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MOCIDADE DE JOSÉ PEDRO

 

(Continuação)

 

Catástrofe

 

Na seguinte manhã, espantoso tumulto reinava a bordo da Carolina.

 

Os rostos dos marinheiros, onde na véspera se viam estampadas a satisfação e alegria, exprimiam agora o terror e a desesperação de uma grande dor.

 

Os bravos filhos do mar, que mil vezes encararam a morte destemidos, choravam como crianças, corriam de um lado para o outro do navio, sem tino como loucos, E por vezes, entre pungentes soluços, soavam lugubremente estas tristes palavras: "Morreu o capitão!"

 

Às 10 horas desta mesma manhã, admirado o contra-mestre de não ter visto ainda António Pedro aparecer sobre a tolda, como mui cedo costumava, entrara na câmara contígua à do brasileiro, a fim de interrogar Rodolfo, e saber se o capitão se achava incomodado.

 

Rodolfo era filho do contra-mestre. Disse a seu pai, que não havendo sido chamado ainda, não se atrevera a entrar no camarim do capitão.

 

Então o contra-mestre foi bater devagarinho à porta do camarim. Não obteve resposta. Bateu mais de rijo; o mesmo silêncio.

 

– Dá licença, capitão? perguntou ele.

 

Nenhuma resposta!

 

Como a porta apenas estivesse no fecho, o pai de Rodolfo, já algum tanto desassossegado, abriu-a com precaução, — e entrou. Dirigiu-se para o leito onde jazia imóvel o seu chefe, sem que os seus passos nem a sua voz o acordassem.

 

O brasileiro tinha os olhos meio cerrados, e dir-se-ia que dormitava tranquilamente. Mas o seu rosto estava pálido como o de um cadáver, e de um cadáver era a imobilidade de todo o seu ser. Uma das mãos pendia-lhe para fora do beliche. O contra-mestre pegou-lhe nela. Recuou aterrado. Aquela mão estava fria e inerte. Tacteando-lhe o pulso que já não batia, escutando-lhe a respiração extinta, o pobre homem louco de dor, acabou de se convencer da terrível realidade.

 

José Pedro era órfão de pai!

 

Rodolfo

 

O que esta triste e fatal nova produziu de penosa impressão no espírito dos marinheiros vimo-lo no princípio do capítulo precedente.

 

Imediatamente, todos invadiram o fúnebre camarim; e os que de lá saíram, vinham lavados em prantos, torcendo as mãos, e dando gemidos de dor.

 

Tal era o desvelo e carinho com que o honrado brasileiro tratava os seus subordinados, que não se poupava a despesas para lhes proporcionar todos os meios indispensáveis à vida, e mesmo todas as comodidades. Assim, havia a bordo um cirurgião.

 

Conhecendo que já eram inúteis os socorros da ciência àquele que fora seu superior e amigo, tratou de indagar a causa de tão fatal morte.

 

Nenhum sinal ou indício exterior lho dava a conhecer. Também não fora nem suicídio, nem envenenamento. António Pedro era um cristão exemplar, e amado de todos.

 

– O capitão queixava-se ontem de algum padecimento? perguntou o médico ao contra-mestre.

 

– Não senhor, respondeu este.

 

– Quem esteve com ele até ao último momento?

 

– Foi meu filho Rodolfo.

 

– Chame-o.

 

Daí a poucos momentos entrava o pequeno pajem no camarim para onde se haviam retirado o contra-mestre e o cirurgião.

 

Seu belo rosto vinha pálido e sulcado de lágrimas. A pobre criança tinha pelo brasileiro a afeição de um filho. Ele, da sua parte, quase não fazia diferença entre José Pedro e Rodolfo.

 

O cirurgião dirigiu-lhe a mesma pergunta que fizera ao pai. A mesma resposta obteve.

 

– Conta-nos o que passaste com ele à última hora, continuou ele.

 

– Esperei até às 10 horas que o capitão me chamasse, como costumava, para lhe dar as dormideiras...

 

– Ah! interrompeu o cirurgião estremecendo.

 

Lembrava-se de que, sendo o brasileiro frequentemente atacado de grande insónia, ele mesmo lhe aconselhara tomasse nessas ocasiões uma pequena porção de certa espécie de ópio mui subtil, misturada com água.

 

– E tu, continuou o médico para Rodolfo, que porção de dormideiras lhe deste?

 

– Creio que foi uma colherzinha... responde Rodolfo, assustado pela súbita mudança que se operar no semblante do cirurgião.

 

– Mais nada?

 

– Eu estava com muito sono... parece-me que... antes de encher a colherzinha... deitei a colherzinha... deitei mais dormideira no copo.

 

O médico soltou um grito espantoso.

 

– Desgraçado! exclamou o médico, mataste-lo!

 

– Eu?!... matei-o!... o capitão... tão meu amigo!...

 

E a pobre criança caiu semi-morta nos braços do pai.

 

O infeliz marinheiro sentia a alma repassada da mais pungente angústia, por ver que fora seu filho a causa, ainda que inocente, de tão desastroso acontecimento. — Pois provado estava que o haver Rodolfo ministrado ópio em demasia ao brasileiro, fora a causa do seu sono se prolongar eternamente.

 

....................................

 

Na Ilha Brava

 

Quatro dias depois do infausto acontecimento que acabamos de narrar, a Carolina reentrava no pequeno porto da Furna.

 

O seu vogar parecia mais vagaroso e triste. No topo do mastro de popa tremulava funebremente uma bandeira preta. Nas vergas não se via um só marinheiro saudando alegre a terra natal, e os amigos que de braços abertos os esperavam.

 

Depois de o navio lançar ferro e haver sido visitado pelo escaler de alfândega, fez-se participar o óbito de António Pedro às autoridades competentes, para que do caso fossem tomar nota e lavrar o respectivo auto, e igualmente se mandou aviso à família do finado.

 

António Pedro, ao partir da terra onde deixava as suas mais caras afeições, quis também deixar nele um peito em que se pudesse confiar, e que protegesse e consolasse estes entes queridos durante a sua ausência.

 

Este amigo era João Gay.

 

Como no dia em que o brasileiro recebera a funesta carta de seu tio, a sua família se achava reunida, porém à cabeceira via-se vago um lugar. Era o dele.

 

E Júlia, triste e abatida, conversava com João Gay sobre a viagem de seu marido, deixando entrever mil receios e presságios funestos, que João Gay não conseguia dissipar.

 

De repente, entrou na sala um homem trajando de preto, o qual logo à primeira vista se conhecia ser marinheiro.

 

D. Júlia e João Gay levantaram-se ao mesmo tempo, como se fossem movidos por uma mola. Acabavam de reconhecer naquele homem que trajava de luto um dos marinheiros da Carolina.

 

– Que há de novo, Pancrácio  – perguntou João Gay com voz trémula.

 

Ao cumprimentar a infeliz esposa do seu defunto capitão, duas grossas lágrimas se escaparam do olhos do marinheiro rolando-lhe pelas faces tostadas.

 

– Meu marido!... meu marido!... bradou a pobre senhora.

 

– Morreu!... soluçou Pancrácio.

 

Como se um raio a tivesse fulminado, D. Júlia caiu redondamente no pavimento, dando um grito sufocado. Transportaram-na inanimada para cima dum leito. Os mais assíduos cuidados conseguiram reanimá-la. Porém a infeliz só teve tempo para depor na fronte do filho um ósculo ardente, longo e apaixonado, um ósculo de mãe, o derradeiro. E nos seus braços, sentindo o rosto orvalhado das suas lágrimas, deu a alma ao Criador!

 

....................................

 

Pobre José Pedro! Tão moço, e já tão infeliz! Eis-te órfão, só no mundo!... Quem te guiará no mar proceloso da vida? Quem livrará tua frágil mocidade de encalhar nos escolhos terríveis e imensos das paixões?

 

Quem?... Ainda te resta um amigo, um segundo pai — João Gay a quem tua mãe te confiou na sua hora derradeira.

 

Quanto ao infeliz Rodolfo, que poderia a justiça fazer contra uma pobre criança, que não teve consciência do mal que fez?

 

Porém seu pai, oprimido de dor por haver, embora indirectamente, levado a desgraça ao seio de uma família a quem devia tantos e repetidos benefícios, entendeu que se devia impor, e a seu filho, a pena dolorosa de não tornar a aparecer na ilha, enquanto nela durasse a memória de tão infausto sucesso.

 

Alistou-se com seu filho num navio mercante inglês que se achava no porto, e poucos dias depois afastavam-se, talvez para sempre, da terra natal.

 

O tio de António Pedro morreu sem ter a consolação de o abraçar, instituindo-o seu universal herdeiro.

 

Tríplice luto para o desditoso adolescente!

(Fim Primeira Parte)

 

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