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Festa d'Vin Ma Bôl

Brito-Semedo, 9 Mar 10

 

Bol ma vin.jpeg

Foto Arquivo Histórico Nacional (AHN), Praia

 

 

Confesso que até hoje tenho muita mágoa e uma certa frustração por nunca ter tido uma festa d’vin ma bol – na verdade era festa onde se servia bolos variados, refresco e uma espécie de sangria! – sobretudo o do fim do exame do segundo grau (4.ª classe). Outra mágoa minha é a de não ter tido a festa do fim do 2. ano dos liceus nem a Festa de Finalista do Secundário (o 7.º ano)!

 

Tenho como referência as festas d’vin ma bol de alguns amigos meus mais velhos, pois acompanhei-os nelas vezes sem conta, sempre almejando o meu dia.

 

Recordo a balbúrdia e a gritaria da criançada (rapazes e meninas) no mês de Julho e lembro-me das frases que iam dizendo em voz alta enquanto corriam pelos diferentes bairros, de uma casa para a outra (não podiam fazer desfeita a nenhum colega!), para tomar às pressas o “bol ma vin”: – “Viva sê Pai! (Viva!) Viva sê Mãi! (Viva!) Viva Menina Isidora! (Viva!) Viva nôs tud! (Viva!)”.

 

Chegados as casas dos aprovados, normalmente estafados e com a língua de fora, sobretudo as dos que viviam nos subúrbios mais afastados, os vivas e as frases mudavam de ênfase: – “Mãizinha dzê,/ ahoje e k’é kel dia./ Se bô fká raposa,/ alí bô ka t’entrá./ Porr lí, porr lá,/ 4.ª classe k’ê de brinkadera![1]

 

Antes dos exames do primeiro e do segundo grau, havia os chamados simplesmente “exames de passagem” (1.ª e 2.ª classes), sem direito a qualquer comemoração pública. Esses, fi-los na Morada, na “Escola de Rei”[2], a Escola Camões, e só foram importantes para as pessoas da minha casa. Os outros exames seriam diferentes, especialmente se eu saísse “Distinto” na prova da 4.ª classe! Assim, aguardava o meu dia com muita ansiedade.

 

O ano da minha 3.ª classe foi marcante e de viragem para a minha vida. Primeiro, fiquei a saber que já não teria a mesma professora e tinha sido transferido, juntamente com outros colegas, para uma escola lá para a Ribeira Bote. Depois, conheci o meu pai e, na sequência, fui trazido para a Praia onde fiquei por dois anos.

 

Nesse ano, a minha professora, a Menina Lourdes Carvalho Matos Serradas, minha primeira grande paixão, foi viver para Lisboa. A minha nova professora seria uma senhora de meia idade, com quem antipatizei logo à primeira porque a achava feia (faltava-lhe um dente à frente e fazia barba e bigode!) e antipática, para quem transferi toda a minha raiva e frustração.

 

Em 2004, visitei essa minha ex-professora, a Sra. D. Lourdes Matos Serradas, na sua casa em Alvalade (Lisboa), já viúva e com mais de setenta anos. Contei-lhe então esse e outros factos e a minha paixão de criança e rimo-nos com gosto. Ela olhava para mim, homem feito e Doutor e dizia-me embevecida: – Manel!... (como quem diz, “eu não acredito que sejas aquele menino! Quem diria!...”), ao que eu respondia no mesmo tom encantado olhando para a linda avó que tinha à minha frente: – Menina Lourdes!... E voltávamos a rir!

 

Como a minha nova escola da Ribeira Bote – uma casa alugada situada por trás da Capela Nazarena – era distante do nosso bairro e nos deletávamos[3] pelo caminho, acabávamos por chegar sempre passado da uma da tarde, depois dos outros terem entrado.

 

No início, a professora ainda ralhava connosco, mas, perante um comportamento sistemático, passou a castigar-nos, não nos deixando entrar. Foi aí que tive a ideia de não irmos para a escola (!), ao que o Nuno Paris, meu colega de caminhada, aceitou prontamente, tendo nós acabado por perder o ano.

 

Numa manhã, quando tomava conta da casa e cuidava da minha irmã mais nova, como que saído do nada, aparece-me à porta de casa um homem simpático a perguntar, em crioulo de badio, pela Xanda e a dizer que... era meu pai! Ainda um tanto ou quanto assarapantado com a notícia, lembro-me de apenas ter dito: – Ah, sim?! Então vou dizer à Xanda que o Senhor está cá!

 

Da conversa entre os dois só soube que a minha mãe tinha aceitado que eu viesse para a Praia visitar a minha avó paterna, a Nha Romualda, mulher já idosa e bastante adoentada, que teria manifestado o desejo de conhecer esse seu primeiro neto antes de morrer.

 

A Mãi Liza opôs-se logo à ideia, argumentando que o pai nunca tinha procurado saber do filho, que ela é que o tinha criado sempre debaixo de dificuldades, sem ajuda de ninguém, etc., etc. De nada valeu essa argumentação. A Xanda foi levada na conversa e lá aceitou que eu viesse, mas, não muito tempo depois, viria a arrepender-se amargamente dessa decisão. É que, chegada a época da escola, Estêvão não me deixou regressar a S. Vicente.

 

Foi assim que os meus estudos primários da 3.ª e 4.ª classes foram feitos na Praia, na Escola da Igreja Adventista do 7.º Dia, sendo meu professor Jaime Schofield. Os exames, esses, foram realizados na velha Escola Grande. Apesar de ter sido um aluno sempre aplicado, não tive a ansiada festa d’bol ma vin, simplesmente porque não era tradição em Santiago!

 

Com dezassete anos retomei os estudos e, em um ano, fiz o 2.º ano do Ciclo Preparatório, desta vez em S. Vicente. Contudo, voltei a não ter uma festa d’vin ma bol porque estava broken, “quebróde c’ma Djósa de Maderal”[4] – tinha gasto o dobro do meu magro salário no processo burocrático da emancipação e a inscrever-me ao exame como trabalhador-estudante!

 

Curiosamente, os meus exames do fim do secundário seriam também feitos na Praia no Liceu Domingos Ramos, como aluno externo e sendo eu já adulto, razão porque também não houve festa. Posteriormente, quando Director desse mesmo liceu (1988/1989), por iniciativa de Gamal Mascarenhas, os finalistas desse ano, depois de porem as suas fitas, chamaram-me ao palco e colocaram-me também uma, azul, da cor da dos alunos de letras! Comovi-me, pois o gesto soube-me à minha festa d’vin ma bol atrasada.

 

Satisfação idêntica só voltaria a ter muitos anos depois, em 2005, na minha última festa d’vin ma bol, a cerimónia de imposição das insígnias de Doutor em Antropologia pelo Reitor da Universidade Nova de Lisboa!

 

- M. Brito-Semedo

  


[1]A Mãezinha disse,/ hoje é que é o dia!/ se ficares reprovado,/ aqui não entras./ Cá e lá,/ a 4.ª classe não é de brincadeira!

[2]Forma antiga de designar as escolas públicas, criadas na sequência da Reforma de Marques de Pombal, em 1759, como consequência da expulsão dos dos Jesuítas de Portugal, e que abriria caminho à instalação, em 1817, da primeira escola oficial nas ilhas.

[3]Corruptela do inglês “delayed”, atrasado.

[4]Sem nenhum dinheiro, como o Djósa do Madeiral, figura muito conhecida na época.

 

 

 

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