Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Crónicas A Manduco... (3)

Brito-Semedo, 27 Jun 10

  Foto do Google, Autor Desconhecido

 

Não sabemos se conseguimos agradar aos leitores com o que escrevemos no número anterior. Ninguém deve, assim o esperamos, recusar ou suspender a sua assinatura por causa do título desta secção. Antes pelo contrário... a manduco, fazemo-lo com intuitos pacíficos e patrióticos.

 

Pela nossa parte confessámos: foi quase a manduco que nos amarraram a promessa de colaborarmos em uma das secções deste hebdomadário, à nossa escolha. Não escolhemos, inventamos esta. Não arrependidos da promessa, estamos satisfeitos com o nosso invento. Que nos leiam semanalmente quantos o saibam, será completa a nossa satisfação.

 

Assuntos não nos hão-de faltar; e quando o presente no-los não forneça, recorreremos à história da nossa terra. Se tal vier a suceder, verão os nossos prezados compatriotas, agora retraídos, ou separados por questões de lana caprina, que tempos houve em que andávamos mais unidos na defesa dos interesses comuns, havia câmaras, e não comissões, que se defrontavam com os governadores e os depunham...

 

*

 

Por hoje, supondo ante nós, mudos e atentos, todos os leitores efectivos de A Voz de Cabo Verde e mais um sem número de curiosos, que, depois de nos ouvirem, convertidos à sublime religião da Pátria, a única verdadeira e necessária; se apressarão por certo a se inscrever também como assinantes; supondo-nos incumbidos pelos manes das divinas filhas de Héspero, de uma alta e redentora missão, qual é a de lutarmos sem tréguas pela confraternização dos nossos mal-avindos irmãos, tomamos o ar inspirado de quem fala rosto a rosto com os deuses e, num brado formidável para que nos oiçam céus, terra e mar, diremos floreteando o manduco:

 

Hesperitanos!

Saúde e Fraternidade.

 

Os dois partidos que actualmente se degladiam na pátria de Juarez ensanguentando-lhe o solo feracíssimo enquanto a Águia norte americana afia as garras para recolher a presa de longe cobiçada, acabam de declarar à face do mundo em expectativa, que, no caso da intervenção estrangeira à mão armada, provenha donde ela provier, unidos de novo como um só homem na defesa da integridade pátria, voltarão as armas fratricidas contra o estrangeiro invasor, a quem farão uma guerra sem quartel, combatendo-o implacável e inexoravelmente até o lançarem para o sempre fora do solo sagrado do México.

 

Fazemos justiça, cabo-verdianos, ao nosso carácter e ao vosso patriotismo, acreditando que os descendentes dos “aztecas” de Montezuma não mais amam a sua pátria do que nós estas pobres e desafortunadas ilhas.

 

Pois bem. Urge que essa dedicação devida ao torrão natal se manifeste em obras e não em vãs palavras que o vento leva.

 

É necessário fortalecermo-nos pela união, concórdia e solidariedade de todas as vontades, pondo de parte para sempre preconceitos, mal entendidos, ambições, egoísmos e antipatias. É preciso esquecer tudo para o bem da Pátria. Cabo Verde é pequeno demais para andar dividido em facções... Seja apontado à execração pública como traidor aquele que persista em desejos de vingança ou concorra para a desarmonia da comunidade.

 

A manduco... vimos pregando a paz e o amor; não é estranhável, que o louro Filósofo Nazareno, o mansíssimo Jesus, também uma vez se indignou e correu a látego os vendilhões do Templo. E estamos em crer mesmo que se ele brandiu o látego é porque, com certeza, não conhecia o manduco.

 

*

 

Apareceu, vai em 3 meses pouco mais ou menos, A Voz de Cabo Verde, semanário dedicado, como no subtítulo se declara, aos interesses da província: o dever, pois, de todo o bom patriota era e é auxiliá-lo moral e materialmente.

 

Antes não havia outra publicação visando a tão nobre fim, e a sua falta estava fazendo-se sentir de uma maneira extraordinária.

 

Nós sempre lamentámos, e estivesse em nosso querer o preenchimento de uma tal lacuna, de há muito que o teríamos feito.

 

Esperamos que os malsins ou despeitados não desvirtuarão as nossas palavras insinuando que estamos reclamando por interesse particular. Não, senhores; neste jornal, só dispomos da presente secção. O que nos move, e nos obriga a não calarmos verdades, é o desejo que nutrimos de ver esta província ocupando o lugar que lhe compete, na vanguarda das suas irmãs.

 

A Imprensa, considerada na liberal Inglaterra como um 3.º poder de Estado, é hoje em dia um dos mais poderosos motores do Progresso.

 

É muito necessária a sua existência na sociedade actual. Moraliza e ilumina, atalaia vigilante da Justiça e da Verdade. É preciso, pois, não deixar morrer à míngua de assinaturas este auspicioso semanário; não deixar extinguir esta voz que se ergueu, sobre o mar morto do indiferentismo ambiente, a clamar pelos foros e regalias do nosso estremecido Cabo Verde.

 

Isto cabo-verdianos! Nós vo-lo rogamos instantemente... a manduco.

 

Temos dito.

AFRO

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Wilson Candeias

    Caro Professor Brito SemedoCabo Verde precisa de p...

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

subscrever feeds

Powered by