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O Sonho – Memórias dum Doido (2)

Brito-Semedo, 16 Jun 10

Foto do Google, Autor Desconhecido

 

V

 

A minha única distracção, findo o pesado serviço diurno, era sair a passeio pelas cercanias da cidade.

 

Áridas e tristes, casavam-se elas então perfeitamente com o estado da minha alma.

 

Naquelas campinas desoladas, em que apenas algum espinheiro anão erguia os ramos, nos quais em vez de folhas se eriçavam espinhos, ali é que eu tinha algum desafogo, erguia a fronte, e espraiava os olhos em torno sem temor de encarar alguém... e encontrar um sorriso de mofa.

 

Dirigia-me ordinariamente para os lados do cemitério.

 

– Vamos visitar os mortos! dizia comigo.

 

Tinha uma certa simpatia por aqueles pobres diabos, que já não podiam rir-se de ninguém...

 

Passava pelo portão, demorando-me ali um tempo a olhar para dentro do lúgubre recinto, como procurando relembrar-me dos que para ali tinham ido, e depois seguia para cima, onde conhecia um sítio predilecto para descansar.

 

Chamam-lhe a Lapa, não me lembra de quê. E com efeito há ali uma lapa ou gruta, formada por alguns penedos enegrecidos que se debruçam uns para os outros encontrando-se no vértice. É situada numa pequena eminência que olha para o nascente e fica sobranceira ao cemitério, mas a distância.

 

Às horas da tarde há ali sombra e frescura agradável, enquanto o sol morde ainda as escalvadas planuras circunvizinhas, incandescentes dos ardores do dia. Além disso, erguendo os olhos dos arruamentos do cemitério, a vista espraia-se por largos horizontes, vendo quase em frente o panorama alegre da cidade com as suas casas mais bonitas de recente construção e pintadas de cores variegadas; para a direita as fazendas, com seus leques de palmeiras, que são as únicas árvores que alegram os arredores da cidade; mais ao longe a alfândega e a ponte nova, cuja cor vermelha sobressai agradavelmente do verde cambiante da vegetação por entre os claros das palmeiras; mas ao longe ainda, o ilhéu e o mar dum azul vivo, enrubescido pela reverberação das selagens do sol poente; e para a esquerda, as altas cordilheiras de montanhas que se levantam gradualmente para o interior da ilha até se perderem num como neblina azulada, que tem uns tons cheios de vagas melancolias.

 

Olhavam-me como um desses infelizes enfermos do espírito, um desses renegados que descrêem dos homens para os quais não há virtude nem bondade sobre a terra... um misantropo, enfim!...

 

Não! não era assim... talvez que eu fosse misantropo, na acepção rigorosa da palavra porque tinha o coração a transbordar de amargura... Mas não o tinha envenenado pela descrença nem pelo ódio aos homens.

 

Não! nunca a ninguém atribuí a causa dos meus males, nunca de ninguém me queixei, senão do meu triste destino... ou de mim mesmo.

 

Julgava-me um espúrio da existência, mas resignava-me, sofrendo.

 

Parecia-me que era geralmente mal visto, mas atribuía-a ao meu próprio modo de viver e às enfermidades do meu espírito, que não podia remediar, não tinha ainda forças para lutar contra o génio mau, o demónio da negra tristeza de que estava possesso.

 

E deixava-me ir na lúgubre corrente da existência que me fora talhada.

 

Era, sim, um grande desgraçado.

 

Se não odiava os homens, tinha deles, contudo, vago temor,

 

Não lhes fugia, mas também não os procurava.

 

Gostava pois de me ir sentar ali depois de boa caminhada, e passava longas horas recostado sobre a camada de folhas secas de que juncavam o solo umas enfezadas purgueiras que brotavam por entre a penedia, encruzando a entrada da gruta os seus ramos esguios e amarelentos. A purgueira é como as cabras, suas dilectas e afectuosas inimigas: ama os pedregais, e é ali que ela se deleita em mais caprichosos entrelaçamentos.

 

Bandos de pardais saltitavam à roda e por cima da lapa, chilreando inquietos, ao princípio assustados, depois com mais confiança, principalmente quando lhes fui levando migalhas de pão que espalhava pelo chão da gruta defronte, e que os mais atrevidos vinham apanhar quase à mão, em que eu me conservava muito quieto para não os afugentar. Às vezes, se me distraía a ler por mais tempo ou caía na sonolência anémica, ao despertar encontrava os pobres brutinhos quase entre os joelhos, fitando-me curiosos com os seus olhinhos redondos e doirados, e com os bicos enterrados entre as asas descaídas naquela posição de meio abandono e confiança das aves que dormitam ou repousam. Se, porém, estendia a mão, os de mais perto fugiam, e os outros ficavam saltitando irrequietos, cochichando entre si e voltando para mim as finas cabecinhas, como quem dizia:

 

– Então ele... não querem ver?!... Amigo! se nos queres dar mais pão, muito bem... Agora agarrar-nos... isso lá fia mais fino! porque os pardais têm olhos... e asas...

 

Naquele tempo, os pardais eram do número dos meus poucos amigos.

(Continua)

 

 

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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