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O Sonho – Memórias dum Doido (1)

Brito-Semedo, 14 Jun 10

 Foto do Google, Autor Desconhecido

 

 

Acordo, mas metade da existência

 

Não acordou em mim. Ficou no sonho

 

A máxima porção da minha vida!

 

 

 

(Garret – "Dona Branca")

 

 

I

 

Adormecera, com os ouvidos da alma cheios dos melodiosos versos de Garret. E tive um sonho.

 

Era um palácio esplêndido, encantado, em cuja distribuição interior se acumulavam as maravilhas dos contos orientais, e cujos muros de soberba arquitectura, exteriormente revestidos de mosaicos de pedras preciosas, chispavam ao sol poente, reflexos trémulos, duns tons afogueados, em que se combinavam todas as reverberações do espectro solar.

 

Onde fosse edificado não sei, não dizia o sonho. Só me lembra que o meu palácio, banhando na água os últimos degraus da larga escadaria de mármore do seu vestíbulo, se espelhava num lago, mar ou rio, mas de tranquila imobilidade, ondas tão serenas, que mais parecia um imenso espelho reflectindo o azul do céu com os mil cambiantes da luz sobre o cristal.

 

Talvez fosse à beira do Tejo, cujas areias de oiro encerram o corpo de Irene, e cujas ondas harmoniosas rolam ainda os maviosos suspiros de Camões; talvez na formosa Itália, em Veneza, a poética rainha do Adriático, ou nas decantadas margens no Lago do Cômo; talvez debruçando-se nalgum dos canais fantásticos de Amsterdão e Estrasburgo, ou pendurando-se das colinas que bordam o Bósforo cintilante.

 

II

 

E vi-me, subindo as escadarias daquele palácio à hora do sol poente.

 

Eu levava os braços, inanimados, uma virgem, a mais formosa criação... dum sonho.

 

De onde vínhamos?... Quem era a rapariga?... Que diacho tinha eu feito?...

 

Não sei!... Também não dizia o sonho. Este só dava a entender que eu acabava de salvar Branca dum grande perigo, talvez arrancando-a à espuma das ondas.

 

Branca?... Sim, era este o nome que lhe dava o duende do meu sonho, e... coisa singular! – Ela chamava-se Branca, e era morena... como tu.

 

Como tu, ela tinha também grandes olhos castanhos, naquela hora suavemente velados pelas sedosas pestanas, e opulentos cabelos da mesma cor, então soltos, bastos, caídos pelo peito e espáduas semi-nuas, envolvendo-me todo e inebriando-me com um perfume suavíssimo, que não era o de nenhuma essência conhecida... o perfume da virgindade e beleza excelsas, o perfume de Branca.

 

Formosíssima!...

 

Era ainda uma criança, teria apenas 15 anos. Eu prefiro as boninas às rosas desabrochadas. Não lhe devasso os nectários, mas deleita-me o pensar que há ali mel e perfumes que ninguém ainda gastou nem aspirou... Belezas do céu!... Adoro-as.

 

Ela, Branca, era morena: mas desse moreno cor de oiro e levemente rosado como só se encontra entre as filhas do meu país, nascidas de pais europeus, e cuja epiderme o sol africano beija amorosamente, como o sol da Europa morde as maçãs. É assim que tu és morena. Somente... Branca era incomparavelmente mais formosa.

 

III

 

E vi-me, cingindo ao peito ofegante esse corpinho gentil e delicado, cuja suave morbidez como que absorvia todo o meu ser e me escaldava o sangue, sentindo no rosto o calor das suas pomas divinamente contorneadas, que como opressas pelo espesso véu das tranças que as velavam; e os lábios, entreabertos, mimosos, como um botão de bromalia cortado ao meio por dois fios de pérolas, frementes, palpitavam sob o calor dos meus beijos.

 

Tu sabes que eu sempre fui guloso...

 

E assim atravessei as salas daquele palácio maravilhoso, por entre alas de cortesãos que se curvavam à minha passagem saudando-me como libertador da princesa Branca... É verdade! o sonho, neste ponto, e com a mesma prodigalidade e sem cerimónia, declara Branca princesa. Um pouco mais, e estávamos em pleno poema de Garret... Faltava só que o travesso gnomo de meu sonho me revestisse com o magnífico turbante e borzeguins recamados de pedrarias, de moiro gentil.

 

Mas eu... era sempre eu! Não mudara nem um ponto, o meu vestuário não primava pela garridice, e de mais, era lutuoso. E no rosto a mesma expressão taciturna e desconfiada, que certo autor comparou à placidez receosa do surdo, que é apenas um segundo rosto aberto no primitivo, e que tem o mesmo cunho da maldade com que uns canalhas estamparam na fronte nobre e inocente de Gwinplaine a máscara do ritos perpétuo...

 

Voltemos, porém ao meu sonho.

 

Depus Branca ainda meio desmaiada nos braços do pai, que me agradecia calorosamente; os cortesãos conclamavam os meus louvores (não sei bem porque, mas bastava serem cortesãos...); e somente a mãe da princesa, uma altiva criatura, soberba e feia como os demónios, lançou-me um olhar desdenhoso, frio, envenenado como o gume dum punhal malaio.

 

IV

 

Aqui há interrupção do meu sonho, sem que saiba o que fiz nem o que me sucedeu até que me tornei a encontrar com a princesa Branca.

 

.....................................................................

 

Olha... há assim lapsos na minha vida, durante os quais parece-me que não vivi... Foi, talvez antes de amar: e depois de te encontrar, quando te não via; e depois... quando te perdi...

 

Porque tu foste para mim a vida, a revelação duma existência nova, duma consciência boa essa que palpitava ignorada no meu ser, como a borboleta na larva. Foste a irisação esplêndida, o sol desconhecido que me iluminou de repente o mundo novo do amor!

 

Eu era João Valgean, e tu a minha Cosette, a minha filha, a minha Cosettesinha!...

 

Antes de te conhecer, antes de te encontrar, houve só um tempo em que fui realmente feliz, em que posso dizer que vivi: foi no alvorecer da vida.

 

Oh! sim, eu fui muito feliz, quando em torno à choupana de minha mãe brotavam as roseiras bravas, pródigas de flores e de perfumes, e que ia, com os cabelos soltos ao vento, divagar pelos copados bosques de bananeiras, cujas largas folhas são dum verde de tão linda transparência, principalmente se as batem grandes ondadas de chuva; e depois vinha cansado, abrigar-me no seio de minha mãe, que me limpava o suor e anediava os cabelos com as suas mãos trémulas, sacudindo as pequeninas estrelas de prata, que a travessura dos cafezeiros neles entrançara, enquanto ela me ralhava, sorrindo, com aqueles lábios em cujos cantos a tristeza cavara vincos fundos, e com os seus pobres olhos azuis embaciados pelas lágrimas... que eu ainda não compreendia, não via!...

 

Minha mãe!...

 

Lembras-te, Cosette?... Foi pouco depois da morte dela que nos encontrámos.

 

Tu tinhas então 12 anos, eras uma criancinha pálida, magra, quase esfarrapada, com todas as torturas dum anjo que sofre no inferno da miséria.

 

Eu tinha o coração retalhado pela dor da perda recente da minha mãe, o único ente que me teve amor... o amor de mãe!

 

Que vida a minha naquele tempo, durante os primeiros seis meses depois da sua morte!...

 

Coberto de luto, pobre, doente, quase sórdido, encerrado todo o dia a sós no escuro escritório, onde tinha um modesto emprego, com que provinha à minha parca subsistência, eu vivia como estranho ao mundo, alheia à existência, julgando-me odiado até de Deus, desconfiado de todos... e por isso mesmo, olhado por todos com legítima desconfiança. Hoje é que o sei...

(Continua)

 

 

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