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Crónicas Esquecidas de Afro

Brito-Semedo, 3 Mai 10

Foto Gerson Brito-Semedo, 2005

 

A partir deste número, com uma regularidade quinzenal, passarei a postar uma recolha de textos que datam dos inícios da República Portuguesa, sob o título genérico de Crónicas A Manduco. Esquecidos para alguns e desconhecidos para muitos, estes textos são testemunhos eloquentes do papel desempenhado pela elite intelectual cabo-verdiana das primeiras décadas do século vinte, de que se destaca o jornalista e político Pedro Monteiro Cardoso na luta pela dignidade dos filhos da terra e pela autonomia das Ilhas. Daí ter querido sacudir o pó do tempo a essas crónicas e restituir-lhes um pouco do brilho da sua época.

 

A Manduco...são, pois, 33 crónicas de intervenção cívica e política publicadas em 37 números do jornal A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919), entre 21 de Maio de 1911 e 17 de Agosto de 1914, na secção homónima, onde, durante três anos (7 artigos em 1911, 18 em 1912, 4 em 1913 e 8 em 1914), Pedro Cardoso, aliás, “Afro”, das ilhas de S. Nicolau, Boa Vista e S. Vicente, zurziu e alimentou polémica sobre os mais diversos assuntos, da arborização, da estiagem e da fome, ao analfabetismo e à instrução pública, passando pelas questões do Nativismo, da Raça Negra e da autonomia da província, sempre em defesa dos interesses dos filhos das ilhas.

 

O propósito da secção é assim explicado pelo autor no seu preâmbulo: “[...] ‘a manduco’ é simplesmente o título de uma nova secção onde discretamente, sem ódios nem lisonjas, e a bem dos interesses da província, se dirão verdades... agridoces”.

 

Posteriormente, em 1923, Monteiro Cardoso funda na sua ilha natal o jornal O Manduco (Fogo, 1923-1924), de que foi proprietário, director e editor, do qual se viu obrigado a trespassar a “um grupo de comerciantes e proprietários amigos” e a direcção a Eugénio Tavares, “em todos os tempos o maior jornalista da Província”, por incompatibilidade com o seu estatuto de funcionário público. Em O Manduco Pedro Cardoso amplia o espírito das suas crónicas, continuando a bater a favor das suas convicções, do progresso da sua ilha natal e da província de Cabo Verde.

 

A colaboração de Afro n’A Voz de Cabo Verde surge numa altura de profundas mudanças e de efervescência política em Portugal, cujas rivalidades partidárias acabariam por ser transportadas para as Ilhas.

 

A instalação da República cedo revelou as rivalidades e as lutas não tardaram a surgir. O Governo e o Directório do Partido incompatibilizaram-se, aquele apontando para uma via mais radical e revolucionária, este pugnando por uma maior moderação no conjunto das medidas imediatas a pôr em prática. Dentro do Governo não eram menores as rivalidades, opondo o ministro mais radical, Afonso Costa, secundado por Bernardino Machado, a António José de Almeida e a Brito Camacho. Cada um destes dois últimos tinha a sua clientela, constituindo os gérmens de futuros partidos políticos, e os seus órgãos na imprensa diária, respectivamente, a República e a Lucta, fazendo face ao poderoso Mundo, porta-voz dos dois primeiros.

 

A divisão entre republicanos complicava-se ainda pela existência de grupos marginais, mas activos e aguerridos, por onde se canalizavam toda a espécie de despeites, de ódios pessoais e de descontentamentos.

 

Em Cabo Verde, depois de quatro meses e meio (Outubro de 1910 a Março de 1911) do governo de Marinha de Campos, Primeiro-Tenente da Administração Naval, reformado, e figura destacada da revolução de 5 de Outubro, contestado por algum sector da população, particularmente da Igreja Católica, pela sua política radical, dirigia a província, como Governador-Geral, o Capitão-tenente da Armada Júdice Biker (1911-1915).

 

Desde logo houve incompatibilização entre o novo governador e os apoiantes de Marinha de Campos, que é como quem diz, os “fazedores” do jornal A Voz, que se viram na necessidade de criar a sua própria gráfica, a Tipografia de A Voz de Cabo Verde, como forma de se autonomizar em relação à Imprensa Nacional, tendo radicalizado o seu discurso contra o governador Biker. Das oficinas da Imprensa Nacional sairiam O Progresso, em 1912, e O Futuro de Cabo Verde, em 1913, que viriam dar combate ao A Voz de Cabo Verde.

 

Na sequência das liberdades de expressão e de pensamento trazidas pelo novo regime, surgiriam, durante este período de 1911-1914, vários jornais: O Recreio(S. Nicolau, 1911), A Fénix Renascida (S. Nicolau, 1911-1913), O Independente(Praia, 1912-1913), O Progresso (Praia, 1912-1913), O Mindelense (S. Vicente, 1913), A Tribuna (Brava, 1913-1914), O Futuro de Cabo Verde(Praia, 1913-1916), A Defesa (Fogo, 1913-1915) e O Popular (S. Vicente, 1914-1915), para além de A Voz de Cabo Verde(1911-1919), claro.

 

A instrução foi um tema caro para Afro, tendo-o abordado em cinco números do seu “A Manduco...”, criticando a insuficiência numérica de escolas para a população em idade escolar, a deficiência do ensino nelas ministrado, a desproporcionalidade de géneros na sua frequência, bem assim a falta do ensino técnico e profissional, entre outros.

 

O Nativismo e a Raça Negra são outros temas recorrentes destas crónicas, este último, tratado com o apoio de leituras e de textos de periódicos portugueses.

 

Num dos seus ”A Manduco...”, em protesto contra as ambições da poderosa Alemanha, Afro tem um desafogo final: “Antes a [albarda] portuguesa que é leve e macia, e com dois respingos se pode atirar fora”. Estava dado o mote. O jornal O Progresso contesta, A Voz de Cabo Verde manifesta apoio incondicional ao seu colaborador Afro volta à carga assumindo o Nativismo e instala-se a discussão sobre um tema que viria a prolongar-se por vários anos e fazer correr muita tinta.

 

Pan-Africanista convicto, haja em vista os seus poemas "Pró Africa" (1911), “Unidos, Avante”, em homenagem aos operários mindelenses fundadores da “Associação 1.º de Dezembro” (1913), "Ode à Africa", dedicado aos delegados portugueses ao II Congresso Pan-Africano, em 1921, presentes nas sessões de Bruxelas (31 de Agosto a 2 de Setembro) e Paris (14 e 15 de Setembro), Afro publicou duas crónicas sobre a raça negra – "Raça Negra. Luís Gama" (1913) e "Raça Negra. Toussaint-Louverture" (1913) – onde manifesta o seu orgulho de ser africano.

 

Um último aspecto a assinalar nas crónicas de Afro é a cultura clássica e humanista vastíssima do seu autor, adquirida no Seminário-Liceu (S. Nicolau, 1866-1917), onde Pedro Cardoso cursou a Instrução Secundária do Curso Preparatório.

 

Título: Pedro Cardoso – Textos Jornalísticos e Literários

Autor: Pedro Cardoso

Organizadores: M. Brito-Semedo e Joaquim Morais
Edição: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
Ano de edição: Praia, 2008

 

 

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