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SEGUNDA PARTE

 

JÚLIA

­­­­­­­­_____

 

Vinte Anos Depois

 

Vinte anos são decorridos depois dos acontecimentos que fizeram o objecto da primeira parte desta verídica história.

 

De então para cá importantes mudanças tiveram lugar na vida do nosso herói, as quais cumpre-nos não esquecer.

 

Guiado no bom caminho pela solicitude paternal do João Gay, seu tutor e amigo, José Pedro tornou-se um mancebo varonil de esmerada educação.

 

Saindo da escola aos quinze anos, entendeu que não devia esbanjar no ócio e em falsos deleites as imensas riquezas que de seu pai herdara, nem votar ao ostracismo os importantes conhecimentos que adquirira, as noções de honra, trabalho e caridade que recebera de seu pai, seu mestre e seu tutor.

 

Bem abonado pelo seu comportamento exemplar, atestado pelas principais pessoas da terra que sabiam apreciar os dotes raros deste mancebo, José Pedro alcançou um lugar de escrevente nas repartições da alfândega da ilha Brava. E como árvore também cultivada devia dar bons frutos, aos vinte anos era ele um distinto amanuense, honrado de seus superiores que lhe tributavam grande deferência, estimado e respeitado dos seus iguais e inferiores.

 

Então resolveu o mancebo dar o primeiro passo para a realização do mais ardente voto da sua vida.

 

Dotado de uma alma terna e sensível, acessível a todos os bons sentimentos, José Pedro amava. Amava com a paixão sincera e pura dos vinte anos, do primeiro amor.

 

Chamava-se Elvira o objecto dos seus castos amores. O pai da donzela era o superior do moço amanuense, o director da Alfândega.

 

Feitos um para o outro, o pai de Elvira entendeu que devia unir estes dois corações pelos sagrados laços do himeneu. E três semanas depois de haver pedido a seu chefe a mão de sua filha, José Pedro conduzia sua noiva aos pés do altar, e com o coração transbordando do mais inefável júbilo e amor, jurava fazer a felicidade daquela a quem estremecia mais do que à própria vida.

 

Desta sagrada união resultou um fruto, o complemento da felicidade dos dois esposos. José Pedro foi pai de uma encantadora menina, a qual quis que se chamasse Júlia, em memória de sua sempre chorada mãe.

 

Neste meio tempo teve José Pedro a desdita de perder seu segundo pai, João Gay.

 

Júlia

 

Como era bela aos quinze anos a filha de José Pedro!

 

Seu rosto levemente moreno, dum aveludado igual ao do pêssego, era emoldurado por uns cabelos pretos, compridos e acetinados, que se lhe espalhavam pelas costas, de um contorno admirável, em tranças opulentas e lustrosas como o azeviche. Seu corpo donairoso, alto e flexível como a palmeira, parecia não se poder suster uns pezinhos encantadores escondidos nuns sapatinhos de criança. E seus olhos negros e rasgados, de uma expressão indefinível que assombreados por bem desenhadas pestanas, lançavam às vezes daqueles reflexos que são o espelho da alma e a sua voz, que falam muito na sua mudez, e parecem dizer ao imprudente que se atreve a fitá-los, a palavra mágica  – amor!

 

Mas o amor ainda não fizera palpitar aquele juvenil coração. — Quantos corações porém não palpitavam já por ela, tímidos e receosos?

 

Entre os mancebos, alguns dos quais bem distintos, que requestavam a formosa filha de José Pedro, fazia-se notar um certo Ricardo, de apelido Galvão, moço pródigo e libertino, temido e odiado de todos, mas procurado e respeitado pelo seu ouro.

 

Este ouro e os encantos naturais de sua pessoa haviam feito decair muitos anjos, correr muitas lágrimas.

 

José Pedro, que não ignorava os precedentes do mancebo, de quem até se contavam crimes inauditos, vigiava a filha com a solicitude com que um bom pastor guarda a ovelhinha querida que teme ver cair nas garras de lobo voraz.

 

A casa de Ricardo Galvão era contígua à de José Pedro na mencionada povoação de Santa Ana.

 

Apesar desta circunstância, e das arrojadas pertinências do mancebo nas poucas ocasiões em que via a Júlia, jamais lhe pudera surpreender uma palavra, um olhar, um gesto sequer.

 

Todavia, as dificuldades e resistências não fizeram mais do que irritar a sensibilidade pouco delicada do mancebo; e o sentimento inteiramente sensual que dantes experimentara pela filha de José Pedro, foi-se convertendo pouco a pouco em amor — se este sentimento casto e puro pode penetrar num coração corrompido pelo vício das paixões. O amor que o libertino Galvão experimentava pela angélica Júlia era um amor profano, por assim dizer, desesperado, furioso, insensato.

 

Pedido em Casamento

 

Estavam as coisas neste ponto, quando certo dia anunciaram a José Pedro a visita do seu vizinho Ricardo Galvão.

 

O honrado pai de Júlia não deixou de estremecer pensando no que motivaria aquela visita inesperada e fora de comum nos hábitos do seu vizinho.

 

Disse que o introduzissem na sala, onde logo o foi receber.

 

Ricardo vinha esmeradamente trajado. Suas maneiras tinham então uma certa distinção e elegância. E Galvão, cremos tê-lo já dito, era de si mui bem apessoado.

 

Depois dos cerimoniosos cumprimentos do estilo, José Pedro perguntou-lhe a que devia a honra da sua visita.

 

Ricardo, procurando dar à fisionomia hipócrita um certo ar de virtude e modéstia que estava bem longe de ter, expôs ao pai de Júlia o seu amor pela sua filha, terminando por lha pedir em casamento.

 

José Pedro, interiormente indignado, mas sempre grave político, respondeu ao pretendente com voz firme e resoluta:

 

– Senhor... a mão da minha filha só a concederei a quem dela for digna.

 

Galvão levantou-se de pulo; e com os chamejantes, os punhos crispados, pegou no chapéu e dirigiu-se para a porta, lançando ao mesmo tempo ao esposo de D. Elvira um olhar de ódio mal contido e de vingança certa. Cumprimentando ironicamente José Pedro, medonho sorriso lhe contraía os lábios. Este sorriso era ao mesmo tempo uma ameaça e uma advertência para o pai de Júlia.

 

Deixa estar, meu bigorrilhas!... rosnava ao sair corrido da casa de José Pedro, tu verás que Ricardo Galvão nunca foi ofendido impunemente. Ele!... rejeitar para a filha o meu nome, quando muitas o aceitavam, beijando-me os pés!... Pois eu a possuirei! Não como esposa, tolo que fui!... Obrigado, meu amigo... muito obrigado. Eu a possuirei, possuirei Júlia, as suas riquezas, e... a vingança!

 

E os olhos do libertino brilhavam, mostrando o prazer insensato que nele despertava o sentimento de vingança.

 

A Emboscada

 

Entretanto passam-se cinco dias, sem que da parte de Ricardo se note o menor movimento agressivo contra José Pedro.

 

Neste meio tempo, o pai de Júlia que não deixara o emprego depois de casado é pelos seus deveres de oficial de alfândega a inspeccionar um navio inglês que acaba de entrar em Fajã de Água, outro porto da ilha Brava, mais espaçoso que o da Furna.

 

O segundo piloto da galera inglesa é um rapaz bem apessoado e robusto, de bigodes fortes e pretos, cabelos também preto e comprido, fisionomia leal e simpática. Todo o seu exterior, a sua mesma pronunciação denota não pertencer ele à mesma nação que o resto da equipagem.

 

Este homem parece não poder despregar os olhos do pai de Júlia. Porém José Pedro não repara na visível comoção do mancebo, que ao contemplá-lo sente marejarem-lhe as lágrimas nos olhos.

 

Concluído que foi o seu trabalho, José Pedro regressou para terra. É noite fechada. A lua que nasce desenha na estrada formas fantásticas penetrando através dos densos renques de purgueira que orlam o caminho.

 

Preocupado como vai em seus pensamentos, o esposo de D. Elvira não repara num homem embuçado em ampla japona o segue a uns trinta passos de distância, sem contudo o perder de vista.

 

Ao passar por um sítio despovoado onde o caminho era muito estreito e sombrio, seis homens armados de possantes manducos o cercam e antes que José Pedro tenha tempo de fazer o menor movimento, furiosas cacetadas o prostram do cavalo abaixo.

 

Então um sétimo homem sai da emboscada. Nas mãos lhe reluz um ferro. Ergue o braço para ferir o pai de Júlia já inanimado. Súbito, ouvem-se passos precipitados, e um tiro de pistola ressoa a dez passos de distância.

 

O assassino cai ao lado da sua vítima, tendo-lhe a bala varado um ombro. Os seus cúmplices dando-o por morto e julgando-se perseguidos o desampararam.

 

Chega o salvador de José Pedro. Apalpando-o ansioso, que está mal ferido, mas não morto, carrega com ele nos possantes braços, e, como conhecedor do trilho, veloz o transporta.

 

O homem que tão covardemente pretendera assassinar o pai de Júlia, era, já os nossos leitores terão adivinhado, o infame Galvão. E aquele que o salvou — o moço piloto do navio inglês.

 

(Continua)

 

 

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