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Amor! Ai! Quem dera!

Brito-Semedo, 7 Mai 10

Rua da Praia, Mindelo (Arquivo Histórico Nacional, Praia)

 

Há criaturas nascidas para se amarem. Se lhes perguntarem desde quando se principiaram a estimar, não o saberão dizer, por mais que busquem ou inquiram, parece-lhes mesmo que antes de virem ao mundo tinham sido inscritas no livro do destino que ata e desata.
 
Um escritor espanhol diz que há conventos tácitos que dão um éden de desconhecidos gozos de alma ao homem e à mulher que se amam em segredo.

O século actual crismou estes amores de assolapados, mas ainda hoje de vez em quando aparecem esses amores puros e santos que vós veneramos, por isso que nossos pais nos contavam as histórias ao serão das serenatas às portas dos conventos aonde os motes e as glosas mais finas se trocavam através daquelas grades que prendiam tão formosas damas brilhando pelas suas virtudes e pelo seu espírito.

Os tempos que correm são outros, mas desgraçada da regra se não fosse a excepção.

 

___

 
Em 1870 na ilha de S. Vicente existia uma formosa e elegante menina possuidora de mais duas formosas e elegantes irmãs.
 
Deus querendo formar com elas uma perfeita bouquet deu a cada uma a sua cor. Uma era branca qual perfumado lírio; a segunda era morena e a terceira era trigueira.
 
As duas primeiras realizaram os seus castelos de cartas, os seus sonhos dourados. Ambas casaram muito bem, depois de leves oposições. Restava a terceira que conheci naquela ilha, e vos posso afiançar caras leitoras e leitores, ser o ente mais perfeito que o criador formou. Saíra ela de forçosamente de um beijo da virgem. Um rosto oval com as linhas mais perfeitas, alta como tenro e delicado arbusto que se baloiça ao sopro da brisa da manhã, a cintura podia cingir-se em um pequeno anel, a mão mais mignone que se pode imaginar, e um pé que se podia bem esconder na algibeira do colete. No seu rosto espelhava-se a graça da bondade e a melancolia da ternura. Não sei mesmo dizer se os anjos lhe não teriam inveja.

 

*

 

Um dia festejava-se um aniversário de uma senhora muito conhecida na ilha, e toda a sociedade mais escolhida aparecera nos salões da nobre dama.
 
Entre as senhoras mais formosas encontrámos Georgeta da Silva a quem oferecemos o nosso braço em recompensa da primeira quadrilha.
 
Durante o resto do templo observámos que o seu par constante era Rodrigo Monteiro, um rapaz belo, sonhador de idílios, e capaz de diligenciar apanhar uma estrela ao firmamento para oferecer à mulher a quem amasse. Até ali tinha sido virgem o seu coração.

Rodrigo Monteiro era um dos meus mais predilectos amigos, conversava comigo as suas confidências mais pequenas. Era uma alma de ouro.

Seis horas da manhã batiam e um dourado horizonte dava os prenúncios de que o rei do dia vinha visitar-nos.

Os últimos sons da orquestra eram como que um dobre para muitos corações.

Eu e Rodrigo Monteiro saímos pelo braço um do outro e fomos para a nossa casa, deitando-se ele em cima de um sofá.

– Dá-me um livro para fazer sono  – disse-me Rodrigo.
 
Dei-lhe um livro de poesias de Mendes Leal.

Poucos momentos depois sentia-o a chorar e indo ler o livro encontrei:


"Ao ver-te a vez primeira nesse baile,
Radiante de galas e de amor,
Perdi-me a contemplar-te transportado,
E ceguei-me do teu rosto no fulgor."

 

Eu tinha direito a pedir explicações daquela abertura dos selos do coração do meu jovem amigo.

Soube então que dois olhares se abraçaram e que dançaram até ao fim e ainda mais que houvesse.

Seguiram-se os dias aos dias, as semanas passaram, os meses aos meses, os anos uns aos outros, os dois jovens namorados levantavam-se com os passarinhos; Rodrigo passava por defronte de casa da Georgeta, sem terem durante esse tempo dirigido uma única carta um ao outro.

São estes os amores espirituais para os quais é desnecessária a matéria.

Ambos escreviam dia a dia o seu diário, com as mais pequenas impressões da alma que se agitavam entre um e outro.

Não pensavam no futuro, liam sobre o presente, a felicidade auriam-na com a esperança de um dia se reunirem e cambiarem os mais santos afectos.

Rodrigo Monteiro pensou um dia em que a carreira mais nobre que tinha a escolher era a militar, porque com os conhecimentos que tinha podia vir a ser oficial.

Assentou praça na companhia da ilha aonde seguiu até ao posto de primeiro-sargento, sendo despachado alferes para S. Tomé. Os parentes empenharam-se e conseguiram a transferência do jovem oficial para caçadores 1, sendo nomeado comandante da ilha.

Romeu e Julieta amavam-se como no primeiro dia em que se tinham visto.

Em 1879 era agitada a cidade da Praia pela triste notícia da morte de 50 dos nossos soldados nas praias de Bolor.

Estes acontecimentos determinaram o ser decretada a transferência do Batalhão para a Guiné.
 
Derramaram-se lágrimas de despedida e lá se foi por esse mar fora a bordo da corveta Duque da Terceira o simpático batalhão.
 
A canhoneira Rio Lima foi a S. Vicente e trouxe o resto da força.
 
Rodrigo Monteiro não tivera tempo para despedidas. Enviara pelos ares um beijo a Georgeta e caíram-lhe as lágrimas ao embarcar no escaler.
 
Georgeta soube da partida de Rodrigo só ao meio-dia, ajoelhara aos pés da virgem da Conceição e orara.


*

Rodrigo Monteiro desembarcara em Bissau e essa noite escrevera compridas páginas no seu diário, interrompido pela viagem, por isso que durante a travessia padecera bastante do mal do mar.
 
Os seus companheiros de armas achavam-no mudado, triste, afastado, rabugento, hipocondríaco.

Não tinha a alma ainda temperada na desventura e sentira somente dela os ressaibos.
 
O Batalhão estava em Bissau pouco tempo, embarcou novamente na corveta e desembarcou no dia 2 de Maio na capital debaixo da primeira chuva da estação pluviosa. Rodrigo foi hospedado pelo capitão Fonseca que lhe deu um esplêndido quarto e uma mesa opípara.
 
O nosso alferes sentia-se morrer; cada dia que passava causava visíveis estragos naquela débil organização.
 
Ele não se queixava mesmo porque não tinha de quê.
 
Admirava a soberba vegetação que orla as margens do rio, surpreendia-o a soberba majestade e sempervirente poilão, misteriosa árvore que se deixa despir da sua folhagem, para como para encanto se cobrir dela, mais mimosa e esmeráldica.
 
Surpreendia-o ainda esses bosques umbrosos, frescos, extensos, sem fim, formados das mais ricas e copadas árvores aonde se engrinaldam formosas e elegantes trepadeiras com as suas flores miríades debruçadas da ramagem.
 
E os bandos de grandes aves de miríade de cores, que estendem no espaço as suas compridas asas ou poisam nas praias de areia?

E os mil passarinhos em ranchos alegres, em famílias, que cantam e chilreiam as mais harmoniosas melodias, saltitando de árvore para árvore e de ramo para ramo afastando-se ao sentirem os mais leves passos no mato?

Rodrigo Monteiro ia todos os dias à caça mas trazia sempre a arma carregada.
 
Um livro que o acompanhava trazia porém soberbas impressões que a alma sente e jamais esquece.


*

Quando vinha o vapor das ilhas e nele pessoa conhecida, o alferes Monteiro informava-se de Georgeta, da mãe, nobre e distinta senhora.
 
Nas noites de luar, chamava ele ao arruinado e velho satélite sua madrinha, via o molho de couves tradicional naquelas manchas escuras, e encarregava aos raios luminosos daquele astro de serem portadores dos seus sonhos e pensamentos à ilha que guardava o seu encanto.
 
(...)
_________
  
P. S. – Conto publicado no número 44, de 28 de Abril de 1881, do jornal A Imprensa (Praia, 1880-1881), de que não se conhece o desenvolvimento nem a conclusão.

 

 

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