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Nha Nené d'Virisse

Brito-Semedo, 30 Abr 10

 

Dia das Mães

 

A Nha Nené d’Virisse era uma mulher de Santo Antão, viúva, pequenina, que trajava sempre blusa branca e saia preta larga até aos pés e usava bolso de pano por baixo da saia, onde guardava de tudo – moedas, botões, tabaco, canivete e outras coisas mais que faziam a delícia da meninada.

 

Amarrava o lenço claro com o nó no alto da cabeça e fumava canhóte[1]. Era mãe de cinco filhos, três rapazes e duas meninas – a Djódja, o Xenxo, o Olavo, o Casimiro e a Joninha – e avó de muitos netos. Recordo-me bem dela, pois morreu com mais de noventa anos, era eu já adulto.

 

A casa de Nha Nené d’Virisse, em Chã de Cemitério, era, para mim, praticamente uma extensão da minha – sobretudo quando fazia traquinices e queriam ver-se livres de mim lá em casa e me mandavam brincar na rua – mesmo ao lado da nossa, empena com empena.

 

Mas o que mais me encantava nessa casa não era ter um passeio de cimento, onde eu corria os meus carrinhos, primeiro de lata, depois, de rolamento, ou mesmo ser assoalhada ou ter vários quartos, todos seguidos, na ala direita, para as brincadeiras de mangatchada[2], mas, principalmente, por ter um grande quintal onde criavam cabras e outros animais.

 

O deleite dos meninos era estar com essa bicharada, assustar as galinhas que dormiam apoiadas num único pé, correr atrás das cabras para lhes mamar o leite, montar nos bodes. Quando ia lá a casa brincar com os netos da minha idade, Xande e Maguí, desafiava-os para essas travessuras. Lá íamos nós, yupi!

 

As minhas noites do período quente, meses de Julho, Agosto e Setembro, eram passadas na rua, no passeio em frente à porta da casa de Nhô Virisse. Eu comia a minha cachupa sepulkóde[3] à pressa e ficava irrequieto a fazer tempo, à espera que os vizinhos saíssem pela meia-porta fora para armar a cadeira de lona para a Nha Nené, arrumar as cadeiras e os mochos[4] para os mais velhos e estender a esteira no passeio para a criançada. Tudo para apanhar o fresco de alguma aragem que soprasse no fim do dia.

 

Por essa altura, já tinham chegado os netos e os bisnetos do Alto Mira-Mar acompanhados dos pais, que vinham para esparajar[5], e formava-se ali um grande grupo.

 

Enquanto os mais velhos conversavam, as crianças (eu incluído) brincavam à apanhada ou ao stick out[6]. Às tantas, cansados de tanta agitação, juntávamo-nos a contar e a ouvir histórias. Dali, muitos eram depois levados ao colo para a cama, porque tinham adormecido, entretanto.

 

A Mãi Liza, contudo, exigia que eu lavasse os pés sujos primeiro, para não encardir os lençóis. Eu resmungava e queixava-me que tinha tcheu[7] sono, mas ela não abria mão disso: – Viesses mais cedo!

 

Uma figura permanentemente invocada nessas sessões familiares, por tudo e por nada, era o Nhô Virisse – Veríssimo Santos, de seu nome próprio – o patriarca da família, cujo retrato em ponto grande era mantido numa grande moldura oval num lugar de destaque na parede da sala, do lado esquerdo, que terá morrido quando eu era ainda muito novo, e a quem aprendi a admirar e a respeitar.

 

Anos mais tarde, contou-me a filha, a Nha Joninha, colega da minha mãe e minha madrinha de registo, juntamente com o irmão Casimiro, que, nesse tempo, eu acordava muito cedo e saía logo para a rua, nuzinho, a comer um pão inteiro, pois dizia que não o queria “sem tampa”, ou seja, só uma metade.

 

Como eu era muito gordinho – louvar-a-Deus, esconjurava a Mãi Liza, que me achava bonito assim – o Nhô Virisse divertia-se em espirrar-me água fria para me ver correr, assim rechonchudinho, o que eu fazia com a dificuldade das minhas pernas roliças.

 

Volta e meia, Nhô Virisse dizia a frase que a Nha Joninha me tem repetido ao longo dos anos, sempre com grande orgulho e muito apreço: – Escrevam o que eu digo: Êss m’nine ta dá gente![8]

 

N´ê ke k’el m’nine dá gente[9]?! – diz-me ela, hoje, toda sorridente.

- M. Brito-Semedo
 

[1] Cachimbo.

[2] Jogo às escondidas.

[3] Cachupa mal cozida ou por apurar.

[4] Bancos de cozinha.

[5] Espairecer.

[6] Por vezes também chamado hands up, do inglês, por influência dos filmes de cowboys, e que significa “mãos ao ar” (o mesmo que jogo de polícias e ladrões).

[7] Muito.

[8] Este menino vai dar gente!.

[9] E não é que aquele menino se fez alguém?!

 

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