelectual do infortunado Dantas, que a morte acaba de arrebatar, tão cedo para todos, menos para ele, que havia já muito a esperava resignado, indo quase ao seu encontro.

 

Padecimentos físicos, a terrível lesão cardíaca que ele reconhecera em si, impressões morais que no seu temperamento nervoso actuavam com a máxima intensidade, decepções sucessivas, repelões da sorte, e também um ansiar indómito que nunca era satisfeito, ou preenchido, tudo concorria para esse mal-estar geral que lhe entenebrecia os dias, e o arrojava ao pendor onde a tentação das bebidas brancas enroscando-se-lhe na razão e no ânimo, e fascinando-o, lhe dominava a vontade, eis o que lhe aproximou o termo da existência.

 

O seu falecimento deve necessariamente produzir na sociedade cabo-verdiana uma comoção penosíssima. Filho da província nascido na ridente ilha Brava honrava pelo talento o seu país; era uma glória literária da província inteira, que rebrilhara tanto para sumir-se tão de súbito, e para sempre!

 

Foi um dos mais formosos talentos que tenho admirado de perto. Da sua boca e da sua pena não despedia os clarões fugazes das inteligências medíocres, mas as fulgurações duradoiras dos espíritos privilegiados.

 

A inspiração bafejava-o perene e ininterrupta. A toda a hora se encontrava aprestado para dedilhar na lira, afinada cantos suavíssimos, ou para despedir a flecha certeira, penetrante, mortífera sobre preconceitos ridículos.

 

O seu estilo apurado e primoroso podia intercalar-se nos escritos dos nossos melhores escritores sem desdouro para estes. A palavra de Dantas era correcta, vigorosa, máscula na prosa, em perfeita e ajustada correspondência com a força e firmeza do raciocínio.

 

Se em vez de se conservar abraçado às musas, tivesse, como tantos outros, despedaçado a harpa, e entrado na política, onde apareceu poucas vezes e de passagem, porém sempre radioso, o seu talento teria sido mais geralmente festejado, e a sua morte seria agora mais sentida, ou mais lamentada.

Contava aproximadamente quarenta anos de idade, e era muito doente, mas aquele cérebro podia-se ainda comparar a um vulcão candente, em contínua ebulição, assombrosamente activo e produtor.

Dotado de uma finíssima agudeza de engenho, espécie de paciência, condão do génio, Dantas adivinhava os segredos da arte, penetrava sem guia, e com o passo seguro, os arcanos da ciência.

 

A discutir ia tão longe que muitos o perdiam de vista, e bem poucos o acompanhavam. Não aludo aos seus voos rasgados nos espaços da poesia, em que foi muitas vezes sublime, nem a essas outras elevações de pensamento em que se arroubam sem orientação muitas inteligências ou imperfeitas, ou estragadas: refiro-me a discussões sobre princípios gerais em que o espírito obedece à disciplina, em que o raciocínio tem de ir direito e seguro, em que a esfera é vasta, e contudo há trâmites e limites científicos que não é lícito contravir nem ultrapassar. E muitas vezes, no fim dessas discussões, vitorioso, confessava que o assunto era até ali virgem para ele.

 

Era admiravelmente bela a transformação que nele se operava e se mostrava no olhar sereno e fixo, e na cor levemente rosada das faces, quando a centelha de um assunto prestável a controvérsia lhe era atirada ao espírito incendendo-lho.

 

Na sua argumentação projectava nas questões a luz vivida que explana e aclara e não enovela e escurece. Tinha argumentos que petrificavam o adversário de surpreso e fulminado.

 

Com ânimo calmo, o seu espírito via claro e longe.

 

Pouquíssimos conheciam aqui tão bem, e talvez ninguém melhor do que ele, a castiça língua portuguesa.

 

A surdez que o colhera ainda moço privara-o de muitos gozos, e gravara-lhe cedo na fronte simpática fundos sinais de tristeza.

 

Mostrava-se magoadamente saudoso da música, em cada nota da qual encontraria uma sensação consoladora.

 

O som plangente do sino às Ave marias, o gorjeio dos pássaros, o cicio da folhagem levemente agitada pela viração, o murmúrio refrigerante das águas, a voz terna e amorável da família e dos amigos, regaram-lhe também umas reminiscências, entre gratas e cruciantes, que alguma vez deviam desatar-lhe as lágrimas quando só, sem família, no ermo da sua habitação, percorria em espírito a galeria retrospectiva dos seus tempos felizes.

 

Perdidos os dias sorridentes de outrora, deixava-se absorver longamente pela literatura que lhe enriquecia cada vez mais o espírito já nativamente dotado com prodigalidade: atraído pela estética extasiava-se no seu estudo em que deparava, como lhe sucedia no abuso de bebidas, com tréguas para as suas dores.

 

Contudo, os elúvios da juventude não estavam de todo extintos: por vezes tinha coisas infantis, que eram como o reacender das cinzas desse turbilhão de sonhos passados, e revelavam o seu coração bondoso.

 

Porque moléstias repetidas e pertinazes me reduziram a profunda debilidade, convidei-o há meses a passar a limpo, conforme eu fosse escrevendo, os meus borrões. Aceitou gostoso o encargo, e era de ver a vanglória com que ele nas horas de trabalho corria pressuroso da sua à minha banca para acusar-me um erro, como se eu tivera alguma valia diante da sua ilustração, e o colher-me em lesa-literatura pudesse ser-lhe motivo de glória.

 

Confiou-me depois o seu romance — Os Embriões — que ainda está em meu poder, para fazer uma carta preambular, ou juízo crítico da obra, com que esta devia sair a lume.

 

Empreguei então todos os esforços para eximir-me a essa incumbência muitíssimo superior aos meus conhecimentos de romance, e aptidões literárias. Insistiu, e não houve demovê-lo, de modo que fiz um dos maiores sacrifícios, prometendo-lhe afinal a carta exigida.

 

Talvez por ser pouco apreciado, e menos bem tratado que merecia, mostrava-se muito reconhecido à distinção com que eu cultivava as suas relações, a ponto de, estando enfermo no hospital, escrever e enviar-me uma carta nestes termos:

 

"Ilmo. e Exmo. Sr. Hypolito Olympio da Costa Andrade. — Estou bastante doente: e apesar de que me falte papel apropriado, como tudo se deve prever de modo possível, autorizo a V. Exa. por este simples meio, mas com todo o valor legal, a dispor de tudo quanto me pertence, dadas certas eventualidades, — especialmente para que possa ficar de lembrança com todos os meus manuscritos, um dos quais ainda está em poder do capitão Marcelino Pires da Costa. — De V. Exa. o mais atento venerador e cr.º obg.mo (a) Guilherme Augusto da Cunha Dantas".

 

Esta carta, cujo uso é este de a publicar, e o único que dela farei, revelou-me uma dedicação que me comoveu e penhorou profundamente e que nunca poderei esquecer.

 

As poucas palavras, pois, que deixo escritas, provêm tanto da devida retribuição de afectos, como de um sentimento não menos altamente justo – o da admiração – que me obrigava por igual a prestar esta singelíssima homenagem à memória de um inteligentíssimo filho da província, e cujos defeitos, se algures puderem conturbar-lhe o espírito lúcido, nunca conseguiram apagar uma só linha dos afectos que se lhe gravaram uma vez na alma.

 

......................................................................

 

Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a sua memória, e por largos tempos lhe vão os conterrâneos esfolhar piedosamente goivos e saudades sobre a campa amiga!

 

Praia, 28 de Março de 1888

 

Hypolito O. da Costa Andrade

 

 

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